Mamma mia! Cristiano Ronaldo é jogador da Juventus

Ligação de nove anos ao Real Madrid chegou ao fim. Desgaste da relação com presidente Florentino Pérez motivou transferência. Em Turim, espera-o contrato de quatro épocas.

Cristiano Ronaldo num dos jogos com a Juventus, na Liga dos Campeões
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Cristiano Ronaldo num dos jogos com a Juventus, na Liga dos Campeões LUSA/KIKO HUESCA

Uns exclamaram mamma mia! Outros madre mía! Fosse em que língua fosse, ninguém ficou indiferente ao anúncio da transferência de Cristiano Ronaldo para a Juventus. Após nove épocas no Real Madrid, o internacional português vai conhecer o quarto clube – e o quarto campeonato – da carreira sénior. Não é um negócio “monstro” pelos padrões das transferências exorbitantes a que o futebol mundial tem vindo a acostumar-nos (ao que tudo indica, 112 milhões de euros terá sido o número “mágico”), mas tem uma carga simbólica monstruosa e impossível de ignorar.

Melhor marcador da história do Real Madrid (451 golos), aos 33 anos Cristiano Ronaldo deixa o clube pelo qual conquistou quatro das cinco Bolas de Ouro e quatro das cinco Ligas dos Campeões (num total de 16 títulos) que tem no currículo. Uma decisão motivada mais pelo desgaste da relação com o presidente Florentino Pérez e a alegada insatisfação do futebolista com a falta de apoio institucional em relação aos problemas com o fisco espanhol (após meses de diferendo, Cristiano Ronaldo aceitou uma pena de prisão suspensa de dois anos e o pagamento de uma verba em torno dos 18,8 milhões de euros) do que pelos valores que a Juventus lhe oferece. O Real Madrid estaria disposto a igualar o salário oferecido pelos italianos, mas o laço de confiança estava quebrado e não era recuperável.

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A única coisa a atrasar a formalização transferência foi a forma como esta seria comunicada ao mundo. Apesar de a cláusula de rescisão no contrato de Cristiano Ronaldo ser de 1000 milhões de euros, havia um compromisso assumido pela direcção dos “merengues” de libertá-lo por um décimo desse valor – mas Florentino Pérez exigia que o futebolista português assumisse publicamente o desejo de sair. Era uma forma de transferir para Cristiano Ronaldo o ónus da saída – e o descontentamento dos adeptos.

Do lado italiano, o tempo passou-se num jogo de paciência. O “namoro” tornou-se mais intenso desde aquela noite, em Abril, que terminou com os tifosi "bianconeri" a aplaudirem Cristiano Ronaldo pelo golo “de bicicleta” que marcou à Juventus, nos quartos-de-final da Liga dos Campeões.

Apesar de terem visto terminar (mais uma vez) o sonho de conquistar a Champions, os adeptos italianos reconheceram o superlativo gesto técnico do português, e isso deixou Cristiano Ronaldo tocado. “Desde miúdo que gostava da Juventus. Ser aplaudido aqui fica-me no coração”, diria mais tarde o futebolista português, que passadas algumas semanas, após o triunfo sobre o Liverpool na final da Champions, falava já em tom de despedida: “Foi muito bonito jogar no Real Madrid.”

De onde vem o dinheiro

A Juventus aguardava-o de braços abertos. O preço de “desconto” de 112 milhões de euros (100 milhões a pagar em dois anos ao Real e os restantes 12 milhões a pagar a outros clubes, dos quais 2,25 milhões ao Sporting por direitos de formação) não era válido para emblemas que o Real Madrid encarava como rivais (Barcelona, Atlético de Madrid e Paris Saint-Germain) mas deixava o caminho aberto ao emblema de Turim. Era uma questão de encontrar a folga financeira necessária. De acordo com o relatório anual Deloitte Football Money League, em 2017 a Juventus – liderada por Andrea Agnelli, herdeiro da FIAT e cuja família, através da sociedade EXOR N.V., detém 63,8% das acções do clube – teve receitas de 405,7 milhões de euros, um aumento de 66,8 milhões (20%) relativamente ao ano anterior, ajudado pelo encaixe recorde de 110,4 milhões de euros em prémios da UEFA.

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Porém, a contratação de Cristiano Ronaldo envolvia valores na ordem dos 340 milhões de euros pelos quatro anos de contrato oferecidos pelos italianos: 100 milhões a pagar ao Real Madrid e 60 milhões de euros de ordenado anual (o que se traduz num vencimento líquido de 30 milhões ao ano para o futebolista português). As contas da Juventus para tornar possível a mudança de Cristiano Ronaldo para Turim passavam pela necessidade imperiosa de aumentar as receitas, escrevia o diário italiano La Repubblica: angariar um ou dois novos patrocinadores, por exemplo para os equipamentos de treino; vender jogadores para obter 50 a 60 milhões (Higuaín e talvez Pjanic são os principais candidatos à saída); facturar mais 20 milhões em bilheteira – o que levou desde logo a um aumento do preço dos bilhetes de época, que iam dos 540 aos 1795 euros em 2017-18 e agora estão entre 595 e 2055 euros – e finalmente ao incremento das receitas de merchandising. Mas isso não será um problema para quem vai passar a contar com uma marca reconhecida a nível global como Cristiano Ronaldo.

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Esgotada a relação e a tolerância mútua com Florentino Pérez, o rumo do internacional português era afastar-se de Madrid. Pretendentes não faltavam, mas a escolha da Juventus acaba por ser óbvia por aquilo que lhe oferece: é um clube vencedor em série a nível interno (leva sete títulos consecutivos no campeonato italiano, com vantagens pontuais sobre o segundo classificado que foram dos quatro aos 17 pontos), tem capacidade financeira, e ambiciona voltar a vencer a Liga dos Campeões. Agora, que os “bianconeri” contam com o melhor marcador da história da competição, esse objectivo tornou-se muito mais real.

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