A crise no Governo alemão nasceu na Baviera - porquê?

A crise política das últimas semanas na Alemanha nasceu na Baviera e na CSU, um dos partidos políticos com mais sucesso no mundo.

Horst Seehofer, Baviera
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Se perguntarem a alguém da Baviera como se define, é provável que a resposta seja primeiro bávaro, e só depois alemão. No resto da Alemanha, a Baviera também é vista como algo um pouco à parte, uma região de riqueza mas também de pessoas com os trajes tradicionais, homens de Lederhosen e mulheres de Dirndl, que são usados muito para além do festival de cerveja Oktoberfest.

A Baviera é um estado federado especial na Alemanha e o seu principal partido, a CSU, tem um estatuto político único. Há mesmo quem diga que a verdadeira divisão no país é entre o Norte e o Sul (protestante/católico) e não entre a parte Ocidental e Oriental, separadas durante décadas pelo Muro.

Daí que não seja totalmente espantoso que o mais recente conflito político no país tenha tido origem aqui. A Baviera tem eleições em Outubro, e a subida do partido anti-imigração AfD (Alternativa para a Alemanha) está a ameaçar a CSU (União Social Cristã), levando o partido a querer fortalecer-se na defesa da “lei e ordem” para não dar tanto o flanco à direita. Isto mesmo ameaçando um acordo de décadas com a CDU (União Democrata Cristã), da chanceler Angela Merkel.

A CSU tem um estatuto hegemónico na Baviera como nenhum outro partido em nenhum outro estado federado. É mesmo considerada um dos partidos com mais sucesso do mundo: após o final da II Guerra, a CSU só ficou fora do governo uma vez, entre 1954 e 1957, liderando desde então o estado, a maior parte do tempo sem sequer ter a necessidade de formar uma coligação (de 1962 a 2008 governou sozinha).

Parte do sucesso da CSU é o sucesso da Baviera, onde o slogan “Laptops e Lederhosen” mostra como a modernidade das empresas e a forte economia convive com a importância da tradição. É o segundo estado federado alemão em PIB e partilha com o vizinho Baden-Württemberg a mais baixa taxa de desemprego (3,8% quando a média nacional alemã é 6,3%).

O que é, então, uma derrota para a CSU? O resultado de 43% das eleições de 2008 foi considerado muito mau. Foi, aliás, nessa altura que o partido decidiu que precisava de mais um líder carismático (como os históricos Franz Josef Strauss ou Edmund Stoiber), mesmo que arriscado pelo seu carácter algo imprevisível e pouco diplomata. Entrou então em cena Horst Seehofer – figura incontornável nos últimos dez anos, governador do estado até passar o cargo no ano passado numa disputa com o rival Markus Söder.

Se a CSU tem este sucesso, parte deve-se ao seu acordo com a CDU. Logo após o final da II Guerra, a CDU juntou vários partidos em vários estados, mas a CSU preferiu ficar de fora. Assim, os dois têm um entendimento único em que nenhum concorre, ou faz campanha, no território do outro: a CDU em todos os estados federados excepto a Baviera, a CSU apenas na Baviera.

Isto permite à CSU ser ao mesmo tempo um partido regional e nacional, mas apresentar-se como o defensor dos interesses bávaros. O seu slogan nas últimas eleições legislativas foi: “A Baviera em primeiro lugar” – a semelhança com o “America First” de Donald Trump não passou despercebida.

Mais conservador

A disputa recente tem muito a ver com isto: Horst Seehofer, o actual líder da CSU, sempre disse que a prioridade é a Baviera, e como ministro do Interior, o seu desentendimento com Merkel tinha como central uma medida a aplicar na fronteira entre a Baviera e a Áustria para fazer diminuir a entrada de requerentes de asilo (os que já estavam registados noutro país da União Europeia). Apesar desta medida dizer respeito a muito poucas pessoas – cinco por dia no máximo, admitiu o ministério em resposta a um pedido de informação do partido de esquerda Die Linke.

Por outro lado, se a CSU defende os interesses locais, o partido não é só a variante regional da CDU: é um partido mais à direita. Franz Josef Strauss, durante muito tempo líder da CSU e que dá nome ao aeroporto de Munique, tinha como mantra que não poderia haver um partido legítimo à direita da CSU.

A via mais centrista da chanceler alemã não é consensual nem na própria CDU (que não a desafiou abertamente enquanto Merkel era garantia de bons resultados eleitorais), e ainda menos na mais conservadora CSU.

Alexander Dobrindt, o líder do grupo parlamentar da CSU no Parlamento, falou mesmo recentemente numa entrevista ao diário Die Welt na necessidade de uma “revolução conservadora” na Alemanha que se siga à “revolução das elites da esquerda”.

A subida nas sondagens do partido AfD – primeiro anti-euro mas que virou para uma força xenófoba, anti-islão e de direita muito radical – fez soar os alarmes na Baviera. Com slogans de campanha como “Burqa? Preferimos burgunder” ou “Burqas? Preferimos biquinis” a AfD atacou mesmo à direita da CSU e jogou com um medo de “islamização” da sociedade.

A CSU respondeu este ano com medidas como a obrigatoriedade de afixar crucifixos na maioria dos edifícios públicos. Universidades e teatros, potenciais rebeldes, foram excluídos, mas todos os restantes locais, de centros de emprego a hospitais, passando pelas esquadras de polícia, exibem agora o símbolo religioso.

Discórdias antigas

A CDU e a CSU têm uma longa história de entendimentos e desentendimentos, ainda que nunca nenhuma discórdia tão forte como a actual. Em 1976, Franz Josef Strauss tentou forçar a saída de Helmut Kohl numa tirada muito violenta, chamando-lhe totalmente incompetente e prevendo que este nunca venceria; seis anos mais tarde Kohl foi eleito e tornou-se mesmo o chanceler “eterno”: governou durante 16 anos, um recorde que Merkel, chanceler desde 2005, ainda não superou.

Franz Josef Strauss ainda chegou a ser candidato a chanceler em 1980, a primeira vez que o candidato da CDU-CSU veio do partido bávaro, perdendo para o social-democrata Helmut Schmidt, que foi reeleito. A situação repetiu-se com o segundo e último candidato da CSU, Edmund Stoiber, que em 2002 não conseguiu bater o chanceler da altura, Gerhard Schröder.

Caso a CSU decidisse acabar com o acordo de 1945 com a CDU, seria dos dois partidos, o que mais ficaria a perder: uma sondagem do instituto Forsa dizia que 54% dos eleitores da CSU na Baviera votariam CDU se tivessem esta opção. A CDU poderia obter 33% numa eleição no estado federado, segundo a mesma sondagem. Pior sinal para a CSU, na recente discórdia entre Merkel e Seehofer, 39% dos inquiridos disseram que o principal problema da Baviera era a CSU (mais do que os 30% que referiram os refugiados como principal problema).

Alguns analistas disseram que Seehofer sabia que tinha os dias contados, e ainda que, quando caísse, queria arrastar Merkel com ele. Esta crise entre os dois partidos tem um lado de animosidade pessoal entre a impassível Merkel, cuja imagem de marca é a sua “pokerface” (nunca ninguém sabe o que pensa), e o desbragado Seehofer, que se define pela postura relaxada (e as farpas quer a aliados quer a inimigos).

A relação entre Seehofer e Merkel não é especialmente boa há muito tempo. Ele já se demitiu por causa dela da vice-liderança parlamentar do partido em 2004, ainda era chanceler o social-democrata Gerhard Schröder e Merkel líder da oposição. Em 2016, os dois passaram meses a discordar sobre um limite máximo de entrada de refugiados no país, e mais recentemente, quando Seehofer assumiu o Ministério do Interior, sobre se o islão faz ou não parte da Alemanha. Nas últimas semanas, um novo ponto baixo. Seehofer terá dito que não consegue trabalhar com “aquela mulher”, e que Merkel só é chanceler por causa dele.

Refugiados e a percepção

Seehofer também não perdoou a Merkel a decisão de não fechar as fronteiras em 2015 quando muitos refugiados (na altura falava-se de um milhão, hoje sabe-se que o número foi 890 mil) entraram no país, e pior, de dizer que receberia todos os sírios que quisessem.

A maioria das pessoas chegaram via Áustria à Baviera, onde foram recebidas por cidadãos que lhes deram as boas vindas nas estações de comboios. Mas a gestão dos refugiados foi complexa, muitos passaram meses a dormir em pavilhões desportivos escolares ou comunitários, grande parte do esforço foi feito graças ao envolvimento da sociedade civil, e o grande desafio passou de ser uma obrigação humanitária para se tornar um fardo, quer para muitos voluntários, quer para as autoridades.

O espírito mudou, algo espelhado pela mudança também no diário mais vendido no país, o tablóide Bild, que passou de pró-refugiados (levou mesmo a cabo a campanha “nós ajudamos” em 2015) a crítico das ieias de Merkel: “Como a política está a falhar na crise dos refugiados”, escrevia em 2016.

Logo a seguir a este volume de entradas, Merkel levou a cabo uma política de dificultar reunificações familiares de refugiados noutros locais (como a Grécia) e enviar de volta pessoas para o Afeganistão declarando-o um “país seguro” (em 2017 foram deportados 470 afegãos). Promoveu um acordo entre a UE e a Turquia, para que os refugiados não chegassem à Grécia, e muitos dos sírios no país receberam um estatuto de protecção secundária (ou seja temporária) e não de refugiado. A ideia era fazer diminuir drasticamente as chegadas à Alemanha, e resultou.

Mas esta é uma batalha pouco baseada em factos, e há, também, um problema de percepção. A criminalidade, por exemplo, baixou em 2017. Mas os poucos casos envolvendo refugiados ou requerentes de asilo (um atentado, uma violação, um assassínio) foram suficientes para deixar muitos a achar que foram ingénuos – são acusados de ser Gutmensch, “boa pessoa”, neste caso um termo pejorativo para os que são excessivamente bondosos por ingenuidade e para ganhar aprovação social pela sua benfeitoria, e normalmente também são “politicamente correctos”.
Qualquer semelhança com discursos na América de Trump não são mera coincidência, e analistas criticaram fortemente Seehofer quando este disse recentemente que não era só na América de Donald Trump que havia “fake news”.

Como dizia num artigo do New York Times Wolfgang Jirschik, presidente da câmara da pequena cidade de Baierbrunn, “não é preciso fazer com que a Baviera seja óptima outra vez [mais uma referência a um slogan de Donald Trump]. Já está óptima agora”.

Mas o orgulho bávaro é particular dentro da Alemanha, notou ao jornal americano Klaus Reichold, historiador e especialista em folclore da Baviera. “O nacionalismo bávaro é tolerado desde 1945”, disse. “Pode-se ultrapassar o tabu alemão em relação ao nacionalismo sendo bávaro.”