Crítica

Ainda há um paraíso perdido entre a serra e o mar do Algarve

No restaurante Vistas, além do espaço e enquadramento, há o privilégio de uma cozinha evoluída, que mima texturas e sabores, e um serviço de vinhos que explora a diferença e identidade. Vale a pena!

Cozinha vegetariana, Café da manhã
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Integrado num resort vocacionado para o golfe, o restaurante Vistas é uma espécie de paraíso perdido num Algarve em grande parte ainda desconhecido. Na região do Sotavento, já a caminho da serra mas com o mar à vista espraiando-se pelas praias de Cacela, Manta Rota e Altura, está um Algarve ainda praticamente intocado, selvagem, rústico e pobre, de que dificilmente se suspeita face à profusão de postais ilustrados de sol, praia e urbanismo compacto.

Sim, ainda há um Algarve rústico e selvagem, e poder dele desfrutar num espaço como o restaurante Vistas é, de facto, um grande privilégio. O Monte Rei Golf & Country Club, assim se chama o empreendimento que tem uma área enorme de 440 hectares preservando todas as características naturais e de enquadramento. Pelo menos por enquanto, já que, a somar ao campo de golfe com a assinatura de Jack Nicklaus, se vai juntar um segundo e às belas e luxuosas villas implantadas na suaves encostas se vai acrescentar um hotel com 65 suítes e cresce já um bloco de apartamentos, tudo devendo estar em funcionamento em 2022.

A ambição gastronómica aponta para que ao Vistas se junte mais um restaurante fine dining no novo hotel com a pretensão de virem rapidamente a integrar o universo Michelin. Pelos vistos, os próximos tempos reservam algumas novidades.

Para já é no Vistas que está o foco dos responsáveis, um espaço acolhedor e requintado que funciona no edifício que serve de recepção ao empreendimento. A partir de Vila Nova de Cacela, é preciso percorrer uma meia dúzia de quilómetros pela suave encosta em direcção à serra, sempre devidamente guiados por placas indicativas.

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À sala, de enorme pé direito e decoração elegante de estilo clássico, junta-se um aprazível e mais descontraído terraço, mais do que convidativo para este tempo de esperado Verão. O chef, Albano Lourenço, é há muito um dos mais respeitados no panorama nacional. Foi dos primeiros portugueses a receber o reconhecimento da estrela Michelin, que durante vários anos mimou no Arcadas da Capela, na Quinta das Lágrimas, em Coimbra. Acompanha-o Nuno Pires, um escanção algarvio que é um apaixonado por vinhos que exprimem diferença e identidade, incluindo os vários algarvios que incluiu na lista e com os quais lança interessantes desafios à clientela. Não fosse por mais, e só pelo convívio e competência de Nuno Pires estaria justificada a viagem.

É entre os produtos locais, do mar e da serra, que o chef se orienta. Sentir a brisa do mar e os aromas da terra, que também tanto gosta de remexer para cultivar a própria horta. A par do serviço à carta, são propostos dois menus degustação: o do chef (95€), com cinco momentos de degustação e duas sobremesas; e o Vistas (73€), com três momentos e uma sobremesa. A combinação com vinhos proposta por Nuno Pires custa 60€ ou 50€, respectivamente.

No menu do chef, parece ser o robalo, com xerém de carabineiro, ovas de salmão e molho de champanhe, aquele que mais se aproxima da matriz de Albano Lourenço, de ligação aos produtos e tradições locais. Há também o leitão, com cabidela de batata a denunciar as suas raízes nas proximidades da Bairrada, e o molho de amêndoa que o recoloca no universo algarvio.

No menu Vistas, o atum algarvio combina com funcho, vinagreta de ananás e gelado de wasabi e o bacalhau com creme de aipo e coentros, mas, independentemente de produtos e possíveis combinações, o que verdadeiramente marca a cozinha de Albano Lourenço é a forma como define os sabores e texturas de cada elemento que coloca no prato. Um primor de execução que só conseguem aqueles que conhecem as raízes. Sabem de onde vêm, o que são e a que sabem cada um dos ingredientes.

Quase comovente a forma quase natural, singela e profunda como os apresenta no carabineiro com que nos deliciámos. A par da composição floral do prato — harmonia e vivacidade de cores —, as texturas e sabores imaculados tocam a emoção. Absolutamente deliciosa a forma como incluiu a couve-flor, a deixa de que necessitava o escançao para servir o branco D. Graça à base da casta Donzelinho, que precisamente evoca aromas da cozedura de couve-flor. Genial!

Um rigor técnico que logo se evidenciou no acerto dos amuse-bouches, com uma almofada de borrego e tapenade de azeitona, minicorneto com queijo, e espuma, de S. Jorge, ou a sopa de tomate algarvia com ovo de codorniz, azeitona e presunto desidratado. Tudo tão definido e saboroso que toca, de facto, a comoção.

Provámos também o gaspacho de morango com ostra de Cacela, numa combinação genial com pepino e lima que enchia a boca com sensações de mar salgado e tanino da madeira, para fechar com um naco de carne Black Angus a sublinhar mais uma vez a finíssima harmonia de textura e sabor.

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Uma harmonia que se estende aos objectivos do escanção, mesmo que para isso haja que ceder um pouco. Com um sobremesa a destoar claramente do nível do que até então tinha sido servido, o leite-creme de café com gelado de queijo da serra tinha, afinal, como função fazer brilhar o Carcavelos 89, um vinho único e extraordinário e do qual só existirão umas duas ou três garrafas. É também por este pormenores que a emoção nos assalta.

Um aplauso duplo, portanto, para uma dupla chef/escanção, que, a par da harmonia, sabem potenciar a complementaridade que dá valor e potencia a experiência gastronómica.

Em contexto sossegado, relaxado e descontraído, além das vistas paradisíacas, há um serviço exemplar. Há um outro Algarve que também merece a atenção dos gastrónomos, ainda por cima com o plus de um serviço de vinhos que não deixará de cativar até os mais experimentados.