Com Fela, a música era sempre uma arma

A mais empenhada voz anti-poder na música africana foi a inspiração para o espectáculo de Serge Aimé Coulibaly, Kalakuta Republik , que estreia hoje no Festival de Almada.

O Teatro Warfield, Fela Kuti
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A semente da insubmissão estava plantada em Fela Kuti desde cedo. O pai, o reverendo Israel Ransome-Kuti, foi fundador de vários sindicatos de estudantes e professores na Nigéria; a mãe, Funmilayo Ransome-Kuti, liderou várias manifestações em Abeokuta, contra a política fiscal da cidade, conseguindo expulsar o líder local de então. Esta curta filiação no protesto é elencada por Dorian Lynskey em 33 Revolutions per Minute, livro em que se dedica a escalpelizar 33 canções que fizeram História enquanto música criada para desafiar o poder, clamar por mudanças sociais, guiar consciências, ganhar visibilidade por meio do choque ou, no limite, fragilizar o reinado de déspotas de todo o mundo.

Fela Kuti é a presença africana num livro confessadamente marcado por limitações geográficas – com total predominância de autores anglófonos. Mas é justo que, a haver um só representante africano, essa escolha destaque a vida e a obra de Fela. Nenhum outro músico terá levado tão longe uma tomada de posição contra os governantes do seu país a ponto de reclamar a independência do lugar onde vivia. Foi após os primeiros momentos de tensão com as autoridades, numa altura de enorme popularidade e em que o seu estilo de vida desabrido parecia afrontar o poder, depois, portanto, das suas primeiras passagens pela prisão, que Kuti decidiu reivindicar um estado autónomo nos arredores de Lagos, a Kalakuta Republic, onde mandava ele próprio, o auto-denominado Black President.

De toda uma longa colecção de canções que em Fela Kuti desafiava convenções sociais, religiosas, o pensamento colonialista e a submissão que tinha apensa, ou políticas governativas, Lynskey destaca Zombie como o exemplo mais contundente de um Fela contestatário – cujo verdadeiro nascimento se deu após o contacto com o movimento Black Power, em finais dos anos 60, nos Estados Unidos. E é fácil de justificar: Zombie, tema de um faiscante afrobeat, dirigia-se crítica e sarcasticamente aos militares nigerianos que cumpriam ordens como se não carregassem consigo um cérebro que as pudesse questionar.

O resultado não se fez esperar e, em 1977, o ataque desferido pelos militares contra a Kalakuta Republic destruiu o espaço da comuna, o clube Africa Shrine, todas as fitas e gravações originais de Fela e terá resultado (volvidos dois meses) na morte da mãe do músico. A resposta do músico tomou forma sob temas cada vez mais revoltados e uma falhada tentativa de se candidatar à presidência do país. Mas o feito político de Fela nunca passou pelas urnas; passou antes por elevar sempre a música a uma arma de combate.