A revolução de Fela Kuti nos corpos de Serge Aimé Coulibaly

A música de Fela começou a servir de pano de fundo para as criações de Coulibaly, aos poucos ameaçando ganhar protagonismo. Aé ao ponto em que o coreógrafo percebeu que teria de colocar o músico nigeriano no centro da sua criação: Kalakuta Republik é um dos pontos altos da programação do Festivalde Almada

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No dia do seu 49.º aniversário, Fela Kuti teve poucas razões para celebrar. Foi a 15 de Outubro de 1987 que o Presidente do Burkina Faso, Thomas Sankara, foi assassinado. Fela, amigo de Sankara, havia de manifestar o seu pesar e classificar tal desaparecimento como “um terrível golpe na vida política dos africanos”, justificando que aquele era “o único [dirigente político] que falava sobre a união africana, sobre aquilo de que os africanos precisam para avançar na direcção do progresso”.

Apenas quatro anos no poder (1983-87), Sankara, teórico pan-africano de linhagem marxista, foi o responsável pelo novo nome de baptismo do país, trocando o Alto Volta (taxado pelos colonizadores franceses) por Burkina Faso. Fela Kuti via nele um dos raros políticos africanos capazes de enfrentar o status quo e agitar as elites, tomando o seu assassínio como a reacção desses privilegiados perante a ameaça da perda de influência. Em 1992, Fela homenageava Sankara em Underground system, tema em que declara a sua convicção de que aqueles que matam em nome da manutenção de um sistema corrupto podem ter-se desembaraçado do seu amigo, mas jamais seriam capazes de matar os ideais que motivaram a sua morte – os resultados da autópsia, passados mais de 30 anos, estão ainda por conhecer.

Serge Aimé Coulibaly tinha 14 anos quando Fela Kuti visitou o Burkina Faso, a convite de Thomas Sankara. E foi a figura de Fela que primeiro o cativou – antes sequer da música. “Na altura fiquei sobretudo intrigado por ele, mais do que apaixonado pela sua música – nesse tempo estava mais interessado no Michael Jackson e na Madonna”, ri-se o autor de Kalakuta Republik, um dos pontos altos da programação deste Festival de Almada (em cena esta sexta-feira, na Escola D. António da Costa, em Almada). Desse dia remoto, a memória do bailarino e coreógrafo guardou, antes de mais, a emissão especial da televisão do seu país, que fez do inventor do afrobeat o seu assunto “de manhã à noite”. Poucas figuras haveria então tão claras e activas no apelo a uma revolução africana contra os poderes corrompidos quanto o era Fela Kuti, identificado como claro inimigo de sucessivos governos na Nigéria. “E Thomas Sankara”, diz Coulibaly traçando a linha de união entre os dois, “foi aquele Presidente que alterou a vida no Burkina Faso em quatro anos, que mudou tudo e pôs na cabeça das pessoas que temos de ser o motor do nosso próprio desenvolvimento – era a personificação de uma força positiva que nos impelia para a frente.”

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Liliom — Vida e Morte de um Vagabundo, de Jean Bellorini , sobre criadas, feirantes e vigaristas de bairro, é uma peça sobre segundas oportunidades

Essa linha que Coulibaly traça entre os dois, no entanto, só ganhou espessura anos mais tarde. Michael Jackson e Madonna deslumbravam-no, como é fácil de perceber, pelo lado performativo de uma pop destinada a cativar todos os sentidos, a inebriar a juventude com cenários onde tudo parecia possível. A música de Fela – quente, suada, pouco encenada e mediatizada, parida em noites em que a liberdade era inventada e reivindicada em lugares como o seu clube-templo, o mítico Afrika Shrine, na noite escaldante de Lagos – tinha um apelo mais longínquo do que a América, por não ser testemunhada ou vivida na pele. Essa linha só se tornou óbvia com a entrada do YouTube na vida de Serge Aimé. Foi ao vasculhar pelos labirínticos caminhos da plataforma de vídeos que descobriu um documentário dedicado a Fela, Music Is the Weapon, responsável pela total transformação da sua visão sobre o percurso do músico. “Esse documentário tornou-se uma bíblia para mim enquanto artista”, confessa ao Ípsilon. “A partir daí percebi que não se podia ser um artista em África e ser apolítico.”

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Se a música de Fela começou a servir de pano de fundo para as criações de Coulibaly, foi, aos poucos, ameaçando ganhar protagonismo, até ao ponto em que o coreógrafo percebeu que teria de colocar o músico no centro da sua criação

A música de Fela Kuti foi-se, assim, infiltrando na obra coreográfica de Serge Aimé Coulibaly, desde que, em 2002, criou a sua estrutura, a companhia Faso Danse Théâtre em Ouagadougou. O afrobeat de Fela funcionava como impulso para os corpos que Coulibaly animava em palco, lembrando o coreógrafo de que, em cada peça, por mais que a linguagem fosse física e pudesse aproximar-se de um lado poético – que ensaiou enquanto bailarino com Alain Platel e Sidi Larbi Cherkoui –, havia um compromisso político a respeitar e a levar para palco. “Todas as peças que fiz desde a minha juventude ocupam-se de questões políticas”, confirma. “Porque, para mim, as grandes questões em África não são financeiras nem raciais, são puramente políticas.” E se Fela usava a música como um agente de mudança, então era também isso que Serge Aimé Coulibaly se propunha fazer com as suas criações coreográficas.

Se a música de Fela começou a servir de pano de fundo para as criações de Coulibaly, foi, aos poucos, ameaçando ganhar protagonismo, até ao ponto, em 2015, em que o coreógrafo percebeu que teria de colocar o músico nigeriano no centro da sua criação. Talvez porque Nuit Blanche à Ouagadougou, no ano anterior, tinha aproximado até ao limite realidade e criação artística. Depois de Solitude d’Un Homme Intègre (2007, em homenagem a Sankara) ou de Babemba (2008, em que recuperava quatro figuras fundamentais na História recente africana: Sankara, Nelson Mandela, Patrice Lumumba e Kwame Nkrumah), Nuit Blanche era um apelo indisfarçado à revolução, um espectáculo de sublevação que cruzava música, teatro e dança, contando com a participação do rapper Smockey.

Em palco, Smockey não escondia as palavras nem mascarava as suas intenções, desafiando bailarinos, actores e espectadores a lutar contra o regime de Blaise Compaoré. “Ele falou na cara do Presidente o que pensava, de forma muito directa, e foi banido de todas as rádios e televisões do Burkina Faso”, conta Coulibaly acerca do principal motivo para a colaboração entre os dois. Mas a retaliação não se terá ficado por aí – o seu estúdio foi destruído pouco depois por forças alegadamente próximas de Compaoré. Coulibaly queria esta força incendiária em palco. O que não esperava era que uma peça criada sob o desígnio da urgência de “fazer uma revolução e que tem de ser agora, não mais tarde”, localizada numa praça pública, encontrasse eco nas ruas decorridos apenas alguns dias sobre a estreia. E isto porque em Novembro de 2014, quando Compaoré se preparava para reforçar os seus poderes, três dias de revolta popular ditaram a sua capitulação.

Ficção e realidade

Kalakuta Republik vai buscar o seu título ao nome da comuna erguida por Fela Kuti nos arredores de Lagos, onde vivia com a sua família e os músicos da sua banda, e onde tinha construído um estúdio e uma unidade de saúde gratuita. Em 1970, o músico nigeriano declarou um estado de independência do restante território, em protesto contra a governação do país e reclamando a liberdade total para Kalakuta.

É esse espírito de absoluta liberdade que Serge Aimé Coulibaly tenta recriar na primeira parte de Kalakuta Republik. Até porque depois de comprar a obra integral do inventor do afrobeat, ter ouvido incessantemente o imenso património do músico durante um ano e comprado todos os livros que encontrou acerca do seu herói – “Não queria que alguém me perguntasse qualquer coisa sobre o Fela que eu não soubesse”, diz-nos –, empreendeu uma viagem à Nigéria para sentir na pele as noites do New Afrika Shrine. Esse contacto com a reconstrução do clube de Fela e o contacto com Seun e Femi Kuti (filhos do músico), haviam, no entanto, de retribuir-lhe com uma revelação – em vez de criar a partir da vida de Fela, deveria tomá-lo como inspiração. Em vez da biografia, a sugestão; em vez dos factos, as ideias.

A primeira das duas partes de Kalakuta Republik decorre, por isso, num ambiente de festa e de celebração de liberdade total. Há uma energia esfuziante nos movimentos dos bailarinos, uma leveza própria de corpos que não conhecem amarras e se relacionam de acordo com essa ausência de fronteiras e de regras. Quando estão em uníssono, o tom é quase de uma euforia colectiva. A segunda parte, com as cadeiras reviradas e o cenário de um possível Shrine claramente em ressaca, o tom é de languidez pós-festa, não menos sensual, mas em que as luzes baixam, os corpos desaceleram, as sombras instalam-se.

Se Nuit Blanche continha em si o prenúncio da mudança de ciclo político – consumado com a saída de cena de Compaoré e a ascensão de Roch Kaboré –, forçada por muitos artistas que estavam de microfone em punho na primeira linha, a mobilizar a juventude para a revolução, Kalakuta Republik reflecte nestes dois blocos o posicionamento político de Coulibaly face aos acontecimentos. Primeiro, a esperança e a crença na liberdade; depois, a necessidade de ser consequente e não deixar que essa esperança degenere em falhanço. “A esperança é morta muito rapidamente”, aponta. “É algo que vemos acontecer em África a toda a hora. Vemos alguém aparecer, fazer um bom discurso, prometer que mudará o estado das coisas, e depois tudo falha e é terrível.”

Afinal, Fela Kuti morreu em 1997 e África não mudou tanto quanto Coulibaly acredita que seria desejável. “Claro que muitos dos antigos ditadores morreram e temos sociedades um pouco mais democráticas”, concede. “E eu sei que apesar de muitos países terem eleições, estarem a crescer as classes médias e as mudanças a terem lugar, começámos muito mal e precisamos de tempo.” Dito isto, no entanto, o coreógrafo questiona a forma como esta transição, em muitos casos, tem sido um autêntico logro, “substituindo franceses, ingleses e espanhóis por africanos, mas sem mudar o sistema”. Uma mudança de cabeças sem efectuar a limpeza necessária para tratar sociedades construídas sobre pressupostos de corrupção que foram mantidos.

O combate, no entanto, passa também pela projecção para o exterior, diz. Serge Aimé recorda-se bem de quando visitou Los Angeles pela primeira vez e a sua cabeça ia cheia de edifícios sem fim, automóveis imaculados a prometer vidas desafogadas e estrelas de cinema a cada esquina. E voltou para o Burkina Faso chocado com a quantidade de gente que viu a dormir nas ruas ou a abastecer-se desesperadamente no lixo. Daí que os bailarinos de Kalakuta surjam em palco com pinturas tribais, em choque com o vestuário pouco étnico, criando uma fricção entre essas imagens tipificadas e preguiçosas, e a realidade do continente. “Por vezes sinto que África é uma ficção”, diz Coulibaly. E o seu trabalho é também esse: o de mudar o que África é e pode ser para quem assiste de longe e para quem vive naquela terra quotidianamente. Para que a ficção possa, afinal, emanar um desejo de realidade. Para que uma possa cada vez mais parecer-se com a outra.

O Ípsilon viajou a convite do Festival de Almada

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