O triunfo da vontade

Hitler e o seu carisma: mais uma biografia para explicar o inexplicável.

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Uma biografia do Führer apresentada sob o leitmotiv do seu carisma

Historiador e documentarista da BBC durante muitos anos, Laurence Rees tem utilizado o material que acumulou na feitura de programas televisivos para produzir diversos livros sobre a 2ª Guerra e o período nazi, o mais famoso dos quais foi, sem dúvida, Holocausto. Uma Nova História (Vogais, 2017).

Se é como historiador do Holocausto que tem ganho proeminência, esta sua incursão pela ascensão e queda de Adolf Hitler possui os ingredientes certos para se converter num sucesso de vendas, já que, de uma forma ou doutra, continuamos fascinados pelo carisma do Führer e, sobretudo, intrigados pela questão que também dilacera o autor deste livro, a de saber como foi possível a um pintor de paisagens para turistas, que sobrevivia num quarto alugado de uma ruela de Munique, tornar-se líder de um dos povos mais avançados da Europa da época. Felizmente, Rees não cede à tentação fácil de atribuir ao carisma de Hitler a única chave explicativa para tão grande mistério. Ainda assim, o facto de se centrar no estudo da personalidade do autor de Mein Kampf acaba por levá-lo, o que é compreensível até certo ponto, a valorizar essa dimensão individual, relegando para um plano secundário, raras vezes convocado, questões de índole estrutural. Se retomarmos uma dicotomia que polarizou as abordagens do Holocausto – a que dividia, e ainda divide, “funcionalistas” e “intencionalistas” -, concluiremos que a aproximação de Rees parece situar-se neste último campo, o do intencionalismo, centrando-se no comportamento dos agentes e protagonistas muito mais do que na influência de dinâmicas, organizações ou estruturas.

Não pretende este livro, todavia, configurar-se como um contributo historiográfico original do ponto de vista interpretativo. Rees, aliás, confessa honestamente que a grande novidade da sua obra não está na leitura a que procede da atracção que Hitler exerceu sobre os alemães mas sim na quantidade – impressionante, mas tardia – de testemunhos obtidos através das entrevistas feitas quando exerceu funções como documentarista televisivo. Daí que este livro, num balanço global, acabe por se constituir acima de tudo como uma biografia de Adolf Hitler, a par de tantas e tantas outras que têm sido publicadas, inclusive em português, muitas das quais de maior fôlego e profundidade, como as de Joachim Fest ou Ian Kershaw. Simplesmente, e além de ter uma dimensão que torna a leitura comportável (o que não sucede, desde logo, com o trabalho esmagador de Kershaw), o facto de a vida de Hitler ser escrutinada pari passu sob o prisma do carisma acaba por tornar a leitura francamente apelativa, tanto mais que, repete-se, Laurence Rees não pretende erigir tal característica pessoal ao nível de explicação única para a emergência do III Reich. Desengane-se, porém, quem ler este livro com a convicção de que, terminada a leitura, estará na posse de uma explicação cabal para a retorcida personalidade do Führer. Mesmo no que se refere ao aspecto mais circunscrito do carisma, Laurence Rees não fornece uma explicação convincente, pois não é sequer seu propósito “explicar” o que quer que seja. Avança, isso sim, uma exposição narrativa ou, se quisermos, um encadeado de factos, alinhados cronologicamente e a partir de testemunhos de terceiros, escritos numa linguagem envolvente e de grande fluidez.

O autor mobiliza referências óbvias – e o ensaio de Weber, evidentemente, é citado logo nas primeiras páginas – mas, por opção própria, não mergulha em indagações de índole psicológica sobre a “personalidade autoritária”, tal como Adorno a desenhou e estudou. Logo nas primeiras páginas, diz-se que, desde os tempos dos discursos incendiários nas cervejarias de Munique, o traço mais distintivo do carácter de Hitler era “a sua capacidade para odiar”, o que é pouco e demasiado óbvio. Quanto ao resto – o trauma mas também a epifania das trincheiras na Grande Guerra, os indiscutíveis dotes de oratória, o abraço letal ao anti-semitismo virulento, os dramas económicos da Alemanha de 1920 –, Rees não traz grandes novidades factuais, havendo mesmo trechos que exigiam melhor explicação, como aquele em que se insinua, porventura com razão, que Hitler terá aceitado ou mesmo apoiado a revolução comunista na Baviera em Abril de 1919. Por outro lado, o retrato do nascimento do partido nazi, mesmo numa obra de síntese, é demasiado lacónico e simplista. A esse propósito, Rees coloca questões pertinentes – como a de saber como é que um herói de guerra como Goering aceitou, nos alvores do nazismo, uma posição subalterna face a um simples soldado raso como Hitler –, mas não lhes dá respostas conclusivas. Do mesmo passo, e apesar de mencionar esse aspecto iniludível, o livro não dedica o devido espaço ao papel da propaganda, sem o qual uma exposição do «carisma» de uma liderança perde grande parte do seu alcance.

Por outro lado, concentrando-se no seu biografado, Rees não se detém em analisar o que levou milhões de alemães a converterem-se nos “carrascos voluntários” do Führer, para usar a expressão do controverso livro de Daniel Goldhagen. Nesse particular, e por mais discutíveis que possam parecer algumas das ideias nelas expostas, obras como a de Goldhagen ou a de Götz Ali (O Estado Popular de Hitler, Texto, 2009), têm sobre este trabalho de Laurence Rees, a grande vantagem de avançarem uma “tese” que, aceitemo-la ou não, é sempre um contributo para o debate e para o progresso do conhecimento. Em todo o caso, este O Carisma de Hitler contém passagens de grande interesse para percebermos o fascínio e a hegemonia tirânica que, até à morte no bunker, Hitler exerceu sobre a alta oficialidade germânica, por exemplo. Para isso contribuíram o fulgor da sua personalidade mas também razões pragmáticas, como pavor do inimigo russo, o medo que levava a que, entre as fileiras germânicas, corresse o dito: “Divirtam-se com a guerra, miúdos – a paz vai ser um horror!”. De igual modo, o atávico sentido de obediência castrense – que levou a uma condenação generalizada, entre os militares, da tentativa de homicídio de Hitler perpetrada por Stauffenberg – foi um elemento decisivo que explica a fidelidade de muitos até à chegada do Exército Vermelho. Nesse particular, é curiosíssimo observar que, à excepção de uns poucos fanáticos, com Goebbels à cabeça, Hitler desconfiou muito mais da elite que ele próprio criara, com destaque para o “traidor” Himmler mas também para o venal Goering, do que dos oficiais de alta patente que, por medo ou outras razões, se mantiveram a seu lado até ao último minuto, ou quase.

Esta não é, em síntese, uma “explicação” para a liderança ou para a personalidade de Adolf Hitler, susceptível de integrar as muitas que Ron Rosenbaum compilou no seu livro Explaining Hitler. The Search for the Origins of His Evil. Trata-se, isso sim, de uma biografia do Führer apresentada sob o leitmotiv do seu carisma. Não sendo um contributo historiográfico relevante, trata-se, ainda assim, de um retrato que cativa o leitor pela forma como o autor condensa um imenso caudal de informação e o apresenta à maneira de um documentário televisivo, domínio em que se celebrizou e onde conquistou, com inteira justiça, diversos e prestigiados prémios.