Opinião

Suspenso no Tempo (II)

Discutir abertamente as razões da nossa incapacidade dentro do espaço europeu ao longo de quarenta anos é aceitar que duas gerações políticas falharam profundamente.

1. O milagre económico português tem sido objeto de cobertura na comunicação social, até mesmo em alguns meios internacionais. Somos os “nórdicos do Sul da Europa”. De um país estagnado durante uma década e depois de um doloroso programa de ajustamento, Portugal surpreendeu o mundo com um renascimento mítico da sua economia. A recuperação sustentada do crescimento, alavancada na atração de investimento estrangeiro, associado a uma sociedade segura, aberta, inovadora, transformou Portugal numa Suécia ou Dinamarca do Sul. Absolutamente extraordinário. Na verdade, o único ponto de debate parece ser a paternidade do milagre, o ajustamento da direita ou a agenda da década socialista, depois de passada a página da austeridade. O otimismo é contagiante e faz bem a Portugal.

2. A realidade que sai das últimas projeções europeias é diametralmente oposta ao milagre económico. Se os números não estiverem completamente errados, Portugal terá sido ultrapassado em 2018 pelos países do Alargamento. República Checa, Eslovénia, Eslováquia, repúblicas Bálticas têm agora um rendimento per capita superior ao português. Não tinham há quinze anos. E eram países significativamente mais atrasados que Portugal há trinta anos. Mas as más notícias não param. Portugal desceu de 84% em 1999 para 78% do rendimento per capita europeu em 2018. Portugal está hoje mais distante da média europeia do que em 1999. E ainda há mais. Olhando os países que ainda estão atrás de Portugal em 2018, se as trajetórias de crescimento não forem significativamente alteradas, Croácia, Hungria e Polónia ultrapassarão Portugal na próxima década. Quer isso dizer que, dentro de dez anos, com enorme probabilidade, apenas a Bulgária e a Roménia serão mais pobres que Portugal. E veremos o caso grego.

3. Do país de sucesso e do pelotão da frente, da 14ª economia na UE15 nos anos gloriosos do cavaquismo (que apostava em ultrapassar o Reino Unido), da liderança na sociedade de informação do guterrismo, dos milagres económicos sucessivos, aterraremos como um dos países mais pobres de uma UE27 ou UE28 em 2025. Em 2026, quarenta anos de União Europeia terão sido insuficientes para transformar a economia portuguesa num contribuinte líquido. Sim, quarenta anos. E já não faltam desculpas para explicar o sucesso dos países do Alargamento e o desastre português – a herança do fascismo versus a herança do comunismo em termos de formação e educação, a periferia geográfica, as complexidades culturais e por aí fora.

4. Numa sociedade que passou de ter ambições de crescimento estrutural há trinta anos para se transformar num dos países mais pobres de uma Europa alargada, esperaríamos um intenso e saudável debate. Há dias, por exemplo, noticiava-se que o nível de vida dos portugueses está a regredir há quinze anos. Mas não, não há debate nenhum. O espaço público está monopolizado pela paternidade do milagre económico que nunca existiu e pelo otimismo que faz bem aos portugueses. Como é possível? Como explicar este fenómeno de enorme dissonância cognitiva coletiva?  A imensa e permanente propaganda partidária e a falta de independência económica da comunicação social não explicam tudo.

Discutir abertamente as razões da nossa incapacidade dentro do espaço europeu ao longo de quarenta anos é aceitar que duas gerações políticas falharam profundamente. Duas gerações políticas em democracia. O que torna a sociedade portuguesa responsável. Reconhecer que fomos incapazes de superar o atraso estrutural, quando muitos dos outros o fizeram é impossível num regime que se legitimou no sonho europeu, política e socialmente.

5. Logicamente, com a ajuda da propaganda, dos partidos e da comunicação social financeiramente dependente, o regime mantém viva a ilusão do milagre económico. Por uma questão de sobrevivência do próprio regime. Mas tem uma consequência importantíssima – quando for claro que não há, nunca houve, não vai haver nenhum milagre económico, que estamos onde sempre estivemos, enquanto os outros fizeram o que não fomos capazes de fazer, será a legitimidade do regime que inevitavelmente será questionada. Até lá, o jogo de sombras continuará, fingindo que somos o que não somos. Com otimismo. Mas não desesperemos – numa sociedade que sempre fugiu da mudança, aprecia o conformismo e odeia o pensamento crítico (nunca confundir com a maledicência) há séculos, a conversa de novos milagres económicos fáceis e ao virar da esquina pode ainda durar muito tempo. Tudo isto faz sentido num Portugal completamente suspenso no tempo, como dissemos na semana passada.