Crónica

Antes assim que pior

"Antes assim que pior" é um contentamento resignado, que acredita que as coisas podem sempre piorar até ao momento em que até a morte é preferível.

Os saloios não gostam de queixinhas. Só um lisboeta entra num café a queixar-se que nunca mais vem o calor e volta a sair sem dizer mais nada.

Aceitam-se as queixas mas elas têm de seguir os trâmites impostos por séculos de uso. Para já, a queixa só é aceitável como resposta a um inquérito, por muito geral que seja.

"Como vão as coisas lá em casa?" A resposta preferida é "já estiveram melhores". Mas nada de grave? Agora sim, há lugar para uma observação profunda, pegando (é fundamental) numa palavra usada pelo interlocutor: "Ó, grave é a morte."

É altura de todos os presentes abanarem as cabeças como prova de concordância, podendo-se esbugalhar os olhos no caso de se estar a fingir que nunca se tinha pensado nisso e que acaba de ser dita uma grande verdade.

A próxima fase é a da suave reviravolta, em que se modera o queixume. A expressão mais pura que conheço é o "antes assim que pior". Depois de se reconhecer que as coisas não estão a correr bem agradece-se que ainda estejam a correr.

Toda a saudade portuguesa está aqui. Dantes é que era bom e é mau que não se possa voltar para os bons tempos. Por outro lado, o presente, sendo pior que o passado, é incontestavelmente superior ao futuro, já que tudo piora com cada dia que passa.

"Antes assim que pior" é um contentamento resignado, que acredita que as coisas podem sempre piorar até ao momento em que até a morte é preferível.

Ainda bem que não somos budistas, porque com reincarnações sucessivas (e merecidas) estraga-nos o arranjinho.