Opinião

Duas escolhas pessoais. “Apenas” isso

De repente, o Papa Francisco e o Vaticano dão importância ao catolicismo português? Depois da nomeação do bispo de Leiria-Fátima para cardeal – a formalizar no consistório desta quinta-feira à tarde –, e da escolha do padre José Tolentino Mendonça para dirigir a Biblioteca e o Arquivo do Vaticano, parece que Portugal está na moda também na Santa Sé.

Desengane-se quem olhe para estas escolhas com uma perspectiva mais ou menos nacional-católica: em ambos os casos, elas são “apenas” escolhas pessoais do Papa. A coincidência temporal é só isso.

A nomeação de D. António Marto resulta, fundamentalmente, das conversas entre ambos, a pretexto da visita de Francisco a Fátima. Nesses diálogos, o Papa percebeu que tinha diante de si alguém que apoia firmemente as suas propostas de reforma da Igreja e as suas opções pastorais concretas. O agora novo cardeal Marto já disse publicamente que disse isso mesmo nas conversas que manteve com Francisco. Resulta evidente que, na recomposição do colégio cardinalício, o Papa quer pessoas que assegurem a continuidade do movimento reformador.

A importância de Fátima é relativa nesta escolha. O próprio, como é evidente, não pode deixar de dizer que a sua nomeação se deve ao facto de ser o bispo da diocese onde se situa um dos maiores santuários católicos do mundo. Mas, se fosse apenas essa a razão, todos os bispos das dioceses com santuários importantes – como Lourdes, Czestochowa, Aparecida, Guadalupe,... – seriam cardeais. Não é o caso.

Há uma consequência desta nomeação: o episcopado português passa a ter dois cardeais, personalidades afáveis e com visões próximas em alguns temas. Mas que divergem, por exemplo, no modo de ver a integração eclesial dos divorciados recasados: o bispo de Leiria tem uma leitura mais abrangente das indicações do Papa, enquanto o patriarca tem uma visão mais estrita.

A nomeação de José Tolentino Mendonça é semelhante: uma clara escolha do Papa, depois do agrado com que Francisco acolheu as reflexões, no retiro quaresmal da Cúria Romana, do biblista português. No novo cargo, Tolentino revelará seguramente a sua capacidade de fazer pontes com sectores da cultura normalmente afastados da instituição católica: a sua vasta cultura literária, artística, poética ou cinematográfica, por exemplo, permitem uma abertura de horizontes que, muitas vezes, não são a primeira marca de água das escolhas na Igreja. O próprio título simbólico de titular da antiga diocese de Suava pode ajudar a revelar essa criatividade.

Há o reverso da medalha: a transição na Faculdade de Teologia (FT) da Universidade Católica, entre a geração fundadora e a actual, está ainda a fazer-se – Tolentino tomara posse de director da FT há duas semanas. Escolher um substituto e assegurar a continuidade de uma linha de abertura que sempre existiu na FT não será tarefa fácil (mesmo se há nomes que podem fazê-lo). Como não será fácil encontrar quem faça pontes discretas com sectores da cultura e da sociedade que Tolentino tem feito. Assim os responsáveis da Igreja em Portugal saibam escutar quem possa ter ideias para prosseguir nessa linha.