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Megafone

GPS, o pai perfeito

Eu gostava de ser pai como o GPS é meu assistente de viagem. Ele compreende-me, ele é sereno, dá-me sempre uma décima segunda oportunidade de virar à direita.

Gosto do meu GPS porque nunca se zanga comigo. Nunca perde a compostura, por mais asneira que eu faça, mantém sempre aquele tom quente e imperturbável. Mesmo que eu entre em contramão na auto-estrada, ele aconselha-me, plácido: “Volte atrás assim que for possível.”

Se fosse eu a dar indicações no banco do pendura estava sempre a mandar vir: “Não te metas na faixa da esquerda, que vais sair na próxima!”, “Porque é que não viraste ali? Era ali!” Em menos de nada já estava a azucrinar, a bufar, a esbracejar. Mas o GPS não, é sempre nosso amigo, pedagógico. É o instrutor de condução ideal. Aliás, é o pai ideal. Eu gostava de ser pai como o GPS é meu assistente de viagem. Ele compreende-me, ele é sereno, dá-me sempre uma décima segunda oportunidade de virar à direita. Eu gostava que o GPS me embalasse o sono, nem que fosse com coisas como: “Está a ter um pesadelo, saia na próxima saída.”

É na comparação com o GPS que percebo que sou mau pai. Porque à primeira coisa que os meus filhos fazem mal, ou que demoram muito a fazer, só me apetece fazer por eles. Eu sei que não devia ficar irritado, mas porra aquilo fazia-se em dez segundos e o miúdo está a demorar meia hora! Meia hora para pôr pasta de dentes numa escova. “Porque as crianças não nascem ensinadas e não sei quê.” Mas deviam. Como é possível tanto tempo para lavar os dentes? Não te ensinaram nada no útero, miúdo?! Se eu fosse educador de infância era uma desgraça, acho que fazia tudo em vez das crianças. “Olha, professor!”, “Sim, sim, ‘tá bonito, mas o Dia da Mãe é já no domingo. Despacha-te. Dá cá isso!” Sou uma ruína pedagógica.

Acho que os meus filhos merecem melhor. Merecem champô de coco com óleo de amêndoas. Não, não era isso que eu queria dizer. Desculpem a divagação cerebral. Em vez de nos terem como pais, deviam ter um pai GPS e uma mãe GPS, que quando eles começassem à briga pela milésima vez dissessem apenas: “Por favor, não briguem.” E que se limitassem a repetir incessantemente essa frase naquele tom calmo característico: “Por favor, não briguem. Por favor, não briguem. Por favor, não briguem. Por favor, não briguem.” Até os ouvidos deles começarem a sangrar docemente com o massacre verbal e eles pararem de vez. Porque se as crianças vencem pelo cansaço, o GPS vence muito mais. É muito sereno, mas não descansa enquanto não virarmos à direita. O ditado “teimoso que nem um burro” deveria mudar-se para “teimoso que nem um GPS.”

Dava-me jeito esta persistência zen do GPS. É isso que eu invejo nele. Não sei se a ideia da inteligência artificial passa por criar robôs ou vozes computorizadas mais humanas: que riam, que chorem baba e ranho, que desesperem com o trânsito na VCI ou na recta dos Comandos. Mas por favor não façam isso. A magia do actual GPS é o seu robótico bom-senso. A sua inconsciente humanidade. Tudo o que vier a mais é mau. Já está humano q. b.

Eu é que devia robotizar-me um pouco. Sinto que podemos aprender umas coisas com a inteligência artificial. Como uma troca de culturas. Desde que tenho o GPS que, em momentos de irritação parental, penso: “O que faria o GPS no meu lugar?” E experimento a técnica de repetição sem exaltação. É claro que ao fim da terceira repetição já perdi a paciência. Mas o GPS tornou-se uma referência para mim. Ele é o pai eternamente calmo e compreensivo que eu nunca serei. Especialmente se um dia os meus filhos não conseguirem virar à direita.

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