Crítica

A cozinha de conforto também cabe entre arte e gastronomia

É assumidamente com base na cozinha tradicional que o restaurante Oficina acrescenta sabor ao ambiente artístico e elegante do Bairro das Artes, no Porto.

Bebida alcoólica, bebida destilada
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Manuel Roberto
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É numa antiga garagem mecânica de restauro de automóveis que está o restaurante Oficina, a concretização de um sonho do galerista Fernando Santos a que associou o cozinheiro Marco Gomes, e que, pelos vistos, “precisou de três décadas até iluminar os dias da cidade”. Na sua apresentação, assume também “o desejo de marcar a diferença”, mas afastando qualquer propósito de concorrência ou competição com outros espaços do género existentes no Porto.

Fernando Santos, todos o sabem, acumula um histórico ímpar na dinamização, animação e afirmação daquele que é hoje conhecido como o Bairro das Artes, onde tem enraizada a sua actividade como galerista, instigador e impulsionador da produção moderna e contemporânea e da afirmação de novos artistas.

E nem faz falta entrar para se perceber que quis envolver e associar o restaurante nessas actividades, como um prolongamento mais da expressão artística, cruzando-a com a gastronomia. Quem passa, dificilmente ignora a instalação de Pedro Cabrita Reis iluminadamente agarrada à parede sobre os telhados do restaurante, e também do seu interior ressalta a evidência de algumas obras de expressão moderna, que vão fazendo da sala também um espaço de exposição permanente. Já famosa é a obra que dá corpo à zona de recepção, com a iluminada inscrição: “Fuck Art; Let´s Eat”.

Sigamos, então, a artística provocação para apreciar a vertente gastronómica. De Marco Gomes pode dizer-se que esteve entre os pioneiros da onda de modernização da cozinha no Porto, com o seu Foz Velha, que manteve ao longo de década e meia. E se as suas raízes transmontanas e o gosto pela cozinha e produtos regionais sempre foram a sua marca distintiva, o que se pode dizer logo à partida é que se tornam agora ainda mais presentes.

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É assumidamente com base na cozinha tradicional que se apresenta a oferta no Oficina, uma opção que é assumida na plenitude. Com apresentação e trato culinário modernos, mas com sabores, produtos e as doses de substância que são corolário de uma cozinha de conforto.

E por aqui logo se percebe a vontade de marcar diferença sem concorrência ou competição. Os pratos são substanciais e nem pensar em momentos diversificados ou menus de degustação com múltiplas experiências, que é preciso fôlego para ir além de uma entrada e um prato. Para peixe e carne numa mesma refeição, só mesmo para os mais abnegados.

A par do cuidado restauro do espaço, há que destacar a manutenção de toda a envolvência da anterior utilização, das madeiras do tecto e escadas à estrutura metálica que suporta um amplo mezanino onde está montada uma mesa comunitária para eventos como tertúlias ou refeições de grupos. Até a cozinha – à vista por detrás do balcão e serviço – ocupou o espaço da secção de pintura, que foi apenas adaptado. A decoração é elegante e cuidada, em estilo moderno e minimalista, onde sobressaem os confortáveis cadeirões em pele de cor amarelada.

Na mesa, coberta com toalhas de algodão/linho branco – outra dissonância face à modernidade vigente -, é colocado um bom azeite, manteiga fumada e um creme de ovo com cebolinho, couve e leve vinagreta, fresco e aveludado.

O pão rústico acentua os sabores, sendo também servida uma saborosa e fofa miniatura de folar transmontano, no formato de bolo de arroz mas com carnes porcinas de boa gordura. Uma saborosa saudação transmontana.

Entre as opções de entradas, destaca-se o ovo de foie-gras recheado com figo confitado ou as vieiras, mas as escolhas orientaram-se antes para as bem mais rústicas favas estufadas com chouriço (9€), lascas de bacalhau em emulsão (12€) e o queijo gratinado com pó de presunto (10€). Assinale-se a qualidade do enchido e as favas de cozedura rigorosa, associados a um puré das mesmas no qual se envolviam.

Pimentos e espargos assados e sobre fatia de broa de Avintes, o bacalhau conseguiu afirmar o seu sabor assertivo mesmo com as anunciadas lascas em versão gratinada. Equilibrado, saboroso, e também elegante, o queijo de cabra com tomate assado e presunto desidratado.

A par da carta de temporada, há também todas as semanas uma “sugestão do chef” para menu de almoço. Chamou a atenção a proposta de bacalhau à Brás, que, mesmo solicitada ao jantar, a cozinha prontamente anuiu em servir e que correspondeu em pleno às gulosas expectativas. Cremoso e aveludado, com o bacalhau a afirmar-se na plenitude da sua textura e sabor por entre a cebola, a salsa e o crocante da azeitona desidratada.

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Generosa posta de robalo de mar com risotto e espuma de citrinos (21€), que, a par do polvo no forno (23€), suscitaram satisfação e viva aprovação. Ambos em apurada execução culinária, a proporcionar carnes macias e suculentas e sabores afirmativos. Particular agrado também com o puré de batata-doce com castanha de caju que acompanhou o polvo.

Nas carnes, por entre os medalhões de boi (em várias opções) e o costeletão de  novilho, com carnes maturadas, há ainda lombinhos de bísaro com castanhas e cogumelos e o cordeiro de leite com arroz de carqueja. Se dúvidas houvesse ainda sobre a matriz regional das propostas, aqui morreriam fatalmente.

Foi já como que por obrigação, e para partilhar, que se convocou ainda a bochecha de vitela (22€), num estufado primoroso de cozedura lenta a fazer as carnes desfazerem-se na boca plenas de sabor. E nada menos saboroso, envolvente e gordo o arroz caldoso de cogumelos que foi servido a acompanhar.

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Nas sobremesas, a par da selecção de queijos de Portugal há texturas de chocolate, tiramissu crocante, o tradicional mil-folhas, um tentador tabuleiro de doces conventuais (abade de Priscos, papos d’anjo, São Gonçalo e foguetes). Irresistível mesmo foi a rabanada com gelado de caramelo e redução de vinho do Porto (6€), crocante e estaladiça por fora, macia e cremosa por dentro, que dá alegria e satisfação.

Nos vinhos, a oferta é alargada, cobrindo com critério todas as regiões, incluindo espumantes, champanhes, Porto e espirituosas. Atento, solícito e colaborativo, o serviço é uma mais-valia que contribui para tornar a experiência mais agradável e prazerosa.

Em ambiente cuidado e elegante e com envolvência artística, mais do que arte, apetece dizer que é antes uma ousadia a cozinha de conforto e raiz rústica que Marco Gomes pratica nesta Oficina. Uma ousadia saborosa e reconfortante e que, por isso, marca mesmo a diferença.