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Fisioterapia e enfermagem de reabilitação: a última palavra

Não aspiramos excluir os enfermeiros de reabilitação como a senhora bastonária gostaria de excluir os fisioterapeutas. Eles estão convidados a fazer parte da mudança

Na especialidade, no Parlamento, a 12 de Junho, foi auscultado o parecer da bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco, sobre a criação de uma Ordem dos Fisioterapeutas. A resultante é simplesmente... "demasiado humana".

A senhora bastonária defende que uma Ordem dos Fisioterapeutas não resolverá problemas de precariedade dos profissionais, como já se verifica com os enfermeiros. Irónico, sobretudo vindo de uma bastonária de uma ordem que coloca constantemente os direitos dos últimos acima dos direitos dos pacientes.

A senhora bastonária advoga que os fisioterapeutas não são autónomos, ao contrário dos enfermeiros, e em particular dos enfermeiros de reabilitação. Alguns não têm a autonomia desejada, é verdade. E são especialmente esses — nos quais a actividade relativa a um "todo" é traída pela precariedade das prescrições e dos tratamentos parcelares — que mais se parecem com os enfermeiros de reabilitação. Porque estes últimos profissionais representam, precisamente, o subentendimento do "ser humano", praticando o que uma fisioterapia (pós)moderna abandonou há décadas. A fisioterapia de qualidade só pode atingir o seu máximo potencial se existir uma ordem que consagre, delimite, o seu valor maior. Esse valor implica uma continuidade em que o paciente não se separa do "outro", em que o próprio terapeuta é paciente da crónica insolvência do utente, e em que o intrínseco corpo não se divide em parcelas.

A senhora bastonária defende que os fisioterapeutas não realizam reabilitação cardíaca ou respiratória. E a maior ignorância não é factual, está na própria divisão da "reabilitação" em especificidades. Ora, o fisioterapeuta genuíno trata todos os sistemas em simultâneo, não divisa "partes" ou técnicas. Não pergunta que método o terapeuta tem mas que terapeuta o método tem. Não há "fortalecimento" ou "alongamento" ou "massagem", há um "ser" em que o corpo fala, o que se "alonga" são as cadeias miofasciais que a vida tolhe, o que se "mobiliza" são as articulações que se intimidam, o que se "fortalece" é a capacidade de fazer frente à adversidade. Existe uma "postura" que nos pede liberdade, uma vontade que demanda coragem. Haja, também, a vontade de libertar e reforçar a fisioterapia, a qual tem o seu correlato nos milhares de fisioterapeutas que se aventuram a desvelar a profissão que já existe nos outros países.

Diz, algures, a senhora bastonária que os enfermeiros de reabilitação são uma especialidade única em Portugal. Sim, em Portugal há muita coisa "única". Felizmente existe "evolução" e "terapeutas" que querem mais do que "cuidar". O fisioterapeuta português exige somente o que subsiste em tantos outros países: liberdade para poder libertar e dar ao paciente a razão de cuidar para além do "cuidado". Para isso, é preciso reforçar a componente de um "terapeuta" que ama, que "facilita", que dá com que salvar. O utente de fisioterapia não é um "enfermo", é um agente de um mundo que se dissipa, é um portador da "boa nova", é um companheiro que traslada os limites da ética convencional para abraçar a pura alquimia regeneradora. O terapeuta é um "intérprete", um comunicador do equilíbrio. Não existe para o verdadeiro terapeuta um "outro" que se cuida ou trata, uma "norma" que se perfilha, existe, sim, um "divino" que pretendemos retirar da gaiola.

Assustador, não é? Nem por isso. Não aspiramos excluir os enfermeiros de reabilitação como a senhora bastonária gostaria de excluir os fisioterapeutas. Eles estão convidados a fazer parte da mudança, e muitos já aceitaram o convite, há tantos enfermeiros de reabilitação a aprender com fisioterapeutas. Na realidade, é à fisioterapia que estes enfermeiros têm ido buscar todas as últimas actualizações. Mas nem isso evita que ignorem coisas como manipulação vertebral, cadeias musculares, tratamento do neurodesenvolvimento, facilitação neuromuscular proprioceptiva, etc. Mas, pasme-se, o terapeuta serve-lhes comummente de intérprete. Por mim, fá-lo-ia também, os profissionais devem apoiar-se, aprender em reciprocidade, sobretudo com o paciente, porque é este que importa genuinamente. Sejamos nós pacientes dos nossos pacientes, a única ordem plena é a deles, pedimos a nossa para defender a deles, não o ressabiamento que alguns destilam. A senhora bastonária, quando deixar de ser política, quando desistir de iludir os seus enfermeiros enfermos como ovelhas de um objectivo puramente egoísta, está igualmente convidada a aprender com todos nós. E quando estiver, de facto, a aprender com os pacientes, mesmo que não se torne uma terapeuta, talvez consiga, ao menos, tornar-se enfermeira.

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