Palermo desafia Salvini e quer abrir o seu porto a navio com 629 migrantes a bordo

No domingo, o Governo italiano informou que todos os portos estavam fechados para receber o navio de salvamento Aquarius. Malta não aceita a responsabilidade pela embarcação.

Malta, Sicília, Roma
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O navio Aquarius, que ainda se encontra no Mediterrâneo Reuters/Antonio Parrinello
Iate, 08854, Passeios de barco
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LUSA/CHRISTOPHE PETIT TESSON

Depois de o Governo italiano ter determinado o encerramento de todos os portos ao navio da ONG alemã SOS Mediterrâneo, que segue com 629 migrantes a bordo, Palermo, a capital siciliana, determinou que não vai acatar as ordens do ministro do Interior, Matteo Salvini.

Leoluca Orlando, presidente da câmara de Palermo, disse que permite que o barco atraque no porto da capital siciliana. E foi seguido por várias outras cidades do Sul, como Nápoles, Messina e Régio de Calábria, que afirmaram estar prontas para desobedecer a Salvini.

Uma posição que tem, essencialmente, significado político, uma vez que o controlo dos portos é feito pela Polícia Marítima, que depende do Ministério dos Transportes.

Esta foi a primeira prova de que Matteo Salvini não vai ceder no que toca à sua política de imigração. No domingo, o ministro do Interior afirmou que todos os portos italianos estavam fechados à embarcação de resgate Aquarius. Salvini escreveu uma carta ao Governo maltês, informando que o barco se encontrava a 43 milhas náuticas de Malta (quase 80 quilómetros), razão pela qual deveria atracar no porto de La Valeta.

O Governo maltês rejeitou o pedido, defendendo-se: a lei internacional requer que os migrantes sejam levados para portos italianos. Malta rejeita a responsabilidade dizendo que a operação de socorro decorreu nas águas internacionais da Líbia, e que, por isso, o navio está sob jurisdição italiana. O Governo maltês acrescentou ainda que esta era parte de uma operação de resgate comandada pelo centro de salvamento de Roma. Por isso, “Malta não é a autoridade competente nem coordenadora neste caso. Malta vai cumprir as leis prevalecentes”, disse um porta-voz do Governo à AFP.

“Malta não recebe ninguém. França empurra as pessoas de volta para as fronteiras, Espanha defende o seu território com armas. A partir de hoje, Itália também vai começar a dizer 'não' ao tráfico humano, 'não' ao negócio da imigração ilegal”, escreveu Matteo Salvini no Facebook, reforçando um dos pontos principais da sua campanha eleitoral.

Mas, em Itália, nem todos concordam com ele. “Palermo, em grego antigo, quer dizer 'porto completo'. Sempre demos as boas-vindas a barcos de salvamento e embarcações que salvem vidas no mar. Não iremos parar agora. Salvini está a violar a lei internacional. Uma vez mais, mostrou que estamos sob um Governo de extrema-direita”, disse Leoluca Orlando, presidente da câmara de Palermo, citado pelo Guardian

De acordo com a SOS Mediterrâneo, o Aquarius tem a bordo 629 migrantes, incluindo 123 menores não acompanhados, 11 crianças e sete mulheres grávidas. Os menores têm entre 13 e 17 anos e vêm da Eritreia, Gana, Nigéria e Sudão, conta no Twitter uma jornalista a bordo, Anelise Borges, da Euronews e da NBC. Cerca de 400 desses migrantes foram resgatados pela Marinha italiana, antes de serem transferidos para o Aquarius, escreve a BBC. As 600 pessoas a bordo foram resgatadas em seis operações de socorro diferentes.

No Twitter, a ONG informou  que “o barco segue rumo a Norte, para um porto seguro”, sem especificar o destino. À Reuters, uma porta-voz da SOS Mediterrâneo disse que o Aquarius está a aguardar “instruções definitivas”. “O nosso objectivo é o desembarque num porto seguro para as 629 pessoas que seguem a bordo”, disse.

Num período de cinco anos chegaram a Itália cerca de 600 mil migrantes vindos de África, sendo que cerca de 500 mil ainda estão em território italiano. O encerramento das fronteiras à entrada de migrantes era um dos pontos principais da campanha eleitoral da Liga de Matteo Salvini, actualmente no poder. “O meu objectivo é garantir uma vida em paz para os jovens em África e para as nossas crianças em Itália”, disse Salvini, em campanha. E uma das soluções, na sua óptica, seria fechar os portos italianos a migrantes vindos de África, como está a fazer agora que é ministro do Interior.