Lipor vai duplicar lares com recolha de resíduos porta a porta para cumprir metas

Em 2017 a empresa encaminhou 79% de todo o lixo produzido para valorização energética e tem planos para vender vapor para climatização.

Pneu, Carro
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A central de Valorização Energética da Lipor abriu em 2000 Nelson Garrido

A Lipor, empresa que gere o Sistema Intermunicipalizado de Gestão de Resíduos do Grande Porto pretende alargar a recolha porta a porta de resíduos orgânicos e recicláveis a mais 80 mil fogos, até ao final do próximo ano, de modo a conseguir cumprir as metas de reciclagem que se comprometeu alcançar no final desta década. Neste momento, quase 80% do lixo produzido pelo milhão de pessoas que habitam nos oito concelhos associados é queimado, para produção de energia, mas muito do que chega à central de valorização energética da Maia é, na verdade, material que deveria ser reaproveitado.

A Lipor promoveu ontem uma visita a esta central instalada há 18 anos junto à A24 e à linha B do metro do Porto para, no âmbito da Semana Europeia da Energia Sustentável, dar conta das suas próximas acções. O administrador executivo da empresa fundada em 1982 pelos municípios da Maia, Porto, Matosinhos, Valongo, Gondomar, Póvoa de Varzim, Vila do Conde e Espinho, Fernando Leite, elogiou o desempenho desta unidade, onde é produzida energia suficiente para alimentar 150 mil casas, mas assumiu que, para que a Lipor cumpra a sua parte do esforço necessário para que Portugal chegue a 2020 a reciclar metade dos resíduos recolhidos, uma boa parte do que entra nesta unidade tem de ser separado — pelos cidadãos — e enviada pela empresa para reciclagem.

Energia subsidiada

Nesta região onde vive 10% da população do país produz-se 12% do total de resíduos urbanos, cerca de 500 mil toneladas/ano. Destas, 395.643 toneladas entram directamente na central de valorização energética, cuja energia produzida vem beneficiando de preços subsidiados, algo que já mereceu críticas da associação ambientalista Zero, que vê nesta política um desincentivo à reciclagem. A Lipor e a ValorSul recusam que estejam prisioneiros desta estratégia, mas os números do sistema do Grande Porto indicam que só 21% do lixo é reciclado: 47 mil toneladas são encaminhadas para valorização multimaterial e as restantes 51 mil são o produto da recolha selectiva de orgânicos que serviu, em 2017, para a produção de pouco mais de 11 mil toneladas de um composto biológico com grande sucesso no mercado — o Nutrimais.

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Quase 80% do lixo do Grande Porto é queimado para produzir energia Nelson Garrido

Face às metas nacionais, a Lipor vai ter de investir mais para aumentar os fluxos que acabam na compostagem ou na valorização multimaterial e chegar aos 35% de material preparado para reutilização e reciclagem em 2020. Para isso, a empresa vai multiplicar, pelo território, a experiência de sucesso da Maia na recolha porta a porta (70 mil casas), que coloca aquele concelho no topo da reciclagem em Portugal. Cerca de 80 mil habitações de zonas urbanas de Valongo, que pretende estender este sistema a todo o concelho, Matosinhos, Vila do Conde e outros municípios estão a receber ou vão receber até ao próximo ano contentores, de dimensões adequadas a cada agregado, responsabilizando cada família pela separação.

Os novos contentores têm um chip que permite a monitorização dos resíduos produzidos em cada casa e o lançamento, no futuro, de projectos PAYT — Pay As You Throw — que premeiam os cidadãos que mais contribuem para a redução e/ou reutilização dos resíduos.

A recolha selectiva vai estender--se também aos resíduos orgânicos de origem doméstica — neste momento a empresa tem um sistema de recolha para grandes produtores, como restaurantes, entre outros —, aumentando, por esta via, a valorização orgânica já feita em Baguim do Monte, em Valongo, numa fábrica cujos tectos vão ser em breve cobertos por painéis solares, para produção de energia. A Lipor tem já um sistema fotovoltaico instalado numa parte do antigo aterro de Baguim e tentará, com o novo investimento, reforçar a sua aposta na produção de energia limpa.

Vapor para climatização

A central de valorização energética continua a ser um activo rentável e poderá receber resíduos de outros sistemas, já que no continente existem apenas duas unidades deste tipo (a outra é da Valorsul). E um dos investimentos em cima da mesa passa por aproveitar parte do calor gerado pela queima e hoje utilizado para produção energética para fornecimento de vapor em pressão para os sistemas de climatização de indústrias e até de habitações da envolvente. O administrador da Lipor estima em três milhões de euros o preço da infra-estrutura necessária para fazer chegar o vapor a um potencial grande cliente, o aeroporto, que dista apenas três quilómetros da unidade de queima de resíduos.

Uma pequena parte desse mesmo calor ali gerado poderá também vir a alimentar um complexo de estufas que a Lipor gostaria de ver instalado em terrenos da envolvente a esta unidade que inclui a central e um aterro que já deixou de receber as escórias resultantes da queima do lixo e que este ano deixa de receber também resíduos indiferenciados. O projecto agrícola está ainda em estudo, até porque nem todas as parcelas em volta pertencem a esta empresa intermunicipal, mas Fernando Leite considera que este tipo de iniciativas permitirá alargar as fontes de receita da Lipor, que no ano passado teve um volume de negócios de 38,7 milhões de euros.