“Hoje teria feito exactamente o mesmo expediente”, diz agente de esquadra de Alfragide

Polícia acusado pelo Ministério Público de falsificar auto de notícia mantém tese de tentativa de invasão de esquadra pelos seis jovens da Cova da Moura.

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LUSA/MIGUEL A. LOPES

A juíza dá oportunidade ao arguido: “Não deve ter sido um expediente fácil, pode ter havido uma imprecisão que queira corrigir. Este é também o momento.” Mas na sala do Tribunal de Sintra, nesta segunda-feira, Luís Anunciação, chefe da Esquadra de Investigação Criminal de Alfragide da Polícia de Segurança Pública (PSP) reitera: “Se fosse hoje, teria feito exactamente o mesmo expediente”, respondeu.

Minutos antes, o polícia que está acusado pelo Ministério Público e teve um processo disciplinar instaurado pela Inspecção-Geral da Administração Interna (IGAI) por ter alegadamente falsificado o auto de notícia no caso dos 17 agentes acusados de racismo, tortura entre outros crimes, explicou ter havido alguma confusão no momento em que começou a elaborar o expediente. Por estar a ser contactado pela comunicação social, que diz desconhecer como soube do sucedido, e por os chefes quererem saber informações depois de veiculadas notícias sobre a alegada “tentativa de invasão de esquadra” por seis jovens da Cova da Moura.

Ao contrário do que os outros agentes disseram em sessões anteriores, afirmou, a visita de um superior hierárquico àquela esquadra nesse dia não aconteceu para “dar os parabéns” pelo controlo da alegada invasão mas para se “inteirar da situação” e ver como estavam as coisas. Se houvesse irregularidade “seria o primeiro a participar”, avisou. Negou qualquer exercício de violência sobre os jovens. 

A acusação do Ministério Público divide-se em dois momentos: um primeiro, em que uma equipa da PSP vai à Cova da Moura fazer patrulhamento e detém Bruno Lopes, alegando que este tinha atirado pedras à carrinha da polícia – aí, o agente Nunes terá disparado dois tiros e atingido duas moradoras; um segundo, quando amigos deste jovem, entre eles um membro da direcção do Moinho da Juventude, instituição galardoada com prémio de Direitos Humanos da Assembleia da República, se dirigem à esquadra para pedir esclarecimentos mas acabam detidos e acusados de invasão da esquadra.

Até agora foram ouvidos sete dos 17 arguidos. E até agora todos mantêm a tese de que os seis jovens da Cova Moura que se deslocaram à esquadra no dia 5 de Fevereiro de 2015 participaram numa “invasão” para tirar da esquadra um amigo, Bruno Lopes, detido horas antes na Cova da Moura. Defendem também que levaram o jovem para a esquadra depois de este ter atirado pedras à carrinha da polícia. Um dos agentes, que é referido como autor de dois disparos de shotgun – a primeira vez, na Cova da Moura, atingindo duas moradoras, e a segunda na esquadra da Alfragide – foi ouvido na última sessão a 22 de Maio e disse que apontou "para o ar". E atirou também na esquadra, atingido a perna de um jovem, Celso Lopes, justificando-o que era “para acabar" com a alegada “invasão”. O agente João Nunes disse que não tinha notado que havia ferido o jovem. Também Luís Anunciação afirmou nesta segunda-feira que não ouviu queixas do jovem baleado. 

O despacho da acusação refere que este jovem, “em consequência directa e necessária das agressões” de que foi vítima, sofreu uma lesão “ao nível da coxa esquerda causada por projéctil de arma de fogo”.