Há um projecto que quer salvar a enguia-europeia da extinção

Durante três anos, um projecto desenvolverá ferramentas para que Portugal, Espanha e França melhorem a conservação da enguia-europeia, uma espécie ameaçada sobretudo devido à pesca e ao comércio ilegais.

Prego, garra
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O meixão é a cria da enguia, que é muito pequenina, transparente e conhecida como a “enguia de vidro” Isabel Domingos/FCUL

A enguia-europeia tem sido atormentada pela pesca ilegal, a pesca em excesso, a presença de barragens e as alterações climáticas. Como resultado, agora chegam às costas da Europa só 8% das enguias-europeias que vinham no início dos anos 80. É preciso agir. Por isso, Portugal, Espanha e França lançaram o Sudoang, um projecto que pretende desenvolver ferramentas e métodos para a conservação e recuperação desta enguia. O projecto foi lançado em Março e, até sexta-feira, a sua primeira reunião decorre na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL). Este encontro junta mais de 50 cientistas, técnicos, gestores, autoridades, pescadores e outros profissionais do sector.

“A enguia reproduz-se no mar dos Sargaços, as larvas são transportadas pelas correntes oceânicas e entram nos nossos rios. Depois, crescem e, ao fim de algum tempo, transformam-se e fazem a migração reprodutora de volta para o mar dos Sargaços, onde se reproduzem apenas uma vez e morrem.” É assim que Isabel Domingos, coordenadora da FCUL no projecto, nos descreve o ciclo de vida da enguia-europeia (Anguilla anguilla), que se encontra nos rios e estuários desde o Norte da Europa até ao Norte de África. O meixão é a cria da enguia, que é muito pequenina, transparente e conhecida como a “enguia de vidro”. “São as enguias muito juvenis que acabaram de chegar à nossa costa”, acrescenta a cientista.  

Contudo, esta enguia está classificada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) como “criticamente em perigo”. O grande declínio desta espécie começou nos anos 80 e as principais ameaças são a presença de barragens e a pesca ilegal. Em Portugal, a pesca do meixão só é permitida no troço internacional do rio Minho. O destino da pesca ilegal é, sobretudo, a Ásia, onde é uma iguaria e um quilo de meixão pode chegar a valer dez mil euros.

Em Portugal, a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), as capitanias dos portos ou a Guarda Nacional Republicana (GNR) têm feito várias apreensões de meixão. Por exemplo, a GNR, através do Serviço de Protecção da Natureza e do Ambiente (Sepna), apreendeu em 2015, 2016 e 2017 um total cerca de 552 quilos de meixão, 648 redes e identificou 133 suspeitos.

Já a ASAE, pela sua parte, fez a maior apreensão de meixão em Portugal até então, em Março deste ano, anunciou na altura em comunicado. Foram apreendidos cerca de 600 quilos no valor de cerca de um milhão de euros e desmantelada uma rede de tráfico de meixão. Esta apreensão ocorreu na Operação Sargaço, planeada em Outubro de 2017, na sequência de informações policiais sobre o tráfico de meixão em Portugal. “Ao longo dos meses (entre Novembro e Março), foram feitas 26 detenções de cidadãos de origem asiática, nos aeroportos de Lisboa e do Porto (em colaboração com a Autoridade Tributária e Aduaneira), pelo crime de danos contra a natureza, tendo sido apreendidos, no total, cerca de 390 quilos, desta espécie protegida pela convenção CITES [Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção]”, lê-se no comunicado.

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Na Ásia, um quilo de meixão pode chegar a valer 10 mil euros Isabel Domingos/FCUL

Por tudo isto, criou-se o projecto Sudoang, que junta dez centros de investigação e universidades – em Portugal, estão envolvidos o Centro de Ciências do Mar e do Ambiente da FCUL e o Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental da Universidade do Porto – e outros parceiros, nomeadamente gestores locais, regionais e nacionais, como a Agência Portuguesa do Ambiente, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas ou a ASAE. Também fazem parte destes parceiros organizações não-governamentais e associações de pescadores.

O projecto é liderado pelo ATZI, um centro de investigação do País Basco, e tem 1,6 milhões de euros, sendo financiado em 75% pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (Feder) através do programa Interreg Sudoe. Por isso, Sudoang vem do nome do programa que financia o projecto e do nome científico da espécie, Anguilla anguilla.

“O principal objectivo do Sudoang é criar ferramentas de apoio à gestão da enguia e dos habitats”, indica Isabel Domingos. “Essas ferramentas serão disponibilizadas no futuro aos gestores para fazerem uma melhor gestão do stock.” E que ferramentas são essas? “Existem modelos matemáticos que permitem estimar a quantidade de enguias que saem das nossas águas para se reproduzir, com base em estimativas que existem nos rios, por exemplo”, explica a cientista, acrescentando que com esses modelos os gestores poderão, de acordo com a informação que obtiverem em cada ano, ensaiar alguns cenários de gestão.  

Rede de bacias-piloto

Outro dos objectivos é o aumento da articulação entre as várias entidades dos três países. “Tendo várias entidades a falar entre si, é mais fácil desmantelar [redes de tráfico]”, exemplifica Isabel Domingos. Por fim, irá ser criada uma rede de monitorização desta enguia para que se conheça melhor o estado da sua população e da sua ecologia. Essa rede será composta por dez bacias-piloto atlânticas e mediterrâneas, que abrange vários rios, como o Mondego e o Minho. “Vamos fazer isto de forma uniforme nos três países e nas bacias que escolhemos, o que nos permitirá obter informação de forma harmonizada. Porque um dos grandes problemas é que a informação é dispersa e não é recolhida da mesma forma.”

Agora, na reunião, que começou na quarta-feira, apresentam-se as tarefas e os objectivos do projecto, incluindo uma descrição dos modelos que foram desenvolvidos por uma equipa de investigadores franceses, refere Isabel Domingos, assim como um workshop sobre pesca e comércio ilegais com várias autoridades.

O projecto terminará em Fevereiro de 2021 e, até lá, espera-se que sejam criadas as ferramentas necessárias para a conservação desta espécie tão ameaçada.