Jacques Sauvageot, Daniel Cohn-Bendit, Alain Geismar, Michel Rocard, maio de 1968 eventos na França

Ensaio

O Maio de 68 à luz da História

As barricadas de Paris são uma paradoxal tradição revolucionária com raízes em séculos passados, mas nem sempre as revoluções conseguem organizar politicamente as ideias que as desencadeiam – e menos ainda triunfar no imediato. Um ensaio de Luís Almeida Martins.

Logo de manhã, os tipógrafos que se tinham visto subitamente desempregados pelo encerramento dos jornais da oposição espalharam-se pelas ruas de Paris como uma mancha de óleo e arrastaram consigo na contestação saturnina trabalhadores de outros ofícios, num crescendo de som e de fúria que abrangia as duas margens do Sena. Receoso pelas consequências deste movimento de massas espontâneo, o Governo mobilizou as suas “forças da ordem”. O avanço da gendarmerie viu-se, porém, dificultado pelas barricadas erguidas pelos cidadãos – com carros atravessados entre os prédios, velhos móveis arremessados das janelas, barricas roladas das caves, pedras arrancadas da calçada. O traçado sinuoso das ruas não permitia o recurso a tiro de canhão, e no que toca a espingardas as caçadeiras dos civis valiam tanto como as carabinas da guarda. No dia seguinte a bandeira dos sublevados flutuava já na Notre Dame e no Hôtel de Ville. Na batalha que se seguiu, travada com balas sincronizadas por descargas e arremesso de telhas de ardósia e pedras de basalto, triunfariam os insurrectos. Maio de 1968? De forma nenhuma: Julho de 1830. A História da França, e especialmente a de Paris, está cheia de revoluções politicamente triunfantes – o que não foi propriamente o caso da grande movimentação de massas de que se assinalam agora os 50 anos. Já lá iremos.

Em 1830, quem fizesse o balanço dos anos mais recentes verificaria que o último rei Bourbon, Carlos X, e o seu antecessor Luís XVIII tinham reinado com toda a arrogância que lhes permitiam uma carta constitucional e um Parlamento de algum modo inovadores enquanto instituições, mas manifestamente insuficientes para satisfazer as aspirações populares e das próprias classes intermédias entre elas e os barões de chapéu alto. Em regime eleitoral censitário, numa população de cerca de 35 milhões de pessoas só uns escassos milhares de indivíduos do sexo masculino tinham o privilégio de poder ir depor o voto na urna. A Monarquia de Julho, fundada na revolução acima referida, cumpriria na sequência a tarefa de alfabetizar as massas ao tornar obrigatória a existência de escolas primárias em todas as aldeias, ao mesmo tempo que facilitaria os contactos comerciais e as trocas de ideias ao promover a reparação dos caminhos vicinais e – sobretudo – a construção das grandes linhas férreas radiais de Paris.

Talvez por isso, talvez por o novo regime que recuperara a bandeira tricolor ter aberto os olhos e os caminhos às pessoas, apenas 18 anos depois dessas tanto físicas como emocionalmente tórridas jornadas de Julho em que a paralisante restauração bourbónica que se seguira ao derrube de Napoleão tinha dado lugar ao Governo do rei burguês Luís Filipe, o descontentamento voltaria a explodir em nova revolução civil e espontânea.

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Outras revoluções em França "triunfaram porque serviram a maioria silenciosa cujo silêncio é frequentemente feito de gritos". Na imagem, Alain Geismar, sindicalista, durante as manifestações do Maio de 68, em Paris Keystone-France/Gamma-Keystone/Getty Images

Nos banquetes públicos promovidos pelos partidos anti-situacionistas eram angariados fundos e faziam-se inflamados discursos de propaganda em prol da reforma eleitoral e parlamentar que se afigurava necessária. A estas movimentações, o rei de cartola e o seu Governo de casaca respondiam que não haveria em França mais de 180 mil pessoas capazes de exercer o poder político, uma daquelas fórmulas que, verdadeiras ou não no momento em que são formuladas, justificam aos olhos das autoridades do momento todas as estagnações sociais por elas pretendidas.

Um desses banquetes da oposição, unindo socialistas e católicos, convocado numa gélida e chuvosa manhã de Fevereiro de 1848, seria proibido pelas autoridades. Tal como em 1830, não tardou que se erguessem barricadas entre os estaminets e as boulangeries, que os combates alastrassem pelas ruas e que os sublevados triunfassem, implantando, desta vez sob a poalha da neve, uma efémera II República destinada a não durar mais que quatro anos.

Ao fim de três, um sobrinho de Napoleão, Louis Bonaparte, que se fizera eleger Presidente, desencadeava um golpe de Estado e impunha uma ditadura pessoal, que culminaria na sua proclamação como imperador. Dando razão aos que afirmam que os lances da História ocorrem da primeira vez como dramas e mais tarde se repetem como farsas, o II Império revelar-se-ia uma construção operática durante a qual a França se viu claramente ultrapassada nos rankings económicos da época pela Inglaterra vitoriana e pela Alemanha em construção sob a batuta de Bismarck.

Por este tempo, já os teóricos de um socialismo anterior ao marxismo – como Saint-Simon, Louis-Auguste Blanqui ou Louis Blanc – clamavam num deserto de ironias e chistes, esforçando-se por desfraldar ao vento da compreensão pública o estandarte de uma sociedade economicamente mais justa, já que se a Grande Revolução de 1789 promovera a liberdade e a igualdade política, ao mesmo tempo extinguira as velhas corporações de mestres e aprendizes, deixando, assim, os operários mais frágeis e indefesos. 

Mas não haveria mais barricadas fáceis de defender como as de 1830 e 1848, nem mais marchas triunfantes e a peito aberto como a que culminara na tomada da Bastilha em 14 de Julho de 1789, pois foi nesse tempo que o barão Haussman, prefeito do Sena, rasgou, com o aplauso de Napoleão III, a vasta rede de boulevards que domina até hoje a paisagem urbana de Paris. Assim, quando o II Império se desmoronou fragorosamente nas cinzas da derrota francesa na guerra contra a Prússia, o povo de Paris, fundador de uma algo utópica e sempre referencial comuna, viu o seu ofício revolucionário seriamente dificultado pelas regras do urbanismo aplicadas à política. Em 1870, os esfomeados descendentes dos revolucionários de 1789, 1830 e 1848 resistiram ao cerco alemão alimentando-se de tradição combativa, de ratos dos esgotos e do vinho dos inexauríveis tonéis das caves, mas a desproporção de forças tornou-se patente quando as também eternas forças da ordem os atacaram e massacraram.  

A III República então inaugurada pela burguesia vencedora duraria sete décadas, até à invasão hitleriana de 1940. Décadas de querelas políticas internas, de guerra internacional, de conflitos sociais, de amanhãs que prometiam cantar, de reacção do pensamento económico e filosófico. Paris assistiria a novos combates de rua por altura do levantamento popular contra o domínio nazi, em 1944, conduzindo à libertação da cidade antes ainda da chegada das tropas aliadas, mas só 24 anos depois o vento do idealismo puro voltaria a soprar nos boulevards abertos por Haussman. Foi em Maio de 1868, quando uma alterosa vaga de contestação estudantil reacendeu a chama das antigas lutas. Mas estaria esta onda na mesma onda das suas antepassadas?

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Made in USA

Em boa verdade, a contestação juvenil da década de 1960 começara uns três anos antes de Maio de 1968 e falava inglês com sotaque americano. Os campi de algumas das principais universidades da fatia de continente que vai do Atlântico ao Pacífico vinham sendo, a partir de 1965, cenário de coloridos protestos contra a mobilização da juventude para combater na guerra do Vietname. Uma vaga contestação política enxertava-se nas raízes da beat generation de há uma dúzia de anos, os livros de Allen Ginsberg e Jack Kerouac renasciam para uma segunda vida e a esfumada neblina do movimento hippie anunciava um presente com amor e sem guerra plasmado num futuro tão eterno como devem, rigorosamente, ser todos os futuros.

Não obstante a carga ideológica que se pretendia dar à Guerra Fria, acabara o tempo das campanhas patrióticas coreografadas com os acordes do Star Spangled Banner e encenadas sob o drapejar das stars and stripes. Milton Canniff, o velho, talentoso e patriótico autor de comics, nunca enviou Steve Canyon em missão aos países de Ngo Dinh Diem e Ho Chi Minh. Em contrapartida, Jane Fonda não tardaria a eletrizar a juventude dos colleges ao deslocar-se a Hanói e sentar-se no banquinho de uma peça de artilharia antiaérea norte-vietnamita, das mesmas que abatiam aviões da USAF com jovens americanos dentro. Mais tarde retractar-se-ia, mas os bélicos anos 60, durante os quais se popularizou o símbolo da paz de Bertrand Russell, não eram tempo em que houvesse tempo para respirar. Os velhos ódios fabricados ao jap, ao bear e ao chink das guerras do Pacífico e da Coreia era substituído pelo ódio espontâneo à Administração de Washington, proliferando os sit-ins de rejeição nos relvados da capital federal.

A contestação interna à intervenção da América nos assuntos do Sueste Asiático depressa ultrapassou as fronteiras e voou sobre os mares. Na Alemanha encontrou um eco muito profundo. Passados 20 anos sobre o fim da II Guerra Mundial, um pacifismo talvez genuíno apoderara-se das mentalidades dos jovens, que ao mesmo tempo iam buscar ao fundo das arcas a velha mensagem do seu compatriota marxismo, ali guardada durante tantas décadas. Tal como na América e depois em França, confrontos com a polícia e mortes na rua pontuaram as discórdias, e o choque entre essa duas vagas entidades que se chamam contestação e ordem vigente foram o pano de fundo do grande teatro da segunda metade de uma década que permanece na memória colectiva como o tempo da contestação.

O Maio de 68 francês seria o corolário dessa situação de confronto. Quando, na noite de dia 3, uma coorte policial uniformizada de couro e armada de longos bastões e enormes escudos prendeu meio milhar de estudantes que se manifestavam na Sorbonne, principiava, sem que ninguém ainda o suspeitasse, uma relativamente curta guerra civil que agitaria o hexágono e permaneceria até hoje, dentro e fora dos seus limites, como o símbolo de uma época. Guerra civil implica, porém, necessariamente, a existência de vencedores e vencidos, e o problema, neste caso, é não se saber quem ganhou nem quem perdeu. A aliança conjuntural, ou coexistência no tempo, de uma luta estudantil e de uma luta operária (esta, aliás, decorrente da primeira e não controlada pelos sindicatos) imprimiu um caráter muito próprio a uma “guerra de trincheiras” que viria a terminar de forma tão surpreendente e inesperada como a Grande Guerra propriamente dita – de súbito, num ai, com íntimas satisfações, mútuas recriminações, lágrimas de luto e de alegria.

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A direita “bem-pensante”, essa maioria silenciosa que o poder frequentemente invoca para legitimar as suas opções (e que, como expressão, fora cunhada nos EUA pela Administração Nixon para designar os que concordariam de boca calada com o envolvimento bélico na Indochina) ganharia, pela força do número, a “batalha” das ruas no dia 30, quando uma gigantesca manifestação de apoio a De Gaulle desceu os Campos Elísios e o general-Presidente convocou eleições legislativas antecipadas. Destas sairia um reforço do poder gaullista e a derrota clamorosa dos partidos Socialista e Comunista. A burguesia – para retomar, como já atrás se fez, uma palavra agora caída em desuso – teme sempre os movimentos bruscos, as vagas de fundo, os terramotos da História. E então quando se trata da burguesia francesa, esse sentimento é ainda mais forte. Escolarizada, ela não pode ignorar o que passou no seu país, na sua capital, em 1789, 1830, 1848 e 1871.

A História é uma velhota que passa a vida a contar a mesma coisa, embora não necessariamente pelas mesmas palavras. Essas outras revoluções, enroscadas lá para trás no passado brumoso, triunfaram porque serviram a tal maioria silenciosa cujo silêncio é frequentemente feito de gritos. Eram revoluções uterinas, dores de parto, camadas sucessivas no palimpsesto do longo choque entre classes e interesses. Em Maio de 1968, porém, o modelo de sociedade parecia definido e só a utopia falava alto. Os estudantes, e depois os operários, não apresentaram uma alternativa sólida à forma de estruturar o tecido social. A poesia ganhou nas ruas, mas perdeu nas urnas por cansaço, insónia e falta de programa. Ninguém se pode alimentar apenas de açúcar. O Maio de 68 não foi uma revolução política – foi uma violenta explosão de lirismo, montra e bandeira de uma viragem de mentalidades importada de outras latitudes, em última análise o início da consagração da sociedade dita permissiva.