Cavaco é contra a eutanásia e diz que os deputados não estão legitimados para a legalizar

Ex-presidente da República entende que os eleitores não devem votar em 2019 nos partidos que apoiarem agora a legalização da morte assistida.

Aníbal Cavaco Silva
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Rui Gaudencio

Interrompendo o silêncio a que se tem obrigado, o ex-presidente da República interveio esta tarde para desferir um violento ataque à legalização da morte assistida, defendendo que os eleitores não devem votar, nas legislativas de 2019, nos partidos que apoiarem a legalização da eutanásia.

Numa declaração gravada para a Rádio Renascença, o ex-chefe de Estado vai mais longe e acusa os deputados que defenderem os vários projectos de despenalização da morte assistida, que serão votados na próxima terça-feira, de não terem legitimidade para tal, uma vez que o assunto não foi objecto de debate nas eleições de 2015, pelo que os eleitores não teriam conferido mandato aos parlamentares eleitos para aprovarem nova legislação sobre o assunto.

O também ex-primeiro-ministro e ex-presidente do PSD não faz qualquer alusão ao facto de o actual líder social-democrata, Rui Rio, ser favorável à despenalização da eutanásia. Esta é a declaração, na íntegra, de Cavaco Silva:

“Considero a legalização da eutanásia a decisão mais grave para a sociedade portuguesa que a Assembleia da República pode tomar. Como cidadão, sem responsabilidades políticas, o que posso fazer para manifestar a minha discordância é fazer uso do meu direito ao voto contra aquelas que votarem a favor da eutanásia.

Nas eleições legislativas de 2019 não votar nos partidos que apoiarem a legalização da eutanásia e procurar explicar àqueles que me são próximos para fazer a mesma coisa.

Trata-se de uma votação com tais consequências para a sociedade portuguesa que, como eleitor, em 2019, não posso esquecer o que os deputados fizerem agora.

Como é que os deputados, os actuais deputados à Assembleia da República, podem votar a favor da legalização da eutanásia, quando nas eleições de 2015 os eleitores não lhes concederam mandato para isso?

O que está em causa é a vida humana, o bem mais precioso de cada indivíduo. Como podem os deputados ignorar o parecer dos profissionais de saúde, os enfermeiros e os médicos que lidam com a vida e com a morte? Como podem ignorar o parecer do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida?

Como podem os deputados ignorar a posição das várias religiões em que os portugueses se revêem e que se juntaram para condenar a legalização da eutanásia?

Estas são questões que os deputados não podem deixar de colocar à sua consciência.

Cada português deve pensar bem o que significa uma pessoa, um médico, ser autorizado por lei da Assembleia da República a matar outra pessoa. Se tal acontecer, a nossa sociedade rompe uma barreira e dá um salto no desconhecido muitíssimo perigoso.

Estando em causa a defesa do primado da vida humana, entendi que devia fazer uso das duas armas que me restam como cidadão: a minha voz, não ficando calado, e o meu direito de voto na escolha dos deputados nas próximas eleições legislativas.”