NATO e UE querem que Rússia assuma responsabilidade pela queda do MH17

Holanda e Austrália não afastam a hipótese de avançar para uma queixa formal junto de um tribunal internacional. Moscovo critica o que diz ser aproveitamento político.

Parte do Boeing 777 da Malaysia Airlines reconstruído na Holanda
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Parte do Boeing 777 da Malaysia Airlines reconstruído na Holanda Reuters/Michael Kooren

A NATO e a União Europeia querem que a Rússia assuma as suas responsabilidades pela queda do avião da Malaysia Airlines em 2014 na Ucrânia, num desastre que causou a morte aos 298 passageiros que seguiam a bordo. Moscovo rejeita as acusações e põe em causa a investigação internacional em curso.

Os dois blocos exigem responsabilidades depois das acusações formais apresentadas esta sexta-feira pelos governos da Holanda e da Austrália, que não excluem avançar para um tribunal internacional.

Na véspera, uma equipa de investigadores concluiu que o míssil que abateu o voo MH17 no dia 17 de Julho de 2014 foi disparado por um sistema antiaéreo que pertencia a uma brigada do Exército russo e tinha sido cedido aos rebeldes separatistas que ocupavam o Leste da Ucrânia.

“A única conclusão que podemos razoavelmente tirar é que a Rússia esteve directamente envolvida na queda do MH17”, afirmou a ministra dos Negócios Estrangeiros australiana, Julie Bishop, através de um comunicado.

No mesmo sentido, o chefe da diplomacia holandesa, Stef Blok, diz estar “convencido de que a Rússia é responsável pela instalação do sistema BUK [um sistema antiaéreo de fabrico soviético] que foi utilizado para abater o MH17”.

É a primeira vez que dois governos fazem uma acusação formal em relação à Rússia no contexto da queda do Boeing 777, que ligava Amesterdão a Kuala Lumpur quando foi atingido por um míssil terra-ar enquanto sobrevoava o território ucraniano. Entre os 298 passageiros, mais de 200 eram cidadãos holandeses e australianos.

Os dois países dizem que vão “responsabilizar formalmente” a Rússia, embora o ministro holandês reconheça que poderá enfrentar “um complexo processo legal”. Para já, o objectivo é entrar em negociações com Moscovo para que se chegue a um acordo de compensação. Porém, o cenário de levar o caso a um tribunal internacional é encarado como um “possível próximo passo”.

“Pedimos à Rússia que aceite a sua responsabilidade e coopere totalmente como processo de estabelecer a verdade e alcançar a justiça para as vítimas do voo MH17 e os seus entes queridos”, afirmou Blok.

As acusações da Holanda e da Austrália são apoiadas pela UE e pela NATO. "A União Europeia faz um apelo à Federação Russa para que aceite a sua responsabilidade e coopere plenamente", declarou a chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini. Também o secretário-geral da Aliança Atlântica, Jens Stoltenberg, afirmou que os responsáveis pela tragédia "devem prestar contas".

A prioridade dos investigadores é descobrir agora a identidade dos responsáveis por operar o sistema antiaéreo no dia do desastre e têm feito apelos para que testemunhas lhes façam chegar informações.

Aproveitamento político, diz Moscovo

O Kremlin mantém a posição que adoptou desde o primeiro momento – nega qualquer envolvimento com o abate do avião e questiona a independência das investigações.

Esta sexta-feira, o Presidente russo, Vladimir Putin, negou que o míssil usado para abater o avião tenha pertencido ao Exército russo e manifestou interesse em participar nas investigações.

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Serguei Lavrov, acusou os dois países de aproveitamento político e traçou um paralelo com o caso do envenenamento do ex-espião russo Serguei Skripal – que Moscovo também nega qualquer responsabilidade.

"Parece-se muito com o caso Skripal, quando disseram ser 'muito provável' que tenha sido obra dos russos, mas a Scotland Yard disse logo que a investigação ainda estava a decorrer", disse Lavrov, à margem do Fórum Económico Internacional de São Petersburgo. "Se os nossos parceiros acham que mesmo perante um caso de grande tragédia humana, a morte de centenas de pessoas, devem especular para alcançar objectivos políticos, então deixo-o à consciência deles", acrescentou.