Entrevista

“O nosso mercado vai ser invadido pela construção espanhola”

Pela primeira vez na sua história a Mota-Engil encerrou um ano sem distribuir dividendos e com lucros esmagados em dois milhões de euros. O seu presidente, António Mota, diz que a construtora já não pode ser considerada uma grande empresa internacionalizada, mas sim uma multinacional de médias empresas.

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Adriano Miranda

O grupo mais internacionalizado de Portugal — tem 80% da sua actividade noutros países — foi praticamente obrigado a vender activos para reduzir a sua dívida. O presidente da empresa diz que a falta de dimensão no país lhe dificulta a estratégia na abordagem a outros mercados.

Dois milhões de euros de lucros, é um valor muito baixo. Uma carteira de encomendas de cinco mil milhões, um valor muito alto. Como comenta o ano de 2017.
O ano teve um resultado final mau, muito afectado pela entrada em vigor da IAS 29 [norma contabilística], que considera com as suas regras que Angola é um país hiperinflaccionário. Isso obrigou a introduzir um conjunto de alterações ao balanço, já nos últimos dias do ano passado e primeiros deste ano, que conduziram a esses resultados. Não fora isso e o resultado da Mota-Engil não seria brilhante mas seria um resultado normal para aquilo que era expectável. Os sinais são todos positivos. O volume de negócios subiu cerca de 17%, o EBITDA subiu 20%, a carteira de encomendas está em níveis recorde. 

Correspondeu às expectativas que tinham no início do ano?
Na verdade o resultado económico final, mesmo sem as IAS, seria bem positivo, mas não tanto quanto esperávamos no início do ano. Houve custos de estrutura superiores àquilo que seria expectável, mas que vão agora reduzir-se com a continuação do crescimento. Estou a falar de custos de estrutura, de funcionamento, de procura, entrámos em muitos países este ano. A carteira de encomendas está aí, é a maior de sempre, mas houve atrasos na obtenção do financiamento. 

Ficou triste com os resultados?
Fiquei. É a primeira vez que apresentamos resultados tão baixos e que não distribuímos dividendos. Queremos que a empresa cresça, fique sólida, cada vez mais sólida, e que o futuro seja melhor que o presente e que o passado. 

Conta com o mercado português para isso?
Neste momento a Mota-Engil tem 80% da sua actividade fora de Portugal. E dos 20% que cá estão, metade é na área ambiental, já nem construção é. Isso afecta drasticamente a nossa estratégia, por várias razões. Primeiro, porque conseguimos fazer menos formação de quadros. Segundo, porque estamos a entrar em novos mercados e é sempre bom as empresas apresentarem o que fazem no seu próprio país. Nós temos muito para apresentar, mas já começa a ter alguma idade.

Este ano receberam um dos mais reputados prémios de engenharia mundiais.
Por causa da obra em Nakala, no Malawi. Mas não termos actividade em Portugal é um problema. Estamos a fazer três ou quatro obras de dimensão, como as barragens, nas não há grandes obras. A Mota-Engil tem hoje uma dimensão grande demais para partir de Portugal. Somos considerados a mais internacional das empresas. Mas não somos uma empresa internacional. Somos uma multinacional de médias empresas. Somos uma média empresa em Portugal, uma média empresa em Angola, uma média empresa no México. Em alguns mercados temos uma quota significativa, mas não temos uma grande empresa que seja capaz de formar os quadros e ser a base. O know-how que antes estava concentrado em Portugal está hoje mais disperso. Isso cria dificuldades.

Continua a reclamar maiores apoios à internacionalização do sector. A que se refere?
Às dificuldades em obter garantias bancárias, por exemplo. Em muitos países emergentes, para onde as empresas vão trabalhar, o sistema financeiro local tem dificuldades. Nós temos as regras da União Europeia, como tem a Alemanha, a França, o Reino Unido. Mas as construtoras desses países conseguem montar financiamento. Nós temos mais dificuldades. Em Portugal, o sistema financeiro quase colapsou.

Como é que a Mota-Engil ultrapassou esse problema?
Diversificando. Hoje a banca portuguesa representa 39%. Trabalhamos com bancos locais e com grandes grupos internacionais. E conseguimos ultrapassar o problema porque em alguns desses países existem grandes clientes privados, para quem os problemas de financiamento não se colocam. Por exemplo, na Guiné-Conacri estamos a construir uma mina para sul-africanos que é paga de imediato. As obras da Vale - Rio Doce, tanto no Brasil como em Moçambique, também são quase assim. 

Acredita que o pior já passou na banca nacional? E em que é que essa crise afectou a Mota-Engil?
Não diria que o problema da banca já passou, diria que o sistema financeiro português está mais forte do que já esteve. Mas uma empresa como a nossa, que pretende criar as suas bases de financiamento nos países em que está, ainda tem dificuldades em alguns [mercados]. Não há sistema financeiro aberto em África. A solução do nosso problema - que é precisar cada vez menos da banca portuguesa - ainda vai a meio do caminho.

Assume esse objectivo, não precisar da banca portuguesa?
É um objectivo que não gostaríamos de ter, mas temos de ter.

A compra do Novo Banco por parte da Lone Star já está estabilizada e começaram alguns processos de renegociação de dívida. A Mota-Engil tem algum processo?
Nunca tivemos nenhum processo de renegociação de dívida. Face aos critérios europeus e às regras impostas pelo Banco Central Europeu (BCE) decidimos fazer a alienação de activos. Em bom tempo tínhamos feito a diversificação da actividade, fizemos significativas mais-valias com essas alienações. Na minha opinião nós nunca tivemos um problema de dívida, porque o que estava nas concessionárias era uma dívida sem recurso, por isso, não devia ser contabilizada como risco. Mas enfim, face a esse entendimento vendemos a Tertir, a Indáqua, uma grande parte das concessões rodoviárias em Portugal. Hoje as concessões rodoviárias estão exclusivamente aqui na Lusoponte, uma concessão em Moçambique, outra no Brasil e várias no México

Não as teria vendido se não fosse a pressão do BCE?
Muitas seriam vendidas, sim. A nossa missão não é ser proprietário de concessões, é gerar capital e alienar algumas para começar outras. O que eu acho é que se calhar não as vendemos na melhor altura. Fizemos mais-valias, mas teriam sido mais expressivas se esperássemos mais. Outra pergunta que deve ser feita é se isso para o país foi bom ou não. Eu acho que não.

Está a falar da Tertir [vendida ao grupo turco Yildrim, e que assume hoje uma posição maioritária nos portos nacionais]?
Estou a falar da Tertir, mas também de outras concessões e outras privatizações que foram feitas. Se calhar era melhor que continuassem em mãos portuguesas. Mas está feito, está feito. O passado é passado, vamos olhar para o futuro.

Como vê o pedido de Rui Rio para serem divulgados os maiores devedores da banca? O PS parece estar disposto a apoiar essa divulgação.
Acho muito bem. Pelo nosso lado, não há problema nenhum. As nossas dívidas estão expressas no relatório e contas, não temos nenhuma exposição fora do normal. Em 2016 e 2017 tivemos uma redução significativa do nosso endividamento, até porque as concessões quando foram vendidas levaram com ela muita parte da dívida. Mas recordo que o sigilo bancário é uma coisa muito importante.

Sobre a plataforma de gestão do malparado, que o BCP, o Novo Banco e a CGD já manifestaram intenção de participar. Há alguma dívida da Mota-Engil que venha a ser gerida por este fundo?
Que eu saiba não. Pelo menos não tenho nenhuma perspectiva disso. O que posso dizer é que o actual sistema cria desigualdades enormes. O mercado hoje é constituído por empresas que cumprem e que têm de pagar, ao lado de quem não cumpre e não tem de pagar. Andam de PER em PER [Processo Especial de Revitalização] até à falência final.

Que avaliação faz do que resta do sector da construção?
O sector está completamente diferente. Das 25 maiores empresas que existiam há 10 ou 15 anos só ficaram seis ou sete. Agora que vem aí um novo ciclo de investimento, Acho que o nosso mercado vai ser invadido pela construção espanhola. Espanha também sofreu com a crise, mas o mercado espanhol é  mais protegido que o português. Espanha conseguiu manter um pequeno grupo de empresas maiores. O que eu prevejo é que a concorrência vai ser enorme, e o mercado português corre o risco de ser inundado por cada vez mais players [grupos] internacionais. Era importante haver em Portugal mais três ou quatro empresas com a dimensão da Mota-Engil e da Teixeira Duarte. Se tivesse havido alguma preocupação para resolver estes problemas acho que o sector não se tinha degradado tanto. Na minha opinião foi falta de cuidado da política portuguesa, que destruiu totalmente o sector da construção.

Foi inabilidade ou foi intencional?
Eu só recordo que o apoio às empresas nos países da OCDE é considerado ajudas de Estado. Nos países fora da OCDE essas ajudas são normais. Se calhar houve três ou quatro países que mereciam ter esse apoio durante a crise. Não aconteceu. Foi porque o Estado não quis ou porque a banca teve o problema que teve? Se calhar as duas coisas ao mesmo tempo

Falou num novo ciclo de investimento público. Será a anunciada retoma do sector da construção? Há condições políticas para isso?
Acho que há e é uma obrigação. O investimento público atingiu níveis tão baixos que só pode crescer, e há algumas prioridades que têm de ser levadas, de uma vez por todas, até ao final. A questão ferroviária é fundamental para o país. Ainda há uma auto-estrada que precisa de ser rectificada — a que liga Coimbra a Viseu. Era prioritária, foi a concurso, esteve adjudicada…. Nem vale a pena falar por que é que não se fez — que é para não dizer que ia ser a Mota-Engil que ia ganhar aquilo. Depois há o problema da água e da rega, que é fundamental. Tem de haver muito obra na questão do abastecimento de água. Haver falta de água no nosso país é impensável. A agricultura hoje é das indústrias mais competitivas que temos.

Quando confia que vai arrancar esse novo ciclo de investimento?
Não será muito significativo, mas acredito que vai chegar, não em 2018, mas sim a partir de 2019. Na próxima legislatura terá de ser.

Vários sectores industriais queixam-se da falta de mão de obra. Também já falou da sua dificuldade em formar quadros. Como se ultrapassa isso?
É um problema real e é um problema grave. Nos últimos cinco anos não fizemos o  programa Start ME. Estamos a fazê-lo, no México, no Peru e em Angola e Moçambique com uma percentagem muito significativa de portugueses, mas com muitos estrangeiros já. Recomendo uma visita aos aeroportos de Lisboa e Porto às sextas e aos domingos à noite. Aí encontrarão todos os operários especializados a utilizar as "carreiras" para irem trabalhar  para países que pagam melhor. Por isso eu acho que os salários no sector da construção vão ter tendência a crescer. Eu sei que temos de cumprir as regras da União Europeia, mas vamos precisar de emigração para crescermos. Se não for com trabalhadores dos PALOP, vai ser com outras nacionalidades. A imigração que chega a Espanha vai passar para aqui.

A mudança do poder em Angola trouxe mudanças para a Mota-Engil?
Antes de mais trouxe mudanças para a própria Angola. O país tem 40 anos de existência e o trabalho que foi feito em termos de melhoria das condições de vida no país foi significativo. Foi também um país que cometeu muitos erros, mas passou a fase de independência, uma guerra civil, etc. Este presidente é diferente, vai abrir Angola ao mundo. Há uma mudança de mentalidades. Angola tem todas as condições para crescer e para isso precisa de se industrializar.

A Mota-Engil vai participar nesse processo?
A Mota-Engil tem essa vocação, claramente. E tem uma presença naquele país há 70 anos, tantos como em Portugal. Se Angola tiver a ajuda da estabilidade do preço do petróleo tudo ficará mais fácil. Mas neste momento em Angola é já reconhecida a necessidade de industrializar o país. E também é reconhecido que a agricultura é, cada vez mais, um sector económico em crescimento e rentável.