Opinião

Pablo Iglesias e uma casa de 600.000 euros

O problema é a coerência – ou a falta dela –, desde logo por causa de um tweet de 2012, em que Iglesias dizia sobre Luis de Guindos: “Entregarias a política económica de um país a alguém que gasta 600 mil euros num apartamento de luxo?” Pela boca morre o peixe.

O caso atingiu tal dimensão em Espanha que Pablo Iglesias decidiu referendar a sua continuidade como líder do Podemos e como deputado da nação: até que ponto o responsável máximo por um partido de extrema-esquerda, com um discurso fortemente anticapitalista e crítico dos desvios burgueses, pode dar-se ao luxo de comprar uma vivenda com piscina no valor de 600 mil euros? A partir desta terça e até domingo, meio milhão de espanhóis, simpatizantes do partido que está em segundo nas sondagens, vão decidir o destino político de Iglesias e da sua companheira, Irene Montero. A ascensão dos millennials e a explosão das redes sociais permitiram a rápida proliferação de projectos políticos alternativos como o Podemos, mas há um avesso que os novos demagogos não acautelaram devidamente: o escrutínio das acções está cada vez mais apertado e a hipocrisia mata.

O que começou como uma bonita história de amor acabou por abrir uma crise sem precedentes, que se correr mal pode vir a custar a cabeça a Iglesias e a Montero, ambos deputados, namorados e com gémeos a caminho. Por amor às crianças por nascer, o casal pediu um empréstimo de 560 mil euros para comprar uma casa no campo, argumentando ter rendimentos suficientes para pagar 1600 euros mensais ao longo de 30 anos. Qual é o problema, então? O problema é a coerência – ou a falta dela –, desde logo por causa de um tweet de 2012, em que Pablo Iglesias dizia sobre Luis de Guindos, recém-nomeado vice-presidente do Banco Central Europeu (ficou com o lugar de Vítor Constâncio) e até há pouco ministro da Economia espanhol: “Entregarias a política económica de um país a alguém que gasta 600 mil euros num apartamento de luxo?”

É preciso pontaria: 600 mil euros, exactamente o valor que Iglesias e Montero estão agora a pagar pela sua casa. Pela boca morre o peixe e pela boca pode muito bem ter morrido Iglesias. O comunismo e o socialismo sempre foram filhos da burguesia, desde os tempos de Karl Marx até ao actual elenco do Bloco. Os dedos de uma mão devem chegar para contar as grandes figuras de esquerda que saíram realmente do proletariado, e, se olharmos para as personalidades fundadoras dos partidos de esquerda portugueses – Álvaro Cunhal, Mário Soares, Francisco Louçã –, não encontramos qualquer trolha, nem um único camponês. Encontramos sempre filhos da burguesia com educações privilegiadas. O próprio Iglesias é um académico, com uma mãe advogada e um pai professor. Donde, quando se aproxima a hora de criar os próprios filhos, é natural que lhes queira dar o melhor, o que significa abrir os bolsos e assumir o estatuto de privilegiado. E é aqui que começam os curtos-circuitos.

Em Espanha, alguns militantes do Podemos, críticos de Iglesias e Montero, invocam o exemplo de José Mujica, ex-Presidente do Uruguai – aquilo é que é um homem de esquerda! Mas quem é que quer viver de chanatos no meio das cabras e galinhas? Os que dizem “não devemos ser da casta”, “devemos viver próximos daqueles que representamos”, podem estar excelentemente intencionados, mas apenas alimentam a velha confusão da extrema-esquerda: promover o empobrecimento dos ricos, em vez do enriquecimento dos pobres. Enquanto for assim, Iglesias está tramado. Na era das redes, vai ter de organizar um referendo interno de cada vez que for apanhado a mergulhar numa piscina privada, em vez de chapinhar proletariamente numa praia fluvial. Não lhe invejo a sorte – mas ele merece a sorte que tem.