Crónica

Futebol, o espelho do mundo que temos construído

O futebol dos escalões jovens imita todos os males que o futebol sénior e profissional incorpora. É urgente debater e legislar melhor a formação no desporto.

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Adriano Miranda

A rua ainda era em terra batida. O bairro era de gente pobre. Ao fim do dia, juntávamo-nos todos na rua larga. Jogávamos à bola. Quatro pedras eram os postes das balizas. O resto era suor e lágrimas para conseguir o melhor remate ou a melhor defesa. O resto era pó. O resto era amizade. E foi assim que me tornei adepto do Sporting. Gostava do Damas. Coleccionava os cromos do Yazalde, do Dinis, do Manaca e do Marinho. Não sonhava ser como eles. Eram uns heróis. Estavam nas estrelas, fora do meu alcance. Sonhava, sim, em ir ver um jogo de futebol num estádio. Daqueles grandes com muita gente. Era esse o meu sonho que nunca se concretizou. Lisboa era demasiado longe para um miúdo de um bairro pobre.

A vida foi melhorando. O alcatrão chegou. A rua larga ficou estreita com os carros novos dos vizinhos. Deixámos de jogar à bola. Comecei a ir ao velho estádio Mário Duarte ver o Beira-Mar. Gritava. Pulava. Fazia sol ou chuva e eu estava sempre lá. Ao domingo. Os velhos de cerveja na mão a mandar cascas de tremoço para a bancada. Os pequenos rádios colados ao ouvido. E os golos. Aquela felicidade. Aquele prazer. Os heróis saíam do campo esgotados. Beijavam a camisola. Aplaudíamos. Não existiam claques. Existiam pessoas que gostavam de futebol. Eu era um deles.

Com o tempo fui desligando. Deixei de ir aos estádios. Mas o Sporting ficou sempre no coração. Hoje, o futebol é uma megaempresa gerida por negociantes. Não é desporto. Não se rege por valores humanos mas por objectivos estranhos. Mesmo assim, não consigo deixar de roer as unhas ou gritar com um golo verde e branco. Ficar triste com a derrota, alegre com a vitória. Como se isso fosse importante para a minha vida. Não é nada importante. Mas comi muito pó a defender numa baliza imaginada, com o Damas na minha cabeça. Sem luvas. E isso ficou. Fui feliz e sonhei.

Quando o meu filho João fez três anos, fui ao antigo estádio José Alvalade. Comprei-lhe um equipamento a rigor. Ele gostava de o vestir e gritar Benfica. Um verdadeiro diplomata da 2.ª Circular. Mas o tempo encarregou-se de o fazer um sportinguista. Pensei, mais um para sofrer. Mas não sofre. Inteligente como é, virou as costas ao futebol mercantil.

O futebol mudou de genes. Agora é lucro. É milhões. É offshores. É alienação. É corrupção. É violência. É sectarismo. É mediatismo obsceno. Sabemos todos que é tudo isso. Mas também é prazer. Muitas vezes viciante. E não vem mal nenhum ao mundo gostar de ver 22 jogadores ao pontapé a uma bola. Com cada perna paga a peso de ouro, só se pode exigir espectáculo. Mas existe o outro futebol. O pobre. O que está fora da estratosfera milionária. Aquele que sobrevive com o subsídio do município ou com o patrocínio do benfeitor. Apesar de o “espectáculo” passar mais por partir pernas, os adeptos conseguem encontrar na rivalidade o prazer viciante.

E depois existe o futebol de que ninguém fala: o chamado futebol de formação, que de formação pedagógica, cívica e social quase nada tem. Crianças correm atrás de uma bola. Nas laterais do campo, pais babados, sonham em silêncio com um CR7. E as crianças aprendem “a ir ao homem”, “se passa a bola, não passa o jogador”, “a ser o maior”. E os pais chamam nomes ao bandeirinha. Ofendem os jovens jogadores. Pagam uma bifana ao árbitro. Andam à porrada se for necessário. Os treinadores gritam. Eles querem ganhar. Os olheiros estão a ver o jogo. Um dos grandes anda atrás do puto. Hoje não jogas, ficas a aquecer o banco. O outro joga mais tempo. Aquele é afilhado do treinador. O clube mandou-o embora. Não presta. E depois chega a hora em que as lágrimas são mais fortes do que as pernas. Rebenta a pressão. Os pais acordam no meio do pesadelo. Não há Ronaldo. Tudo foi ilusão.

Existem treinadores competentes. Que são um estímulo. Uma boa referência.  Existem clubes inclusivos que muitas vezes são o porto de abrigo de muitos jovens. Mas quando o futebol deixa de ser lúdico e passa a ser competição, a gestão torna-se difícil, quase sempre injusta em benefício do melhor em detrimento do pior. O futebol dos escalões jovens imita todos os males que o futebol sénior e profissional incorpora. É urgente debater e legislar melhor a formação no desporto. O caminho é esse. Começar a construir a casa pelos alicerces.

Não é de admirar o que aconteceu em Alcochete. Terroristas, que vêem no futebol terreno fértil para as suas ideias e práticas hediondas. Na mesma semana em que outros mataram e feriram centenas de palestinianos. A mesma desumanidade no seu estado puro. A brutalidade. Será urgente começar a escolher outros caminhos. Em muitas frentes.

Podemos formar craques. Mas será muito mais importante formar seres humanos de excelência. Mesmo que depois joguem à bola.