Opinião

O futebol português é um meio feio, sujo e mau

O futebol só pode ser consumido como as salsichas – ignorando como são feitas, para nos poderem saber bem.

Proponho a todos os adeptos de futebol que nas nossas animadíssimas discussões sobre bola passemos a fazer uma divisão cristalina e inflexível entre o amor a um clube e o amor às suas estruturas directivas. É um desafio nacional que aqui deixo: amar o Sporting sem gostar de Bruno de Carvalho; viver apaixonado pelo Benfica mas não por Luís Filipe Vieira; vibrar com o Porto sem enviar emojis fofos a Pinto da Costa. Eu sei que é difícil, e que não estamos habituados, mas não há outra forma de manter uma discussão séria sobre o futebol português, nem de continuar a gostar de bola sem pactuar com o esgoto a céu aberto em que se transformou o mundo dos negócios do futebol e os seus protagonistas.

Cada vez que escrevo sobre Bruno de Carvalho há muitos sportinguistas que me perguntam acerca de Luís Filipe Vieira e da operação e-Toupeira. Meus caros: a opinião que eu tenho de Luís Filipe Vieira é muito semelhante à opinião que tenho de Jorge Nuno Pinto da Costa, que por sua vez é bastante próxima da opinião que tenho de Bruno de Carvalho. A diferença do presidente do Sporting para os outros é que, talvez por ser mais novo, talvez por vir do mundo das claques, talvez por ter querido inovar com a bonita ideia do presidente-adepto, ele parece uma degenerescência infeliz, como aquelas famílias que ao casarem parentes demasiado próximos geram graves problemas de consanguinidade.

Do mesmo modo, o meu primeiro impulso em relação às operações envolvendo dirigentes de futebol é acreditar em todas. Apito Dourado? Acredito. E-Toupeira? Acredito. Cashball? Também acredito. Acredito por uma razão simples: espero muito pouco dos dirigentes de Porto, Benfica ou Sporting. O futebol só pode ser consumido como as salsichas – ignorando como são feitas, para nos poderem saber bem. Não é possível assistir ao que se passa nas negociatas das transferências, nas queixas sobre os árbitros, nas picardias entre directores de comunicação, e achar que o futebol é um excelente meio para atrair pessoas sérias. Não é. A probabilidade de haver gente profundamente honesta dedicada ao negócio do futebol em Portugal é mais ou menos semelhante à probabilidade de haver gente profundamente honesta dedicada ao negócio das bebidas alcoólicas na América dos anos 20. Isso significa que toda a gente é igual? Claro que não – tal como em Chicago nem toda a gente era Al Capone.

Contudo, não há dúvida de que o futebol tem tudo para ser um lugar mal frequentado: milhares de milhões de euros transaccionados anualmente; passes de miúdos sem barba nas mãos de agentes todo-poderosos; expectativas de lucros astronómicos (em quantas actividades económicas legais o preço de um activo pode valorizar 1000% em oito ou nove meses?); exércitos de gandulos ligados às claques desportivas a servirem de retaguarda intimidatória; ligações fortes ao poder político central, às autarquias e até mesmo à polícia e às magistraturas; presidentes com tiques de soba a agirem praticamente sem escrutínio; ocupação do espaço mediático em programas recordistas de audiência e com representantes a papaguear a cartilha dos clubes; e tudo isto, claro está, embrulhado num fanatismo de massas, que faz com que muitas pessoas respeitáveis percam qualquer réstia de espírito crítico quando se trata de falar dos clubes do seu coração. Gostar de bola? Acho impecável. Também gosto muito. Pôr as mãos no fogo por quem quer que seja que mande em clubes de futebol? Jamais.