Editorial

Sporting Clube de Pyongyang. Já acredita?

O Governo sabe bem que, querendo, já tem como punir os clubes que passem a linha. E não tenha dúvidas: ainda há mais fundo do que isto.

Há uns anos, um presidente de um clube grande contou-me isto com evidente orgulho: “Quando a equipa perdeu na Madeira eu pus um grupo de gente à espera dela no aeroporto para exigir a saída do treinador. Era ele ou era eu.” Tenho-me lembrado muitas vezes disto nos últimos anos, à medida que o futebol português caminhava para o degredo. Agora, bateu mesmo no fundo. E a verdade é que se estava mesmo a ver.

Há três meses escrevi aqui mesmo um texto a alertar para isso: que havia um dirigente desportivo, em particular, a desafiar todas as autoridades do país — desportivas e políticas — com uma espécie de autoritarismo de vão de escada, nem por isso menos perigoso do que os autoritarismos de regime. Chamei-lhe “Sporting Clube de Pyongyang” e causou-me os dissabores esperados, entre centenas de insultos e uma morada a circular na internet, com indicações muito específicas para quem me quisesse bater. Digo-lhe isto só porque, agora, perceberá melhor o tipo de fenómeno com que estamos a lidar.

O caso de Bruno de Carvalho é um tratado. Ele diz-se presidente/adepto e é assim que comanda o clube: como se jogasse um jogo de computador — com a diferença que é na vida real e tem consequências. Bruno é o presidente que interfere em tudo, que comenta no Facebook, que manda calar comentadores, que “proíbe” a leitura de outros jornais, que insulta os jogadores, que põe uma equipa inteira na rua, que humilha adversários e jornalistas, que comanda a claque — pondo fogo num ambiente já por si explosivo. Só não dava para adivinhar as suspeitas de compra de resultados. Com tudo isto, não pode surpreender o que aconteceu esta semana na Academia do Sporting, ou antes dentro do Estádio. O presidente pode não ser autor do crime, mas é o seu inspirador. 

Naquele artigo, eu avisava que Bruno de Carvalho queria transformar o Sporting Clube de Portugal no clube dele. E que isso “podia ser um problema dos sócios”, mas que “um líder obscuro é um problema de toda a gente”. E sublinhava que era inadmissível, face à escalada, que ninguém - do Governo ao Parlamento, passando pela FPF — se dignasse a dizer uma palavra.

Parece que o que aconteceu incomodou, agora, os políticos. Que o Governo quer mudar as leis, que já admite punir quem tiver comportamentos inadequados no desporto. É só medo. O Governo sabe bem que, querendo, já tem como punir os clubes que passem a linha. E não tenha dúvidas: ainda há mais fundo do que isto.

P.S. — Infelizmente quase tudo do que está acima descrito pode aplicar-se a outros dirigentes de outros clubes. Na economia dir-se-ia que é um problema “sistémico”. No desporto, não é?