Caçadores avisam: “Os parques naturais são os próximos a arder”

Presidente da Fencaça diz que depois de terrem saído os habitantes das aldeias dos parques naturais, “estão as expulsar os caçadores”. “As terras estão ao abandono”, avisa.

Jacinto Amaro fala num "bomba pronta a explodir a qualquer momento"
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Jacinto Amaro fala num "bomba pronta a explodir a qualquer momento" Rui Gaudencio/Publico

Jacinto Amaro, presidente da Federação Portuguesa de Caça (Fencaça) fala numa “bomba pronta a explodir a qualquer momento”. Diz que os parques naturais do país “estão ao abandono”, que “não foram limpos” e “estão na mesma situação em que estava o pinhal interior antes de lá chegar o fogo do ano passado”. “Os parques naturais são os próximos a arder”, avisa.

O presidente da maior associação de caçadores portugueses diz saber a gravidade das afirmações que faz, mas diz que as faz “com o conhecimento profundo que os caçadores têm da situação da floresta em Portugal” e com o objectivo de “evitar uma tragédia que está à vista de todos. O que disse agora ao PÚBLICO afirmou-o também no último domingo, durante o XXVI encontro Nacional dos Caçadores Portugueses, que decorreu em Santarém. Na plateia estavam o ministro da Agricultura, Capoulas Santos, deputados de vários partidos e representantes da Protecção Civil, entre outros.

Jacinto Amaro diz que o abandono dos parques naturais se deve, em primeiro lugar, ao facto de as pessoas que lá viviam terem deixado, ao longo dos anos, as suas terras “por não terem condições para lá viverem”. Mais recentemente, afirma, “começaram as expulsar as associações de caçadores, que eram quem ainda limpava as matas, faziam sementeiras, abriam clareiras e eram os últimos vigilantes dos parques naturais”.

O presidente da Fencaça lembra que, há cerca de 20 anos, “o Estado fazia protocolos com as associações de caçadores, em que estes eram obrigados, a troco de um subsídio, a terem vigilantes, um director da zona, a fazerem o cultivo e a limpeza das matas”. “De há uns tempos a esta parte, com as novas políticas para os Parques Naturais, tudo isso acabou. Estão a expulsar os caçadores dos parques. Estão ‘só’ a expulsar o maior colectivo do país, milhares de caçadores, que ainda cuidava das matas dos parques. Estão a expulsar os últimos vigilantes naturais”, afirma.

Há dez anos, começaram a ser feitas alterações aos Planos de Gestão dos Parques Naturais, que são revistos de cinco em cinco anos, algumas das quais se reflectiram na actividade da caça. Em primeiro lugar foram cancelados os subsídios que eram dados as associações com sede nos parques naturais. Depois foram reduzidas as áreas de caça dentro dos parques, havendo casos em que a área permitida para a actividade passou de 2000 hectares para 500. Estas duas alterações fizeram com que muitas associações, especialmente aquelas que eram de caçadores locais, desistissem da actividade uma vez que a caça que conseguiam não compensava o investimento que era necessário para manter a reserva.

Jacinto Amaro diz já ter dado este alerta ao Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), mas que não lhe “deram ouvidos”. “Dizem que ao expulsar os caçadores dos parques estão a proteger a biodiversidade. O que eu lhes perguntei foi: quando arder tudo o que é que lá fica de biodiversidade? Não tive resposta.

O líder da associação que representa milhares de caçadores, lamenta que “os caçadores não tenham sido chamados para debater a questão da floresta e dos incêndios, desperdiçando a opinião de quem conhece o terreno como ninguém”.

“A terra queimada é um passeio para os políticos que só vão ao terreno depois da desgraça acontecer. Nós andamos lá todos os dias e noites. As pessoas não imaginam as centenas de alertas de incêndios que damos à GNR por ano, os milhares hectares de floresta que não ardem todos os anos porque nós estamos lá, mas o nosso conhecimento não serve para nada”, acrescenta.

Jacinto Amaro volta a falar numa situação que “é um verdadeiro barril de pólvora do conhecimento de todos mas que ninguém quer falar. “Ninguém fala, falo eu. Estão avisados. Só espero num futuro breve não ter de dizer ‘eu avisei’”; conclui.