Portugueses sabem que a água é escassa, mas não a poupam

Inquérito apresentado nesta terça-feira pelo grupo Águas de Portugal revela grandes discrepâncias entre as percepções e os comportamentos dos inquiridos. Quase dois terços dos inquiridos reconhece que gasta água em excesso.

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Mais de 17% dos inquiridos não bebem água da torneira, muitos porque não gostam do sabor ou porque não confiam na sua qualidade Rita Franca
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Em Novembro passado, o abastecimento de Viseu esteve dependente de camiões-cisterna NUNO ANDRE FERREIRA/EPA

A seca que afectou todo o território continental do ano passado talvez tenha ajudado à resposta: quando colocados perante a afirmação de que “o planeta Terra será sempre abundante em água”, 83,3% dos participantes num inquérito promovido pelo grupo Águas de Portugal afirmam o seu desacordo. Mas, por outro lado, quanto toca a avaliar os seus próprios comportamentos, 61,8% das 1662 pessoas que participaram neste estudo assumem que estão a exceder-se no uso abusivo deste bem essencial. A dissonância entre o nível de informação, as atitudes e os comportamentos é um problema identificado no trabalho que é nesta terça-feira apresentado, em Lisboa, e a partir do qual se pretende orientar campanhas de comunicação para estimular a poupança deste recurso.

Essa campanha, a ser trabalhada pela Águas de Portugal, será apresentada em Junho e ainda que se dirija à população em geral, deverá comunicar eficazmente para uma faixa etária muito específica, diz o coordenador deste trabalho, João Coutinho Ferreira, do Instituto de Marketing Research: aqueles que têm entre os 16 e 30 anos, que são os que assumem maiores gastos e menos predisposição têm para poupar. Muito provavelmente, diz Coutinho Ferreira, porque a maioria não é responsável pelas contas.

A água que gastamos quando abrimos uma torneira lá em casa representa menos de um quinto do total consumido no país. A agricultura, responsável por 77% do consumo, segundo dados oficiais, é um sector onde há muito a fazer para gerir, com parcimónia, um recurso que entrou na agenda com as sucessivas secas, mais ou menos severas, que o país vem atravessando, ou com notícias mais alarmantes, como as da Cidade do Cabo, que continua a enfrentar uma crise de abastecimento. No sector doméstico, no entanto, os 187 litros que, em média, cada português consome diariamente estão confortavelmente longe dos 50 litros/dia por pessoa impostos, há meses, naquela cidade da África do Sul, perante a ameaça do Dia Zero. O dia em que nem uma gota sairá das torneiras.

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Em Portugal, os cenários climáticos apontam para um aumento das dificuldades de abastecimento de água para as várias finalidades e ainda na semana passada, numa entrevista com o PÚBLICO, a propósito do novo Programa Nacional da Política de Ordenamento do Território, o ministro do Ambiente assumia que o país vai ter de “fazer na água uma transição em tudo semelhante à que se fez na energia” e “gerir a água a partir da procura”.

Uma ideia que o governante reafirmou nesta terça-feira, acrescentando que, de lado da oferta apenas podem ser exploradas opções limitadas como a reutilização de água, num primeiro momento, em actividades urbanas. O estudo aborda esta questão mostrando que 88,2% dos inquiridos estão predispostos a aceitar água reciclada em situações de consumo não humano. Mais: quase 50% admitem aceitar uma taxa para financiar o tratamento dessa água reciclada.

Para Matos Fernandes, os portugueses, agricultores, consumidores domésticos ou industriais, têm de deixar de pensar que vai haver mais oferta, em termos de recursos hídricos, para um consumo em crescendo, e têm, em vez disso, de aumentar a eficiência. Ou seja, gastar menos água nas suas actividades diárias, ou poluir menos, no caso da indústria.

A água devia ser mais cara?

O ministro notou ainda que há ainda um caminho a fazer para tornar justo o valor cobrado por este bem essencial em actividades como a agricultura ou a indústria, que pagam menos por ele do que boa parte dos consumidores domésticos, sujeitos, em muitos concelhos, a tarifas já ajustadas ao custo de produção.

Em entrevista ao Jornal de Negócios, também o presidente do grupo Águas de Portugal admite que a água devia ser mais cara, nos sistemas em alta (antes de chegar às habitações), em algumas zonas do país para que empresas e municípios consigam recuperar os custos de exploração.

Uma das mudanças já em cima da mesa, adiantou o governante nesta terça-feira, é a inclusão dos litros gastos por família nas facturas da água, em vez dessa indicação ser feita apenas em metros cúbicos, uma medida que não permite à maioria das famílias ter noção daquilo que gasta.

Em Portugal, a factura média por dez metros cúbicos de água é de 23,3 euros. Entre os inquiridos, esse valor sobe para 26,7 euros e 75% deles discordam da ideia de que “a forma mais eficaz para assegurar a utilização eficiente da água é aumentar o preço”. Mesmo que admitam (64,6%), por outro lado, que as situações de seca vão fazer aumentar o seu custo.

A água e a electricidade são os bens mais estruturais para o funcionamento do dia-a-dia dos inquiridos – muito mais do que os combustíveis, o gás, ou as telecomunicações, dizem. Mas isso não tem correspondência no orçamento mensal de despesas, no qual a água pesa 4%, um pouco mais do que o gás (3,5%), mas bem menos do que as telecomunicações (9,3%) ou os combustíveis e a electricidade, ambos acima dos 41%.

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Não espanta, por isso, que a eventual redução do consumo de água surja em penúltimo lugar nas estratégias de poupança, que para os participantes neste inquérito seria mais efectiva com uma aposta na redução da factura com as telecomunicações.

E, no entanto, quando colocados perante a afirmação de que “as pessoas têm o direito de utilizar a água da forma que quiserem", 88% assumem que não pode ser assim, sem grandes discrepâncias entre faixas etárias. Até consideram, maioritariamente (76,1%) que não há exagero na ideia de que existe uma crise ecológica. Mas, quando avaliam a sociedade em que vivem, reconhecem (57%) que a água não é valorizada como sendo um bem escasso. Algo que pode explicar que, nas respostas relacionadas com a percepção do desperdício nas habitações, a água, com 21%, surja logo depois da electricidade (23,9%), no top sete dos gastos excessivos, à frente do gás, do combustível, dos produtos de higiene, do papel e consumíveis ou produtos alimentares.

17,3% não bebem água da torneira

O inquérito dá a perceber que o consumo, para beber, de água da torneira, é superior ao consumo de água engarrafada, apesar de haver algumas percepções erradas quanto à qualidade da água que nos entra em casa pelas canalizações.

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Num país em que, segundo o último Relatório do Estado do Ambiente, 98,6% da água que nos chega a casa é segura, só 59,4% dos que participaram neste estudo concordam com a afirmação que de ela “é muito boa”, com 18,4%, quase um quinto, a discordar dessa afirmação. Há 17,3% que dizem não consumir água da torneira por razões várias como o facto de não gostarem do sabor (46,8%), e, mais preocupante, por falta de confiança na sua qualidade (36,1%).

Para a equipa que elaborou o inquérito, este estudo demonstra um auto-reconhecimento da existência de desperdício mas também deixa claro que não será pelo lado da poupança na carteira, apenas, que se induzirá a poupança. Pelos dados recolhidos, a sensibilização para a redução do consumo de água parece aumentar quando se associam argumentos de sustentabilidade ambiental, embora seja preciso, dizem, desconstruir uma ideia bem presente: a associação entre a redução do consumo de água e a diminuição de conforto. O estudo aborda ainda questões relacionadas com o uso de água reciclada, para alguns fins, o que “não capta receptividade relevante entre os inquiridos”.  

O inquérito deixa pistas para estimular a poupança de água. Percebe-se que os inquiridos admitem estar a consumir água a mais, e que estão mais disponíveis para responder positivamente a campanhas de sensibilização ou medidas que incluam recompensas do que a mecanismos de penalização, como o aumento de preço, “ainda que reconheçam, a estes, efeitos mais imediatos”. Na comunicação, dão importância a dicas de poupança e ao exemplo dos actores institucionais, de quem esperam “acções efectivas”.