No resgatar é que esteve o ganho

Num momento difícil para o clube, Sérgio Conceição chamou a si alguns jogadores que estavam emprestados, a correr por fora. Há quatro que foram nucleares no desenho de um FC Porto vencedor.

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Aboubakar e Marega, dois dos jogadores que regressaram ao FC Porto e foram decisivos EPA/JOSE SENA GOULãO

As circunstâncias que rodeavam Sérgio Conceição quando chegou ao Porto, com o estatuto de treinador em rápida ascensão carimbado pelo Nantes, eram tão públicas quanto castradoras. Vigiados pela UEFA e financeiramente limitados, os “dragões” estavam obrigados a fazer uma gestão de recursos bem mais espartana do que nas épocas anteriores. Cabia, pois, ao novo treinador, sobre o qual recaíam muitas das expectativas que em anos recentes eram distribuídas por contratações sonantes, capitalizar todo o investimento realizado até então, o que significou, na prática, resgatar alguns dos activos que o clube tinha espalhados pela Europa. O resultado, esse, está à vista.

Ricardo Pereira

26 jogos na Liga/2 golos

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Ricardo Pereira Fernando Veludo/Lusa

O brilharete que tinha feito na Liga francesa, com duas épocas de altíssimo calibre ao serviço do Nice, já antes levantara a questão sobre o porquê de continuar emprestado. Opção primeira de Sérgio Conceição desde o dia um, Ricardo Pereira foi sempre solução para as diferentes nuances que o jogo do FC Porto pedia. Essencialmente como lateral direito, mas ocasionalmente também no lado contrário ou a actuar como extremo, em sintonia com Maxi, o internacional português foi determinante para o sucesso de um modelo que sempre exigiu muito aos laterais, convidados a arrancarem pelo campo fora pelos movimentos interiores dos extremos. A capacidade de jogar com os dois pés permitiu a Ricardo desequilibrar ora pela linha, ora por dentro, e tornar-se numa fonte importante de assistências para golo. Uma das figuras do título, sem qualquer tipo de favor.

Sérgio Oliveira

18 jogos na Liga/3 golos

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Sérgio Oliveira MANUEL ARAúJO/LUSA

Coabitou, por um curto período, com Sérgio Conceição no Nantes, na primeira metade de 2017, e o treinador entendeu que seria uma peça útil para a engrenagem do FC Porto. Foi ganhando protagonismo à medida que a época foi avançando, mas percebeu-se que tinha toda a confiança do treinador quando foi “chamado a depor” em jogos de alto risco. Especialmente depois da lesão de Danilo, ganhou mais preponderância e formou, com Herrera, um duplo pivot no meio-campo que deu quase sempre conta do recado. Neste contexto, foi obrigado a pisar terrenos mais recuados do que aqueles que gosta de explorar, mas a sua capacidade para circular a bola e para tornar o jogo mais vertical revelaram-se muito úteis. Tacticamente, também cresceu, e isso é fácil de constatar pela forma cirúrgica como faz faltas na zona e no momento correctos para evitar que a equipa se parta.

Marega

27 jogos na Liga/22 golos

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Marega Manuel Araújo/Lusa

Uma verdadeira partícula aceleradora do jogo do FC Porto. O jogador que mais cresceu e surpreendeu. Um avançado de baterias sempre carregadas que encontrou na exigência de Sérgio Conceição o ambiente perfeito para mostrar tudo aquilo que já dera a entender em Guimarães mas que mantivera escondido na primeira passagem pelo Dragão. Moussa Marega não deu nas vistas só pelos (muitos) golos que marcou – e de várias formas e feitios – ou pelas assistências que proporcionou. O maliano revelou-se como um jogador determinante nos momentos de pressão sobre a bola, no ataque à profundidade (graças à sua velocidade explosiva) e, também, na abordagem aos espaços curtos, conseguindo, com diagonais constantes, transformar a vigilância dos adversários num pesadelo permanente. Mesmo nos momentos em que os colegas de sector baixaram um pouco de produção, ele esteve presente, com índices impressionantes que mantiveram a equipa na rota do sucesso.

Aboubakar

27 jogos na Liga/15 golos

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Aboubakar José Coelho/Lusa

Chegou a comentar-se que não regressaria ao FC Porto, depois do empréstimo ao Besiktas, mas Sérgio Conceição terá tido um papel preponderante no sentido de convencer o avançado camaronês a juntar-se ao grupo. Assinou um início de temporada fulgurante, tirando o melhor partido da forma avassaladora como a equipa se dispunha no meio-campo ofensivo e asfixiava o adversário na saída de bola. Inteligente nas movimentações e de recorte técnico mais fino que os colegas de posição, Aboubakar emprestou à equipa a sua mobilidade (muitas vezes arrastando marcações para as penetrações dos colegas) e uma assinalável capacidade de definição. O rendimento acabou por cair significativamente na segunda metade da temporada, mas ninguém poderá apagar o papel decisivo que teve no momento em que maiores dúvidas se levantavam sobre a capacidade da equipa de manter, no médio prazo, uma ideia de jogo tão arrojada.

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