Editorial

A bola ainda é redonda

A vitória do FC Porto acabou com um ciclo. O Benfica saiu de um sonho e entrou num pesadelo. O Sporting pode disfarçar melhor, mas não terá vida fácil. É tempo de um balanço - e não é bom.

O campeonato só acaba na próxima semana - e ainda vem a Taça a caminho. Mas não foi preciso chegar ao fim: cinco anos depois, o Benfica fechou um ciclo de vitórias - e o FC Porto regressou aos títulos, acabando com o pior momento do longuíssimo reinado de Pinto da Costa. É tempo, assim sendo, de falar de futebol para tirar algumas conclusões.

1. A vitória do FC Porto mostra que a bola ainda é redonda. E que o dinheiro não ganha - sozinho - campeonato nenhum. A contratação mais relevante da época foi Sérgio Conceição, que recuperou o espírito de outros anos e pôs uma equipa que fracassou há um ano a jogar bom futebol e a celebrar nos Aliados. Às vezes, é tão simples como isto.

2. O Benfica saiu de um sonho e entrou num pesadelo. Não fez um único ponto na Liga dos Campeões (o que significa perder milhões), saiu da Taça de Portugal e da Taça da Liga logo no início. E nem a frescura de ter muito menos jogos do que os adversários directos deu à equipa o suficiente para chegar melhor à recta final, onde tudo se decidiu. O jogo deste sábado à noite, em Alvalade, deixa ainda em aberto o mínimo dos mínimos (a Liga dos Campeões), mas até isso é insuficiente para disfarçar o resto.

E o resto é um filme negro. Nenhum título no futebol profissional, um treinador contestado e sem discurso, uma equipa que não foi reconstruída. E, sobretudo, um presidente e um clube sob suspeita, investigados por alguns dos mais graves crimes desportivos previstos na nossa legislação. Depois disto, o clube terá que acordar e olhar para dentro. A linha de partida para a época seguinte é a um passo do abismo. 

3. O Sporting pode disfarçar melhor, mas não terá vida fácil. Ganhou a Taça da Liga, pode ainda ganhar a Taça de Portugal, foi longe na Europa e ainda pode sonhar com a Liga dos Campeões. Mas este foi mais um ano sem o título. E estes anos sem ganhar são uma derrota para o seu presidente.

Bruno de Carvalho fez pior: conseguiu em poucos dias deixar Jesus numa encruzilhada, o plantel destruído e, assim, transformar a próxima época num pesadelo à vista - a começar tudo do zero.

4. Quanto ao resto, sobra o Braga, que é o definitivamente o quarto grande. E sobra um ambiente tenebroso, onde não há lei, não há ética, não há respeito - pelos outros, pelo desporto. Se há derrotados esta época são os adeptos do bom futebol, aquele que se joga com uma bola redonda e não com palavras assassinas. Por sorte, vem aí a selecção: por uns meses, ao menos, andaremos todos de braço dado.