Há lugar para (mais) portugueses na ESA

Hugo Marée, o director para a educação da Agência Espacial Europeia, acredita que os jovens portugueses “podem encontrar o seu lugar na agência e na indústria aeroespacial”.

Hugo Marée esteve na ilha de Santa Maria nos dois primeiros dias da competição CanSat
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Hugo Marée esteve na ilha de Santa Maria nos dois primeiros dias da competição CanSat Pepe Brix

A apresentação em PowerPoint mostrava um desenho pueril, feito com lápis coloridos e digitalizado para contar uma história aos alunos e professores que iniciavam a participação na competição CanSat Portugal 2018. “A criança que fez este desenho, há muitos anos, sonhava trabalhar no sector espacial”, contava o director para a educação da Agência Espacial Europeia (ESA), Hugo Marée, na sessão de abertura da quinta edição da competição nacional de lançamento de microssatélites do tamanho de latas de refrigerantes. Arrancou alguns sorrisos à plateia, cansada das muitas horas de viagem até à ilha de Santa Maria, nos Açores, mas foi o final da apresentação que a conquistou: “Já agora, o autor deste desenho sou eu.”

Natural da Bélgica, Hugo Marée lidera o departamento da ESA que se dedica à educação – e onde trabalham três portuguesas – e acredita que projectos como a CanSat contribuem para despertar nos jovens interesse pelo sector espacial. “O impacto vai ser visto mais tarde, é um investimento”, comenta, já no dia seguinte, durante o último fim-de-semana, sentado à mesa de trabalho de uma das 16 equipas participantes. O objectivo é “estimular o interesse da geração mais jovem por ciência, tecnologia, engenharia e matemática”. Para pôr em prática programas espaciais “de sucesso”, continua, “é necessário ter uma mão-de-obra talentosa”.

Nem todos estes estudantes do ensino secundário vão tornar-se engenheiros, técnicos ou cientistas, sublinha, “mas a CanSat é um meio muito eficaz de aprender fazendo”. O espaço é apenas o contexto – até porque os microssatélites desenvolvidos nas escolas e lançados no céu de Santa Maria não ultrapassaram os mil metros de altitude –; a abordagem e a metodologia são as mesmas. Fundamental é a motivação, “acreditar que é possível trabalhar no sector espacial”. O desenho feito por um menino belga há algumas décadas parece prová-lo.

Os astronautas, o rosto mais visível daquilo que se faz no espaço, são apenas “a ponta do icebergue” de um trabalho de equipa. A ESA, destaca Hugo Marée, tem um programa de estágios – o Young Graduate Trainees (YGT) – ao qual qualquer jovem recém-licenciado se pode candidatar para “adquirir uma primeira experiência de um a dois anos”. “Tenho oito destes jovens a trabalhar na minha equipa e, no final, não tenho dúvidas de que vão encontrar empregos rapidamente”, sublinha.

“Portugal está a investir muito [neste sector] e quer, enquanto membro da ESA, receber um retorno do investimento”, analisa Hugo Marée. “Nos próximos anos, vamos precisar de engenheiros para substituir a geração mais velha que se vai reformar, sobretudo engenheiros de sistemas, capazes de perceber e ver o quadro completo”, adianta. O belga “não ficaria surpreendido” em ver as raparigas e os rapazes, que se empenharam, durante meses, na concepção e desenvolvimento de um microssatélite capaz de recolher e transmitir dados para uma estação terrestre improvisada, a trabalhar no sector espacial, impulsionados por actividades de cariz europeu como a CanSat. “Podem fazê-lo e encontrar o seu lugar na ESA e na indústria aeroespacial.”