Quénia proíbe exibição de filme seleccionado para Cannes

Comissão de classificação diz que Rafiki, de Wanuri Kahiu, “procura legitimar uma relação lésbica”.

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Rafiki, de Wanuri Kahiu DR

A Comissão de Classificação de Cinema do Quénia (KFCB) proibiu esta sexta-feira a exibição no país do filme de Wanuri Kahiu, Rafiki, que na semana passada foi incluído na selecção oficial do próximo Festival de Cannes, na secção Un Certain Regard.

Rafiki (palavra que significa "amigo") é a adaptação cinematográfica do conto Jambulka Tree, da escritora ugandesa Monica Arac Nyeko, e conta a história da amizade e da paixão entre duas jovens mulheres, Kena e Ziki, apesar de as respectivas famílias serem opositoras políticas.

Com Rafiki, será a primeira vez que este país africano vê a sua filmografia representada no festival francês, cuja 71.ª edição começa a 8 de Maio.

Mas o organismo estatal vê no filme uma tentativa de “legitimar o romance lésbico”, o que supostamente irá contra os valores da sociedade queniana.

A decisão da KFCB de censurar o filme motivou reacções de protesto nos media do país, e também da organização National Gay and Lesbian Human Rights Comission.

Também a realizadora do filme se manifestou contra a proibição. “Eu verdadeiramente esperava que a comissão classificasse [o filme] para maiores de 18 anos. Porque o público queniano é já um público maduro e com discernimento suficiente”, disse Wanuri Kahiu à BBC. E acrescentou que este acto de censura vai impedir que “o público queniano veja Rafiki, fale sobre o filme e decida o que pensar dele”.

A decisão da KFCB foi anunciada com o hashtag #KFCBbansLesbianFilm, que, em paralelo com as críticas que motivou, também recebeu manifestações de apoio em tweets que se manifestavam contra a homossexualidade.

A mesma comissão – então presidida por Ezekiel Mutua, que, segundo a BBC, se vê a si próprio como “o polícia da moral” no Quénia – tinha já proibido, em 2014, a exibição no país da produção norte-americana O Lobo de Wall Street (Martin Scorsese, 2013), com Leonardo DiCaprio como protagonista, devido a “cenas extremas de nudez, sexo, deboche, hedonismo e também palavrões”. Dois anos depois, a KFCB levou a Coca-Cola a cortar um beijo num anúncio publicitário para que ele pudesse passar nos ecrãs do país.

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