As enxurradas do Guadiana faziam parte da sua identidade

A barragem do Alqueva criou a maior reserva estratégica de água da Europa, numa zona de Portugal onde a carência de água tem sido um condicionalismo ao desenvolvimento. A barragem alterou o estuário do rio Guadiana, sobretudo devido à inibição das enxurradas. A dimensão do seu impacto está por conhecer.

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Em anos de baixo caudal do rio, a presença de sardinha caiu 69% e das espécies carnívoras, como a dourada, aumentou mais de 100% PAULO RICCA / PUBLICO

A barragem do Alqueva foi responsável por uma maior regulação do caudal do rio Guadiana, por um lado, inibindo as enxurradas no estuário durante os períodos de precipitação elevada e, por outro, permitindo um caudal mínimo mesmo durante os períodos de seca. Este aparente efeito positivo de prevenção de inundações e cheias no estuário causou também um revés. É que as grandes descargas de água doce no Inverno, típicas dos rios sob clima mediterrânico, funcionavam como um mecanismo regulador de processos físicos, químicos e biológicos, importantes à preservação do ecossistema nativo.

O estuário do Guadiana vai desde a foz do rio até Mértola, a cerca de 70 quilómetros. O estuário alberga uma diversidade de ecossistemas, com destaque para os que se encontram na Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António. É um dos mais bem preservados da Península Ibérica onde se podem encontrar, por exemplo, mais de 460 espécies de plantas, incluindo várias raras e endémicas.

As populações que vivem à beira do estuário conhecem bem o efeito devastador das suas cheias. Em Alcoutim, pode ler-se numa placa de mármore na fachada principal da Igreja da Misericórdia: “A esta altura chegou a enchente do Guadiana no dia 7 de Dezembro de 1876”, durante aquela que ficou conhecida como a Cheia Grande. O jornal Gazeta do Algarve noticia na altura que “o Guadiana há três dias que traz uma corrente assustadora e devastadora – mede a velocidade de 11 milhas por hora e tem alagado completamente todos os campos marginais”. A Cheia Grande não foi a primeira, nem a última cheia do Guadiana, mas é um cenário pouco provável no futuro devido à barragem do Alqueva. No passado, a água das barragens em Espanha (que em situações de cheia abrem as comportas), a juntar à parte da bacia hidrográfica a montante de Mértola, era suficiente para poder causar grandes descargas e consequentemente cheias no estuário. O Guadiana é um rio muito estreito e portanto com tendência a ter cheias com volumes de água que, em rios com margens mais “abertas”, não ocorreriam.

Mais mediterrânico antes do Alqueva

Os estuários são sistemas altamente dinâmicos e complexos, ingredientes apelativos a cientistas das mais variadas áreas. A maior parte da investigação científica acerca do estuário do Guadiana tem sido realizada na Universidade do Algarve, através do Centro de Ciências do Mar (CCMAR) e do Centro de Investigação Marinha e Ambiental (CIMA-UAlg).

Antes da construção da Barragem do Alqueva, em 2002, foi levado a cabo um conjunto de projectos científicos com o objectivo de caracterizar a situação base do estuário do Guadiana, do ponto de vista das suas características físico-químicas e biológicas. Os estudos acerca da ecologia estuarina e dos vários organismos da cadeia alimentar foram feitos por equipas do CCMAR. Nessa altura foram também estudadas as partículas em suspensão na água, nutrientes e sedimentos pelas equipas do CIMA-UAlg, Instituto Português de Agronomia e Pescas (IPIMAR) e Universidades de Huelva e Cádiz, enquanto o estudo da circulação da água no estuário foi da responsabilidade do Laboratório Nacional de Engenharia Civil.

Grande parte dos resultados da situação de referência foi publicada em 2006 num volume especial da revista científica Estuarine, Costal, and Shelf Science. Nas conclusões dos estudos de referência, os investigadores manifestavam preocupações acerca da possibilidade da diminuição da quantidade e qualidade das descargas de água doce do Rio Guadiana poderem ter consequências nos ecossistemas estuarinos e costeiros.

As comportas da barragem foram fechadas no dia 8 de Fevereiro de 2002 e a regulação do caudal fluvial passou de 75% para 81%. Desde a construção da barragem passaram-se 15 anos durante os quais se gerou o maior lago artificial da Europa. De acordo com a EDIA (Empresa de Desenvolvimento e Infra-estruturas do Alqueva, S.A.), a capacidade de armazenamento máximo da albufeira do Alqueva é de 4,150 milhões de metros cúbicos, sendo de 3.150 milhões de metros cúbicos o volume utilizável em exploração normal (aproximadamente 1 milhão de piscinas olímpicas).

Situação depois do Alqueva

A albufeira de Alqueva estende-se por 83 quilómetros ao longo dos concelhos de Moura, Portel, Mourão, Reguengos de Monsaraz e Alandroal, ocupando uma área de 250 quilómetros quadrados. De acordo com a EDIA, a barragem do Alqueva interliga-se com outras barragens garantindo a disponibilidade de água, mesmo em períodos de seca extrema, a uma área aproximada de 10.000 quilómetros quadrados, divididos pelos distritos de Beja, Évora, Portalegre e Setúbal. Actualmente o Alqueva permite a rega de cerca de 120.000 hectares de terrenos agrícolas.

Os benefícios locais e regionais das populações são evidentes, mas a construção de barragens desta dimensão tem custos ambientais imediatos, como a destruição dos habitats nas margens do antigo vale e actual leito do lago, e efeitos a médio prazo nas zonas a jusante, em particular no estuário do Guadiana e zona costeira.

Após o fecho das comportas, o estudo mais completo e persistente do estuário do Guadiana tem sido conduzido por Erwan Garel, investigador do CIMA-UAlg e especialista em hidrodinâmica costeira. “O clima mediterrânico e o facto de o estuário ser bastante estreito, fazia com que durante períodos de precipitação elevada e concentrada o estuário ficasse cheio de água doce, rápida e turva”, afirma o investigador.

A EDIA tem o compromisso de manutenção do caudal ecológico, tipicamente da ordem dos 50 metros cúbicos por segundo (m3/s) e nunca deve ser reduzido abaixo dos 3 m3/s, para manter os serviços do ecossistema nos níveis mínimos. Houve, portanto, sensibilidade ambiental para a manutenção de um caudal mínimo, mas não houve preocupação para a promoção ocasional de grandes descargas. Desde 2002, só ocorreram quatro episódios de descarga significativa pelos gestores de água do Alqueva.

A equipa do CIMA-UAlg tem por base os dados de uma estação de medição (chamada SIMPATICO) localizada no baixo estuário, que mede a velocidade da corrente e outros parâmetros como a profundidade, temperatura, etc., desde 2008. Erwan Garel refere que “os dados obtidos pelo SIMPATICO constituem a mais longa série estuarina pormenorizada de Portugal”. O investigador francês da zona da Bretanha tem passado muitas horas debaixo das águas internacionais do rio, a fazer manutenção da estação SIMPATICO. “É preciso estar sempre a mergulhar e limpar tudo, quer de verão, quer de inverno”, acrescenta.

“As enxurradas que existiam antes do Alqueva faziam com que o transporte global de sedimentos do estuário fosse no sentido da foz”, explica. Durante os períodos de descarga pequena há uma diminuição da exportação de sedimentos do estuário para o litoral em duas ordens de grandeza. Esta retenção de sedimentos teve, por enquanto, efeitos reduzidos nas praias espanholas devido à existência de um banco arenoso submerso nesta zona. Este banco de grandes dimensões (conhecido como banco do O’Brill), formado ao longo de décadas em frente à barra do Guadiana, tem-se deslocado para terra, alimentando e protegendo as praias do lado espanhol. “Esta situação irá provavelmente alterar-se quando todo o banco arenoso aderir a terra”, adverte o investigador.

Erwan Garel finaliza: “foi ingénuo achar que a caracterização de referência antes do Alqueva podia ser feita apenas com um par de anos. Para se perceber o comportamento do estuário é necessário medi-lo frequentemente durante décadas”, como é prática noutros países da Europa e dos EUA.

Também Maria João Bebianno, uma das maiores especialistas nacionais em poluição marinha e investigadora do CIMA-UAlg, está interessada no estuário do Guadiana, dada a existência de poluentes na água e nos sedimentos. Ao longo do estuário existem actividades económicas como agricultura, turismo e aquacultura, além de instalações portuárias (comerciais e de pesca), uma marina e oficinas de construção e reparação de embarcações. Todas estas actividades geraram resíduos, alguns dos quais tóxicos para o ambiente aquático.

Recentemente o CIMA-UAlg publicou um livro Guadiana River Estuary: Past, Present and Future onde são descritos muitos dos aspectos particulares deste estuário, incluindo o estudo dos poluentes. As principais preocupações da equipa de Maria João Bebianno são os metais (particularmente o chumbo), compostos orgânicos persistentes (originados, por exemplo, por derivados do petróleo e por tintas para tratamento de cascos de barcos), produtos farmacêuticos (em especial analgésicos e anti-inflamatórios) e produtos de cuidados pessoais (como protectores solares e perfumes). Maria João Bebianno alerta que “os fármacos e produtos de higiene (os chamados contaminantes emergentes) estão a aumentar e não existe tecnologia a nível internacional capaz de os remover durante o tratamento de águas residuais”.

As alterações induzidas pela construção do Alqueva na distribuição destes poluentes não estão ainda bem estabelecidas. Há até possibilidade da remobilização dos poluentes que se foram acumulando nos sedimentos do rio ao longo de décadas pelas actividades mineiras em São Domingos, a mais de 60 quilómetros da foz do Guadiana. Mais uma vez, é evidente a premência do financiamento de medições sistemáticas para se perceber a evolução da distribuição de poluentes, incluindo os emergentes, na ausência de enxurradas ocasionais.

Nem todos os organismos reagiram da mesma forma à regulação do rio. Um dos indicadores da qualidade da água no estuário é a composição do plâncton (organismos de reduzidas dimensões que vivem na água e que servem de alimento a muitos outros organismos), que tem sido estudada por Rita Domingues, investigadora do CIMA-UAlg. Numa sala na penumbra, em frente ao microscópio iluminado, Rita Domingues tem contado pacientemente milhares de minúsculos organismos, durante mais de uma década. “Pensava-se que com a barragem o caudal do rio iria diminuir drasticamente, sobretudo no verão, e isso seria favorável à proliferação de cianobactérias (tipo de bactérias tóxicas que habitam os sistemas aquáticos), que gostam de águas paradas e quentes”, refere a investigadora. O que se verificou, contudo, devido à gestão do caudal da água pela EDIA, é que a torneira está sempre aberta, mesmo no verão, o que levou a uma diminuição da abundância de cianobactérias. Pelo contrário, a abundância de diatomáceas (outro tipo de microrganismos unicelulares) aumentou, o que constitui uma fonte de alimento interessante para outros organismos. Rita Domingues conclui que “a diminuição de cianobactérias e aumento das diatomáceas revelam uma melhoria global da qualidade da água do estuário”, dado que muitas espécies de cianobactérias produzem toxinas responsáveis por problemas gastrointestinais, dermatológicos e neurológicos.

Alexandra Teodósio, investigadora do CCMAR, tem efectuado observações das espécies que habitam o estuário, em parceria estreita com os pescadores do Guadiana. Algarvia, Alexandra Teodósio tem uma relação afectiva com o estuário que a viu crescer e do qual também se alimentou. A investigadora explica que “as espécies nativas do estuário foram-se adaptando ao longo do tempo às condições extremas que o rio naturalmente tinha, quer às enxurradas, quer ao leito seco. Mais, estas condições ajudavam as espécies nativas no seu ciclo de vida”. Não havendo estes extremos, aos quais apenas as espécies nativas estão adaptadas, surgem condições para que outras espécies possam prosperar.

Os pescadores da região têm detectado um aumento da quantidade de medusas que lhes colmatam as redes. Um estudo efectuado por investigadores do CCMAR permitiu concluir que a proliferação de medusas está ligada à regulação do caudal, mas de uma forma indirecta. Antes do Alqueva, os pólipos das medusas (fases iniciais do seu ciclo de vida) não resistiam aos episódios de enxurradas. “Estes pulsos de água doce como que limpavam o rio de certas espécies”, explica Alexandra Teodósio.

Neste momento, já se conhecem 12 espécies não-nativas, maioritariamente marinhas, desde o fecho das comportas do Alqueva. As espécies incluem peixes, ameijoas, medusas, camarões, e mais recentemente uma espécie de caranguejo. “Algumas espécies têm valor comercial, como o caranguejo-azul ou a corvina americana, que são até sobreexploradas nos EUA e América do Sul, mas é preciso avaliar o impacto destas espécies invasoras no ecossistema nativo”, adverte Alexandra Teodósio. Além disso, a corvina americana é muito voraz, muito agressiva e cresce mais rapidamente, o que motivou acções de sensibilização para estimular o seu consumo.  A investigadora acrescenta, entre risos, que “a corvina americana é fácil de pescar porque morde logo o isco, mesmo para mim que sou má pescadora”. Também já provou as medusas, confeccionadas por um chefe culinário que anda a testar as suas possibilidades para menus sofisticados. “Fica com uma textura como a lula e sabe a mar, mas tem que ser cozinhada como deve ser”, conta Alexandra Teodósio.

Pedro Morais, investigador na Universidade da Califórnia, Berkeley, EUA, é um apaixonado pelo Guadiana. Guarda escrupulosamente os recortes de notícias do Guadiana e do Alqueva que foram saindo nos jornais portugueses. A sua paixão nasceu quando participou num estudo da comunidade de peixes estuarinos anterior e posterior ao fecho das comportas da barragem. Estes dados, que viriam a fazer parte do seu doutoramento, mostraram ainda outros efeitos indirectos. “Os pulsos de água doce do rio Guadiana afectam também as espécies marinhas que se alimentam do plâncton, as quais subsistem com base nos nutrientes descarregados pelo Guadiana, como é o caso das sardinhas”, refere Pedro Morais. Um estudo do seu colega Luís Chícharo mostrou que, em anos de baixo caudal do rio, a abundância de sardinhas decresceu 69% enquanto as espécies carnívoras (por exemplo, a dourada) aumentou entre 112% e 128%. O investigador acrescenta, com humor, que “da mesma forma que os agricultores, também os pescadores deviam ser indemnizados em períodos de seca. Está tudo ligado”.

Para além disso, Pedro Morais verificou uma redução do uso do estuário do Guadiana como habitat para os peixes de água doce e como zona de desova para os peixes de água salgada. Alguns barbos, endémicos da Península Ibérica, estão actualmente classificados como ameaçados. E outras espécies, que ocorrem em habitats de águas salobras e doces, são consideradas vulneráveis, como o sável e a saboga. O saramugo, um endemismo outrora abundante na bacia do Guadiana, está hoje ameaçado de extinção. Outros problemas como a sobreexploração e a extracção de areias resultou no desaparecimento, já há largas décadas, do esturjão Europeu, uma espécie migratória outrora emblemática no Guadiana. Pedro Morais adverte que “as comunidades de plâncton e de peixes apresentam grande variação ao longo do ano e ao longo dos anos e os estudos que temos feito são apenas ocasionais. É necessário implementar um plano de monitorização não só da qualidade da água do Alqueva, como o que é levado a cabo pela EDIA, mas de áreas a jusante e de parâmetros ecológicos adicionais”.

Os vários investigadores que têm estudado o estuário do Guadiana são muito cautelosos nas suas afirmações acerca do papel do Alqueva. Dos seus depoimentos destaca-se que a variabilidade da natureza é tão elevada que estudos ocasionais, de um ou dois anos, não são suficientes para caracterizar um sistema tão complexo como um estuário. As suas conclusões podiam ser mais assertivas caso tivesse havido uma monitorização continuada de parâmetros físicos, químicos e biológicos, anterior e posterior ao fecho da barragem. Uma forma de não ter consequências adversas no ecossistema é desconhecê-las.

Editado por Lurdes Ferreira