Fazemos like a partir do sofá, mas ainda saímos às ruas

Há 44 anos, a revolução saía às ruas com uma senha ouvida na rádio. Hoje, elas permanecem palco privilegiado de protestos, mas ganham corpo à boleia do digital. Com vantagens e riscos associados. Como se faz activismo na era da partilha sem se ficar agarrado ao sofá?

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Na era pré-Internet, fazer “activismo inconsequente” era modalidade quase exclusiva de quem não resistia a “mandar umas bocas no café”. Depois, o mundo 2.0 instalou-se e transformou a equação: eliminou o café — ou roubou-lhe protagonismo — e tornou possível o nascimento de um “activista de sofá” em qualquer lugar. Haja um telemóvel à mão e a militância pode acontecer: “No sofá, na casa de banho, na sala de espera do dentista. Não temos nada contra. Todo o activismo tem de começar em algum lado e o sofá é dos sítios mais confortáveis.”

Palavras do Jovem Conservador de Direita, personagem criada no mundo virtual em 2015 e transportada para uma vida de carne e osso de forma “acidental”, à boleia de um sucesso estrondoso no Facebook. Pondo os pontos nos is no posicionamento da figura, que é afinal uma dupla de humoristas (Sérgio Duarte e Bruno Henriques) a encarnar aquilo que mais repudia. Se houvesse um 25 de Abril no século XXI teria “obrigatoriamente de passar pelas redes”, admitem, já que estas têm um “potencial imenso para agregar pessoas, as mobilizar em prol de causas e colocar em contacto gente de todo o mundo com os mesmos interesses”. Tudo certo, portanto, desde que a acção online seja apenas o início de algo.

Quando o investigador José Alberto Simões mergulhou no tema do activismo digital, a informação disponível era escassa. Estávamos em 2014 e Portugal tinha conhecido há três anos o acontecimento que aponta, simbolicamente, como o início da mudança. “Pela primeira vez, alguém fora das influências políticas, de sindicatos e das estruturas mais convencionais decidiu fazer algo.” Era a Geração à Rasca a usar uma página do Facebook para convocar uma manifestação que desse palco à revolta contra a precariedade. E mais de 300 mil pessoas a saírem às ruas, num dos mais relevantes manifestos apartidários desde 1974.

O “estudo exploratório” Activismo Digital em Portugal procurou perceber de que forma os media digitais influenciaram a participação pública dos jovens em Portugal. Para lá do “lado mais superficial das tecnologias”, há um assunto para ser levado muito a sério, concluiu José Alberto Simões, que assina a investigação com Ricardo Campos e Inês Pereira: “Criou-se uma gramática diferente de agir politicamente fora das estruturas organizadas.”

12 de Março: as redes foram apenas o início

A utilização da Internet é, em si mesma, “uma forma de participação”, mas as “consequências práticas” precisam de ser “complementadas com actividade de rua”. Veja-se o caso do 12 de Março, sugere: “Se não tivesse tido repercussão na rua, era apenas mais uma frase nas redes sociais.”

Cláudia Mestre nunca pensou naquilo que faz como activismo. “Sinto que tenho o dever de estar informada e de agir. Não lhe chamo activismo, mas o que faço tem como objectivo sensibilizar”, pondera como início de conversa. Viciou-se em passeios por areais marítimos ainda menina e, já adulta, fez de praias selvagens terreno fértil para material de trabalho das suas criações artísticas. Ali foi vendo crescer o incómodo com a quantidade de lixo encontrado e começou a recolher objectos. Um dia — depois de se ter cruzado com o projecto Plásticos Marítimos, de Ana Pêgo — decidiu fazer algo com eles.

É aquilo a que se chama uma beachcomber (alguém que procura “tesouros” na praia), e usa o Instagram para mostrar de uma forma bela algo que não tem beleza nenhuma: “É preciso uma mudança urgente nos hábitos das pessoas. O uso de microplásticos e a influência disso na saúde são questões que me preocupam.”

Sempre que vai à praia, a professora de Educação Visual e Tecnológica e urban sketcher leva dois sacos. Um grande onde põe tudo o que deve ir para o ecoponto e um pequeno para o que pode interessar do ponto de vista artístico. Às vezes recolhe apenas coisas de uma cor, de uma forma. Ou apenas cotonetes. “Depois, muito intuitivamente, decido o que vou fotografar.”

O potencial de influência é grande. “Eu própria comecei a fazer mais depois de ver o trabalho de outra pessoa”, aponta: “É raro encontrar quem não use redes sociais, por isso o número de pessoas a quem podemos chegar é enorme.” No Instagram, Cláudia é a mesma pessoa que na “vida real”. Porque se é certo que a comunicação é importante, mais relevante ainda é mudar de hábitos. “Por exemplo: vou ao pão sempre com um saco de pano e já pus uma foto disso. Acho que posso influenciar as pessoas.”

Faz o mesmo na sala de aula. Por ano, uma centena de alunos cruzam o seu caminho. E dificilmente saem da escola no Seixal sem uma educação ambiental mais apurada: Cláudia Mestre recicla o papel, pede para os alunos levarem tábuas velhas, rolos de papel higiénico, cuvetes de carne e pacotes de leite. No próximo ano lectivo quer levá-los à praia. “Acredito muito nesta coisa de agir localmente para mudar globalmente”, comenta. “Espero que esta seja a geração da mudança, mas vejo-os muito focados nos ecrãs, nos telemóveis, a ver youtubers que não interessam a ninguém. Estão muito fechados no digital.”

O percurso de Yonakhir Gonzaga é um revés dessa teoria. É certo que começou por “fazer partilhas e likes”, mas foi daí que nasceu a vontade de participar em eventos e protestos nas ruas. “O digital é um passo essencial e deve ser o primeiro. Se conseguirmos que todos sejam um bocadinho activistas de sofá, vamos ter mais probabilidade de os trazer para a rua”, disse ao P3 o jovem de 20 anos.

O projecto Um Activismo por Dia começou exactamente nesse contexto. Um grupo de pessoas que costumavam encontrar-se em manifestações reuniu-se há coisa de ano e meio, empenhados em fazer algo em causas tão diversas como os direitos humanos, o veganismo, as touradas ou o ambiente. Numa plataforma com quase 30 mil seguidores, um colectivo de estudantes e trabalhadores entre os 18 e os 35 anos promovem ideias e divulgam cartazes, panfletos e autocolantes que podem ser impressos e espalhados.

O segredo para uma página de sucesso, diz, é “manter o interesse” em alta: “Promovemos acções nas ruas, fotografamos. E depois promovemos isso. E damos informação útil.”

"Um risco que vale a pena"

As estratégias são conhecidas por Carla Fernandes, da Associação Afrolis, para quem o digital sai sempre bem visto numa ponderação entre benefícios e riscos de utilização. É verdade que existe o perigo de nos tornamos mais comodistas — a fazer likes em vez de cartazes, a partilhar eventos em vez de comparecer neles —, mas “é um risco que vale a pena”, acredita. Porque entre um entusiasmo nascido online há sempre quem se deixe conquistar para o resto.

Na Internet, Carla Fernandes encontrou “um espaço que não existia antes”. Depois de seis anos a trabalhar temas relacionados com os PALOP numa rádio alemã, sentiu que era hora de mudar. Ao olhar para os meios de comunicação portugueses, notou a falta de conteúdos sobre as comunidades negras. Era ali que devia apostar. Em 2014, Carla criou um audioblogue para responder às perguntas que trazia na cabeça em relação à sua comunidade: onde estamos e o que estamos a fazer?

Procurou gente relevante das comunidades negras e fez entrevistas numa perspectiva de representatividade. “Queria que servisse de exemplo para quem pensa que não há negros a fazer coisas interessantes”, explicou. Porquê a Internet? Porque ali era “mais fácil criar nichos” e “divulgar as mensagens”.

A área do áudio é a mais recente aposta digital do Jovem Conservador de Direita, que criou um podcast para poder comunicar “sem limites de espaço e de tempo” e levar as piadas a qualquer lado. “É a nossa tentativa de entrar na cabeça das pessoas o máximo de tempo possível e de atingir a fase final do nosso plano de alcançar a utopia totalitária do Jovem Conservador de Direita”, dizem os criadores da personagem numa resposta por escrito a quatro mãos.

Não foi, portanto, apenas para fugir ao Facebook, ainda que a relação entre o Jovem Conservador e a rede de Zuckerberg já tenha tido melhores dias. No final de 2017, o Facebook eliminou a página portuguesa depois de terem surgido denúncias do conteúdo como sendo “discurso de ódio”. “Deu para algumas pessoas perceberem que o negócio das redes sociais não é a democracia nem a liberdade de expressão”, afirmam. A página foi entretanto recuperada com todo o conteúdo publicado, mas teve efeitos práticos: “Agora temos cuidado com o que publicamos. Censuramo-nos mais.”

O colectivo espanhol Left Hand Rotation está longe de ver na Internet o “paradigma da participação e do encontro”, ainda que não negue o seu “potencial de difusão”. Para pôr na agenda a gentrificação, um dos temas fortes do colectivo, a Net é “uma grande ferramenta de intercâmbio de informação entre comunidades que lutam para resistir aos despejos em todo o mundo”. Foi assim, por exemplo, com o Museo de los Desplazados, uma plataforma que criaram em 2011 e que recebeu testemunhos de gente de todo o mundo, Portugal incluído. Tem sido assim com a recém-criada página Stop Despejos, com a qual têm colaborado.

Mas nem tudo são boas notícias. Para o colectivo, instalado em Portugal há mais de seis anos, a “ameaça da TPP (parceria transpacífica)” criou um cenário que “obriga a repensar a Internet como espaço de liberdade”. E há mais: “Para nós, a presença física do outro continua a ser fundamental e insubstituível em qualquer colectivo e essa presença está em crise. Não estamos a promover encontros porque entregamos a nossa atenção aos dispositivos, somos absorvidos pela informação em tempo real.”

Em 2018, resume o investigador José Alberto Simões, é “impossível pensar em activismo sem pensar na utilização de meios digitais”. É preciso, pois, saber aproveitar as vantagens e superar o resto. Saber que existe o “risco de se criar a ilusão de que se está a participar sem estar”, fintar a dor de cabeça que pode ser a “monitorização da informação” e a “invasão da privacidade”. Aproveitar a “facilidade de divulgação de mensagens”. Feitas as contas, diz José Alberto Simões, “o balanço é positivo.”

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