Cabo Verde: quando ler custa quase um quinto do salário mínimo

Num país com problemas graves de iliteracia, onde as tiragens não ultrapassam os 500 exemplares e muitas bibliotecas escolares não têm sequer livros, a leitura tornou-se um desígnio nacional. O oitavo Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, que terminou este domingo em Cabo Verde, deixou claro que tem sido uma luta – e que a luta continua. Hoje é Dia Mundial do Livro.

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Na Cidade da Praia, a escassez de bibliotecas (apenas duas bibliotecas comunitárias, nenhuma biblioteca municipal) contrasta com a proliferação de festivais de música Rui Gaudencio

O Pulitzer para Kendrick Lamar foi só há uns dias – e entretanto, sem que nada disto tivesse sido combinado, Seu Jorge aterrou na Cidade da Praia para remexer na ferida que faz de brasileiros e cabo-verdianos irmãos de sangue, teletransportando o Negro Drama dos Racionais MC’s (“Cabelo crespo/ E a pele escura/ A ferida, a chaga/ À procura da cura”) das favelas de São Paulo circa 2002 para a Cidade da Praia do século XVIII, o centro de um certo mundo português fundado no comércio triangular de escravos de que todos os 244 milhões de falantes da língua são no fundo descendentes.

Haveria piores maneiras – maneiras menos justas, menos poéticas – de encerrar uma semana que começou com justiça poética para Poetic Justice. Tal como haveria piores destinos para o bairro onde nos seus tempos de monopólio do comércio triangular a todo-poderosa Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão estabeleceu um armazém – um bairro que José Evaristo d’Almeida inscreveu no romance fundador da ficção cabo-verdiana, O Escravo (1856) – do que vir a ser a paragem onde o taxista nos deixa quando lhe pedimos que siga até à Biblioteca Nacional de Cabo Verde (BNCV). Outra justiça poética: num dos lugares onde, bem antes da independência, este país nasceu para o romance moderno está hoje o edifício onde a curadora Fátima Fernandes acaba de receber os caixotes em que a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) expediu 22 colecções completas dos seus livros de ensaio, um para cada concelho deste arquipélago de 500 mil habitantes, 13,5% dos quais analfabetos segundo os últimos dados disponíveis, de 2016.

Há meses, diz Fátima Fernandes ao PÚBLICO, em que chegam a registar-se três a quatro mil entradas na BNCV, mas nem pensar em ver nesses números um indicador de que o défice de leitura já não é um problema em Cabo Verde – pelo contrário. Mesmo não havendo dados estatísticos exaustivos que documentem a dimensão da iliteracia no país – será uma das tarefas prioritárias do Plano Nacional de Leitura lançado no início da semana pelo ministro da Cultura e das Indústrias Criativas (e também escritor) Abraão Vicente –, a curadora garante que “não é preciso imaginá-los”: “tudo aponta para um défice de leitura bastante grande”. Um défice de leitura que torna menos exóticas as selfies das alunas do antropólogo e professor da Universidade de Cabo Verde (UNI-CV) Manuel Brito-Semedo junto às prateleiras da Livraria Pedro Cardoso, a principal editora do país, no dia em que decidiu, para quebrar o gelo, levar até lá uma das suas turmas – e que torna menos exóticas também as palmas com que o relato dessa expedição foi recebido, no final de uma das sessões do oitavo Encontro de Escritores de Língua Portuguesa (EELP) que terminou este domingo na Cidade de Praia.

Pela terceira vez consecutiva – e ao abrigo de um protocolo assinado com a Câmara Municipal da Praia ainda virão mais duas –, foi na capital deste país onde as livrarias se contam pelos dedos da mão e as tiragens não excedem em média os 500 exemplares, como explica ao PÚBLICO o administrador da Livraria Pedro Cardoso, Mário Silva, que a UCCLA – União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa realizou mais um dos seus encontros. Numa edição que tinha como tema geral A Cidade e a Literatura: conexões entre cidadania, criatividade e juventude, não foi difícil a Praia impor-se como protagonista, apesar das viagens a Timor-Leste e à Guiné-Bissau, ao mandarim e ao galego: logo à entrada do pólo da UNI-CV onde o encontro teve início na quarta-feira, uma exposição inventariava as aparições, na ficção cabo-verdiana mas também em romances de Júlio Verne (Os Filhos do Capitão Grant) ou Mario Vargas Llosa (O Paraíso na Outra Esquina), deste lugar que o próprio Presidente da República (e também escritor) Jorge Carlos Fonseca admite ter sido “sempre mal-amado pela literatura indígena”.

PÚBLICO -
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Bairro da Calabaceira, Cidade da Praia, Cabo Verde

É uma luta antiga, inscrita num dos seus poemas “do pós-juventude”, À Cidade da Praia – “Quem alguma vez te romanceou? (…)/ Quem , até hoje, te escreveu um poema que não fosse/ Chato, desolado ou ranhoso?”) –, que “o cidadão e escritor” Jorge Carlos Fonseca  leu na íntegra na sessão de encerramento, depois de Abrãao Vicente o ter citado parcialmente na sessão de abertura. E a julgar pela quantidade de situações em que À Cidade da Praia foi usado como exemplo de que algo não correu bem entre a capital de Cabo Verde, a leitura e a literatura, a luta continua.

Perdidos

Anarquicamente estendida por um conjunto de planaltos e vales encostados à costa sul da ilha de Santiago, a maior do arquipélago, a Cidade da Praia (quase 132 mil habitantes, segundo o censo de 2010) é o “enorme e divertido desarranjo” que o então ainda não ministro da Cultura e das Indústrias Criativas descreveu numa crónica publicada em 2010 no jornal A Nação – um “enorme e divertido desarranjo” cujo imaginário diz hoje ser preciso “refazer”, também a partir da literatura.

Tem sido uma relação difícil, insistiu Joaquim Arena, jornalista, escritor (em Portugal está editado na Caminho) e conselheiro do Presidente da República: “A Praia é uma cidade pouco abordada pelos escritores, e é uma resistência que vai da ficção ao ensaio; nesse aspecto, a academia tem feito mais do que a literatura.” Mas talvez este não seja apenas um problema da literatura, sugeriu pouco depois Jorge Carlos Fonseca, confessando a sua preocupação com a diminuição dos índices de leitura, que gera “mais exclusão social e uma cidadania mais débil” – um problema que já na sexta-feira a jornalista e escritora Natacha Magalhães tinha trazido para cima da mesa, contrapondo, no caso específico da Cidade da Praia, a escassez de bibliotecas (apenas duas bibliotecas comunitárias, nenhuma biblioteca municipal) à proliferação de festivais de música. “O lazer e o entretenimento são direitos, mas também é preciso estimular o pensamento”, argumentou, antes de apontar na direcção da Biblioteca Nacional de Cabo Verde (é para lá que vamos de táxi já a seguir) e da Livraria Pedro Cardoso, onde há lançamentos e debates, sim, “mas sempre com muito pouca juventude”.

Talvez seja assim em todo o lado – em Cabo Verde como em Portugal. “Há sempre jovens perdidos para a literatura”, argumentou a escritora portuguesa Inês Barata Raposo, vencedora do Prémio Branquinho da Fonseca de Literatura Infanto-Juvenil (Fundação Calouste Gulbenkian/Expresso) com o livro Coisas que Acontecem, a publicar no Outono. Numa casa sem livros e sem adultos capazes de a orientar, a leitura, explicou a uma plateia cheia de estudantes do ensino secundário, aconteceu-lhe por acaso, ao sabor das promoções dois-em-um dos supermercados, de um almanaque do Tio Patinhas para um romance de John Steinbeck (não necessariamente por esta ordem).

Mas apesar da filiação comum, em parte herdada de um regime que tanto na metrópole como nas colónias cultivou um analfabetismo endémico, talvez haja mais jovens perdidos para a leitura em países como Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, onde as dores de crescimento são incomparavelmente mais agudas. Ou onde, contou a escritora são-tomense Olinda Beja, as falhas no abastecimento de luz eléctrica são tão frequentes que uma ONG local, a Cafuca, pôde transformar as arcas congeladoras e os frigoríficos avariados que se vão acumulando nos quintais em pequenas bibliotecas comunitárias, as frigotecas, e dispersá-las pelas roças.

Um bem de luxo

Entramos na Biblioteca Nacional pela porta da livraria, onde, como que a lembrar que a leitura é o tipo de luta em que os fins justificam os meios, Neil Gaiman e Tony Judt dividem a prateleira junto à parede da esquerda com manuais de marketing e clássicos gregos, e o Almada Negreiros, Africano de António Ambrósio está encostado a um exemplar de Cristiano Ronaldo – A Verdadeira História do Melhor Futebolista do Planeta. Adiante, na sala de actos, onde os volumes doados pela FFMS ainda estão por desempacotar, a curadora Fátima Fernandes explica ao PÚBLICO que, enquanto se aguarda a iminente entrada em cena do Plano Nacional de Leitura (o despacho conjunto dos ministérios da Educação e da Cultura já foi assinado), a instituição que dirige continua a trabalhar em várias frentes. Nas mãos da sua equipa estão a criação de uma rede funcional de bibliotecas escolares (“poucas escolas do ensino básico têm bibliotecas, muitas escolas secundárias têm apenas o espaço para uma futura biblioteca ou acervos muito pobres”, aponta), a formação de técnicos e animadores para bibliotecas escolares e municipais, o relançamento das “grandes feiras do livro português” que a crise interrompeu e a reedição de um conjunto de clássicos da literatura cabo-verdiana – um programa iniciado em Outubro com a publicação de três volumes de Eugénio Tavares (Poesia, Contos, Teatro; Pelos Jornais; Viagens Tormentos Cartas Postais) e que prossegue esta segunda-feira, Dia Mundial do Livro, com o lançamento de Chiquinho, de Baltasar Lopes (romance que, em Portugal, o PÚBLICO lançou em versão fac-similada em 2014).

Disponibilizar textos fundadores da literatura cabo-verdiana há muito inacessíveis é um primeiro passo, diz, mas não resolve problemas estruturais como o de um poder de compra que se mantém cronicamente baixo, fazendo do livro um bem de luxo: “Isso significa que instituições como a BNCV, as universidades, as editoras e as livrarias têm de aceitar o desafio de colocar o livro em qualidade, em quantidade e sobretudo em preço acessível à população. Ainda hoje, em Cabo Verde, a maioria das pessoas não pode comprar um livro: é uma despesa de 15 euros num país em que o salário mínimo anda à volta dos 100-110 euros.”

De novo, quase todos os caminhos vão dar às bibliotecas públicas. Como esta que anda agora à procura de parcerias em Portugal para a oferta de livros em segunda mão (a Marinha Portuguesa já se prontificou a transportá-los até à Cidade da Praia), ou como a que o vereador da Cultura da Câmara Municipal da Praia, António Lopes da Silva, anunciou este sábado estar para breve: a cidade vai voltar a ter uma biblioteca municipal, baptizada Jaime de Figueiredo (1905-1974) em homenagem ao último conservador daquela que a precedeu.  

Também nisso parece haver uma certa justiça poética (e a propósito de Kendrick Lamar: todas as últimas quintas-feiras do mês há spoken-word não muito longe deste pólo da UNI-CV onde se disse que a juventude cabo-verdiana está perdida para a literatura). Como há justiça poética no facto de, sem que nada disto tivesse sido combinado, a Livraria Pedro Cardoso, que acaba de lançar uma inesperada revista trimestral e de esgotar os 750 exemplares com que arriscou a recente reedição de O Escravo, ter encontrado numa convidada do oitavo EELP, a escritora portuguesa Filipa Melo, sobrinha do autor, uma intermediária possível para a reedição de Famintos, de Luís Romano, outro clássico da literatura cabo-verdiana. “Há dois anos que estamos a tentar reeditá-lo, mas um dos descendentes não autoriza, o que é tristíssimo porque a experiência da fome de 1940 faz parte da nossa identidade colectiva e este é o romance dessa experiência”, diz ao PÚBLICO Mário Silva, cuja editora assumiu a missão de “trazer para o grande público” esses textos fundadores praticamente desaparecidos “que fazem as pessoas abrir a boca e perguntar ‘mas isto existia?’”.

Existia sim, e tanto a Livraria Pedro Cardoso como a biblioteca nacional cabo-verdiana estão a trabalhar para que esse património volte a ser delas.

O PÚBLICO viajou a convite da UCCLA – União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa