Opinião

Lula: o passado do futuro

O Brasil não escapa à tendência global para a regressão democrática. Paradoxal é que tal suceda num momento em que a impunidade dos altos dirigentes políticos parece estar a ser posta em causa, da Coreia do Sul ao Brasil, passando pela França e a África do Sul.

As reações, poucas, de júbilo à prisão de Lula não demonstram alegria pelo fim da impunidade dos poderosos, são a consagração do ódio a tudo o que representa, como homem e político. Do outro lado, o desalento de alguns não é fruto de uma ideia de justiça seletiva mas sim da constatação de que a Justiça ainda não é igual para todos.

Não tenho a certeza de que a atual condenação de  Lula seja justa, mas tenho a convicção de que Dilma foi vítima de um impeachment  político, orquestrado por políticos corruptos que procuram salvar a própria pele.

Sei que muitos dos que bateram panelas pelo impeachment  da Dilma e celebram a prisão de Lula com champanhe e caviar fazem parte da elite mais egoísta do mundo, e só esperam que este desfecho marque o fim da influência política das correntes progressistas com consciência social no Brasil.

A eleição de Lula, em 2002, marcou a consolidação da democracia e a esperança de justiça social. O Brasil era um dos países mais injustos do mundo, onde os descendentes dos antigos esclavagistas continuavam a arrecadar fortunas colossais e a impor uma discriminação social revoltante. O Brasil era a Belíndia, onde 20% da população vivia como na Bélgica e 60% como nas regiões mais pobres da Índia.

Quando Lula saiu da presidência em 2010, com 87% de aprovação, não tinha defraudado os que nele tinham votado. Com enorme bom senso político, transformou o PT de partido de protesto em partido de governo, combinando rigor macroeconómico com programas sociais inovadores, como o Bolsa Família, parte do plano Brasil Sem Miséria, rendimento básico para os pobres colocarem os filhos na escola e os vacinarem, de que hoje beneficia cerca de um quarto da população. Durante as presidências Lula, cerca de 40 milhões de brasileiros saíram da pobreza extrema e formaram uma nova classe média, ampliando os progressos já conseguidos pelas presidências de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, que com o plano real controlaram  a inflação. O Brasil foi o único dos BRICS onde a desigualdade diminuiu.

Lula tomou posse porque a presidência de Fernando Henrique Cardoso criou as condições de estabilidade democrática. Aliás, a passagem da presidência foi exemplar, com Fernando Henrique a colaborar com Lula para vencer as resistências de Bush à eleição de um homem “com a estrela vermelha do PT na lapela”. Com Lula e Dilma, o Brasil consolidou a sua influência num mundo policêntrico, afirmando-se como uma potência emergente.

A convicção de muitos brasileiros que votaram em Dilma Roussef em 2014 e que se preparavam para votar em Lula é de que o seu direito de voto está a ser defraudado. Por isso os simpatizantes do PT falam de um golpe em duas etapas: primeiro o impeachment, depois a prisão do líder das sondagens. Mas não é preciso compartilhar a teoria do golpe, pouco popular fora do PT, para constatar que a democracia brasileira está em crise, com um governo que chegou ao poder ilegitimamente, com o presidente Temer e numerosos eleitos acusados de múltiplos crimes de corrupção, protegidos pelos seus foros privilegiados.

O Brasil não escapa à tendência global para a regressão democrática. Paradoxal é que tal suceda num momento em que a impunidade dos altos dirigentes políticos parece estar a ser posta em causa, da Coreia do Sul ao Brasil, passando pela França e a África do Sul.

As fragilidades da democracia brasileira são conhecidas: um  sistema partidário fragmentado, sem partidos fortes, regra geral sem identidade política, com governos frágeis, sustentados por coligações numerosas (nove partidos no  Governo Dilma), o que facilita a corrupção — a corrupção da política, com o financiamento ilegal das campanhas  pelas empresas, e a corrupção dos políticos, que enriquecem de forma despudorada.

A crítica que se deve fazer a Lula, e ao PT, é nada ter feito para alterar esta situação: não fez a reforma política — eleito com uma agenda ética, não a cumpriu e permitiu a corrupção política (desde logo com o “mensalão”).

O discurso da ética, como lembra Renato Janine Ribeiro, foi substituída pelo do consumo.

A corrupção geral dos partidos enfraqueceu todo o sistema, incluindo o PT. Lula, no entanto, pelo seu passado, continuava a ser a melhor alternativa à eleição de um candidato da extrema-direita, hoje representada por Bolsonaro. Será que sem Lula para lhe barrar o caminho Bolsonaro poderá ganhar as eleições? Há muitos que não o creem, que acham que não é possível que o homem que dedicou o seu voto pelo impeachment de Dilma ao agente da ditadura militar que a tinha torturado possa ser eleito. Como a eleição de Trump mostrou, porém, os descontentes com o sistema são capazes de nos surpreender.

O paradoxo brasileiro é que, como em outros países, a nova classe média, empoderada pela educação e com voz nas redes sociais, não aceita a corrupção, mas pode eleger  candidatos populistas iliberais na sua revolta.

A revolta contra a corrupção empodera juízes, que se veem, em seu nome, no papel de últimos garantes das instituições e podem, se assumirem as responsabilidades dos políticos, enfraquecer a democracia.

É na juventude da classe média que reside a melhor esperança do futuro do Brasil, como se viu nas manifestações de junho de 2013, por melhores serviços públicos, ou em 2015, contra a impunidade dos poderosos. A sociedade civil brasileira é hoje influente e conectada, mas não se revê no PT nem nos outros  partidos tradicionais. A reação quase unânime ao assassinato político de Marielle Franco mostrou que existe capacidade para superar a guerra civil fria que impede os consensos necessários. 

Um candidato que surja no campo democrático, apoiado na sociedade civil, assumindo a bandeira da reforma do sistema político e que não deixe a bandeira ética a candidatos populistas, poderá ganhar as eleições e preservar a herança de Lula e Fernando Henrique Cardoso.

Coordenador do livro Brasil nas Ondas do Mundo

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico