Entrevista

“As eleições serão muito violentas e o Presidente terá pouca legitimidade”

Lincoln Secco é professor de História Contemporânea na Universidade de São Paulo, no Brasil. Diz que sem Lula da SIlva a esquerda tem poucas hipóteses de vencer as presidenciais e que nem este conseguiria reconciliar o país.

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A resistência inicial de Lula da Silva à prisão criou mais um ícone de resistência da esquerda no Brasil – “saiu dos braços do povo para prisão”, comenta Lincoln Secco, professor de História Contemporânea na Universidade de São Paulo (USP) e autor do livro História do PT (Ateliê Editorial). Ninguém pode assumir o seu lugar nas eleições presidenciais brasileiras de Outubro de 2018. Mas dificilmente haverá ideias, projectos de sociedade em confronto nestas eleições. A única certeza é que serão violentas, diz o historiador.

Quem poderá substituir Lula da Silva na candidatura às presidenciais do Partido dos Trabalhadores (PT)? Há algum bom substituto? Ou será que com ele fora da lista, será mais fácil fazer uma coligação de esquerda?
Sem Lula, a esquerda tem poucas hipóteses de vitória. E uma frente de esquerda possivelmente só vai existir numa segunda volta. Ainda assim, o Partido dos Trabalhadores (PT) vai continuar sendo o partido mais importante da esquerda. Durante o golpe parlamentar contra a Presidente Dilma Roussef, a preferência partidária pelo PT era de apenas 8%. Hoje é de mais de 20% e no Nordeste mais de 30%. Lula atinge 35% dos eleitores. Ele certamente venceria na primeira volta com 50% dos votos válidos. Não foi por outra razão que o tribunal que antecipou seu julgamento, algo inédito no país. E não foi por outro motivo que o comandante do Exército, o general Eduardo Villas Bôas, ameaçou o Supremo Tribunal Federal para que não lhe concedessem habeas corpus.

Algum candidato de outra sigla pode beneficiar com a saída de Lula da corrida? Ou o que acontecerá com os votos das pessoas que iriam votar no ex-Presidente?
O candidato que beneficia imediatamente é Jair Bolsonaro, de extrema-direita. Acredito que se o PT não conseguir transferir os votos de Lula para outro candidato, a maioria dos apoiantes de Lula, desencantados com sua prisão, não vai votar em ninguém. Bolsonaro tem um discurso fascista e neo-liberal ao mesmo tempo. Muitos acreditam que ele vai perder apoio durante a campanha eleitoral. Mas até agora Lula é o único adversário que pode detê-lo.

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Muitos brasileiros beneficiaram da governação do PT, que não teve governos radicais. Pode explicar porque é que há tanto anti-petismo, e tanto anti-lulismo no Brasil? São motivos lógicos, ou é apenas uma coisa de classes?
O PT governou para os pobres sem incomodar os ricos. Mas a classe média sentiu que não ganhou nada nos governos petistas. Ao contrário: houve perda relativa de status, porque pobres passaram a compartilhar com ela os mesmos espaços de sociabilidade como os aeroportos, as vias expressas só para automóveis. Além disso, a inflação de serviços no Brasil cresceu muito mais do que a média da inflação propriamente dita. Empregadas domésticas se tornaram mais “caras”, por exemplo. Isso produziu uma radicalização política anti-petista. O motivo aparente foi a corrupção, mas se isso fosse verdade haveria uma radicalização grande contra os outros partidos também.

O que acontecerá ao PT, forçado a entrar na oposição, com o seu líder icónico humilhado, na prisão? Vai se radicalizar? Vai-se fragmentar?
Ao resistir à prisão inicialmente, Lula conseguiu produzir uma imagem muito forte. Ele saiu dos braços do povo para a prisão. O objectivo era humilhá-lo, mas o efeito foi o oposto. Mesmo analistas da direita reconheceram que ele transformou a prisão em espectáculo. O PT vai manter a campanha em torno de Lula, porque isso é indispensável tanto para ele conseguir ser libertado, quanto para o partido continuar a ter uma bandeira altamente mobilizadora.

Fora do Brasil tem-se a sensação de que há falta de ideias, de novos projectos no PT – tudo parece ter-se resumido à defesa de Lula, a tentar impedir que o ex-Presidente seja preso, o discurso do golpe. Diria que não chega para conquistar o poder, para conquistar novos eleitores. Como construir um novo projecto?
A esquerda está sem novas ideias em toda a América Latina. Os governos de centro-esquerda realizaram políticas sociais inclusivas quando a economia crescia. Houve distribuição de renda, mas não uma política de melhoria dos serviços de saúde e educação. As pessoas entraram na sociedade civil via consumo, o que foi importante, mas não através de melhores empregos e de uma cidadania plena. Com a queda do ciclo de alta dos preços das commodities [mercadorias como o gás natural e o petróleo], o modelo de conciliação de classes tornou-se impossível. Os empresários afastaram-se do PT e exigiram a austeridade, o fim da previdência social (o que ainda não conseguiram) e da legislação trabalhista (o que foi aprovado no ano passado).

E o projecto da direita, tem aceitação eleitoral para vingar nas urnas?
Esse é o dilema actual do Brasil. Ao proibir a candidatura de Lula, a extrema-direita cresce porque os candidatos de centro-direita não têm um discurso eleitoralmente viável. Defendem a agenda neo-liberal do Presidente Michel Temer, que tem apenas 5% de apoio popular. Independentemente dos resultados das urnas, teremos uma eleição muito violenta e um Presidente eleito com pouca legitimidade. Nem Lula conseguiria hoje reconciliar o país.