Incidência da depressão e das demências não era tão elevada havia sete anos

Casos de depressão, perturbações de ansiedade e demência aumentaram em 2017 entre os inscritos nos centros de saúde. Valor não era tão elevado havia pelo menos sete anos. Dados são este sábado apresentados com o Retrato da Saúde.

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Nelson Garrido

Uma população envelhecida, com estilos de vida que se têm alterado e mais depressões e ansiedade, mas menos tuberculose, menos VIH e menos crianças com excesso de peso. São alguns dos aspectos que ilustram o que mudou na saúde dos portugueses nos últimos anos. O Retrato da Saúde é apresentado este sábado, na Fundação Calouste Gulbenkian, para assinalar o Dia Mundial da Saúde.

Neste documento, a que o PÚBLICO teve acesso, o Ministério da Saúde faz notar que o número de portugueses (entre os inscritos nos centros de saúde) com depressões passou dos 6,85% para os 9,8%, entre 2011 e 2017. Quanto às perturbações de ansiedade, a percentagem praticamente duplicou (dos 3,51% para os 6,51%) — esta já é a quinta principal causa de morbilidade (quem vive com uma doença) nas mulheres entre os 15 e os 49 anos. A demência também aumentou e atinge quase 1% da população inscrita nos centros de saúde.

O consumo de medicamentos como benzodiazepinas e antidepressivos (medicamentos para tratamento da insónia, ansiedade e depressão) também cresceu. O Retrato da Saúde lembra que “os resultados do estudo sobre a prevalência de doenças mentais na população adulta portuguesa sugerem que somos o país da Europa com a maior prevalência de doenças mentais”.

Mas também temos mais lugares na Rede Nacional de Cuidados Continuados e Internamento (RNCCI). Passaram dos 12.688, em 2010, para os 14.700, em 2018 (à data de 23/03/2018). “Em 2017, a rede alargou a sua capacidade de resposta à saúde mental, com experiências-piloto de um ano, que visam responder a necessidades específicas de adultos e crianças com doença mental grave”. As experiências “concretizam-se em residências, unidades socio-ocupacionais e equipas de apoio domiciliário, tendo como finalidade permitir, no mais curto espaço de tempo, que a pessoa com doença mental grave recupere as suas competências psicossociais e seja reintegrada na sua família e comunidade”, explica o documento do Ministério da Saúde.

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Aumentar

As doenças cérebro-cardiovasculares e o cancro continuam a ser as que mais matam. E são as doenças musculoesqueléticas, a depressão, as doenças da pele e as enxaquecas que mais afectam a qualidade de vida. Ainda assim, o número de mortes relacionadas como doenças cardiovasculares diminuiu. O que se deve, “em muito, à utilização de medicamentos para o seu controlo, que tem vindo a aumentar, à semelhança do que acontece com os medicamentos para o controlo da diabetes”.

“Se olharmos para os números, em 2017, cada português utilizou uma média de 16 embalagens de medicamentos”, faz notar este documento.

No livro, o Ministério da Saúde lembra que a diabetes ainda atinge uma em dez pessoas. Com maior prevalência no Alentejo e menor no Algarve. Os níveis de colesterol elevados são um problema para 63,3% dos portugueses entre os 25 e os 74 anos. E a hipertensão ainda afecta 36% da população.

No período entre 2011 e 2017, aumentaram os diagnósticos de asma (de 112.066 para 281.690) e de doença pulmonar obstrutiva crónica (de 54.660 para 136.958).

Menos tuberculose

Nestes anos, “procedeu-se à identificação das doenças, com os respectivos tratamentos mais onerosos e que obrigam a um acompanhamento próximo (insuficiência renal crónica, esclerose múltipla, tratamento cirúrgico da obesidade, tratamento intensivo da diabetes tipo 1 e hipertensão arterial pulmonar)” e foram criados programas de gestão integrada da doença, recorda o Ministério.

Durante este período registaram-se reduções na incidência de algumas doenças. É o caso da tuberculose (de 27,1 em 100 mil habitantes em 2007 para os 15,6 em 2017). Apesar do recente surto de sarampo, o ministério sublinha que “Portugal obteve, em 2015 e 2016, a certificação da eliminação do sarampo pela Organização Mundial de Saúde (OMS) Europa”. E mesmo após os surtos posteriores, “o investimento no Plano Nacional de Vacinação e a elevada adesão à vacinação permitiram controlá-los em cerca de 3 meses, pelo que se prevê que Portugal mantenha o estatuto conferido pela OMS”.

Lembra-se também no relatório que em relação à hepatite C “até Março de 2018 foram autorizados mais de 19 mil tratamentos, dos quais mais de 17.400 foram iniciados". "A utilização destes Antivirais de Acção Directa permitiu curar cerca de 9.900 doentes, evitar mortes prematuras, transplantes hepáticos e novos casos de cancro."

Mais médicos e enfermeiros no SNS

Entre 2010 e 2018 (dados de 28/02/2018), o número de médicos e enfermeiros no SNS também aumentou. No primeiro caso, o acréscimo foi de 27% (dos 23.682 para os 30.327 médicos (contando com internos e aposentados). Já o número de enfermeiros cresceu 8% (dos 40.436 para os 43.687).

A publicação lembra ainda a aposta na saúde oral, que levou os cuidados dentários a uma maior fatia da população, e as interrupções voluntárias da gravidez que, segundo dados de 2016, está em decréscimo desde 2011.

“Havendo ainda um caminho a percorrer, a qualidade dos cuidados de saúde em Portugal tem permitido alcançar progressos significativos em diversas áreas”, conclui o relatório.