Crítica

Piano, electrónicas e orquestra à solta

Aqui nem sempre é perceptível quem é o actor central, piano, electrónicas ou arranjos. Disco desafiante de Joana Gama e Luís Fernandes, com tanto de desorientador como de inspirador.

Joana Gama, mais afecta à música erudita; Luís Fernandes, próximo do rock ou das electrónicas
Foto
Joana Gama, mais afecta à música erudita; Luís Fernandes, próximo do rock ou das electrónicas

Há cerca de um ano, em Guimarães, no contexto do festival Westway Lab, a dupla Joana Gama e Luís Fernandes, estimulada a criar algo original para piano, electrónica e orquestra, apresentava-se em palco na companhia de um ensemble de 14 elementos, numa excelente sessão. Agora eis o álbum que resultou desse desafio.

É a terceira vez que a pianista Joana Gama, mais afecta à música erudita, e Luís Fernandes, próximo das linguagens rock ou das electrónicas mais aventureiras através de Peixe: Avião, Landforms ou The Astroboy, se detêm num projecto comum. Em 2014 já tinha havido Quest e em 2016 Harmonies, em trio com o músico e artista Ricardo Jacinto, criado à volta do imaginário de Satie, para além de música para filmes de Manuel Mozos e Eduardo Brito.

O álbum é lançado na editora australiana Room40 de Lawrence English (que masterizou e produziu), sendo o título retirado do poema Burnt Norton de T.S. Eliot, resultando daí uma música onde o piano, o borbulhar electrónico e as orquestrações confluem para algo denso e sombrio, mas ao mesmo tempo verdadeiramente estimulante. O ponto de partida foi a improvisação a dois. Depois o esculpir até haver formas definidas e a tradução das ideias para a partitura do ensemble, através das orquestrações, num processo metódico mas contaminado por um contexto emocional de perda.

É um disco que seis faixas mas que se ouve como se fosse uma só, com as notas do piano, os ambientes electrónicos e os elementos orquestrais por vezes atraindo-se, para logo de seguida parecerem deslocar-se cada um para seu canto, para no seguimento encontrarem outra vez um caminho conjunto, crescendo nesse antagonismo e embate. Não é exactamente música ambiental, parecendo estar constantemente a ser refeita, feita de circulações e gestos serenos repetitivos que quebram essa aparente harmonia. Nesse sentido descola de Quest, onde havia apesar de tudo uma filiação no universo elegante de Alva Noto e Ryuichi Sakamoto.

Aqui nem sempre é perceptível quem é o actor central, se piano, electrónicas ou arranjos, nem o mecanismo inspirador para texturas e sinuosidades subliminares. É uma sonoridade que se amplificou e complexificou, com piano e electrónica multiplicando-se por cordas ou sopros, tanto reforçando o ensemble ou, na maior parte das vezes, situando-se como contraponto àquele, numa obra desafiante que tem tanto de desorientador como de inspirador.