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Rui Pina mostra-nos o Porto visto do fundo

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Gosta de usar o instinto, de fotografar por impulso. Procura pessoas, sempre pessoas — sobretudo as “invisíveis”. Rui Pina, portuense de gema, nasceu e cresceu num “bairro problemático”, em Ramalde, “entre traficantes de droga, prostitutas e toxicodependentes”, contou ao P3, por telefone. A sua identidade enquanto fotógrafo — que adjectiva de “crua e dura” — está intimamente ligada a esse passado, a essa herança. “Todos os mestres da fotografia dizem que é importante encontrar a própria voz e é o que eu tento fazer. Fotografo o que reconheço, o que pertence ao meu mundo.” O fotógrafo da Agência Magnum Bruce Gilden — cujo trabalho conheceu publicação no P3 — é uma das suas referências; ambos apontam a objectiva aos marginais, àqueles “por quem todos passam na rua sem olhar”.

 

É a interacção com as pessoas, o factor humano, que lhe dá mais prazer no acto de fotografar. “Seria penoso fazer street photography sem sentir esse gosto. Eu converso com as pessoas, conheço as suas histórias e partilho-as juntamente com as fotografias.” Rui pode disparar sem se fazer anunciar, para “captar o momento”, mas o contacto com quem fotografa é “quase inevitável”. “As pessoas sabem que foram fotografadas, assumo sempre o que estou a fazer”, esclarece. E raramente tem problemas ou recusas. “As pessoas sentem a minha energia, sentem que faço por gosto e são muito receptivas.”

 

A relação com o Porto é muito próxima. “Gosto de incluir a arquitectura do Porto nas imagens. É como se fosse uma personagem que aparece junto das pessoas.” Isto porque a cidade, assim como os seus habitantes, está em constante mutação. “Sem me aperceber, vou criando um arquivo de uma cidade que está a desaparecer. O turismo está a mudar a cara do Porto: as pessoas, as ruas, a arquitectura, está tudo a mudar. E eu estou a observar e a registar essa mudança, sem nunca perder de vista a origem, o coração. Fotografar é também uma forma de fixar a identidade de um local.”

 

Rui Pina começou a fotografar há pouco mais de dois anos e no Instagram @gothic_porto já tem mais de quatro mil seguidores. “Na vida”, diz, é músico e produtor musical, membro da banda Dealema e do projecto Expeão (a solo). É fundador do Portuguese Street Collective (@streetphotography_pt) e co-fundador do colectivo internacional, na mesma vertente, que dá pelo nome de @world.street.generation. Juntas, as contas de Instagram formam uma comunidade de perto de dez mil utilizadores.

 

A primeira exposição de Rui Pina está patente no Espaço Mira, em Campanhã, no Porto, e pode ser visitada até 21 de Abril. Efémeros Instantes reúne uma retrospectiva conjunta dos trabalhos de Rui Pina e José Miguel Lopes (ou @voodoolx), cujo trabalho foi partilhado recentemente no P3.