Opinião

Candidatura ao ensino superior: combinando sonhos e realidades

Algumas dificuldades na transição e adaptação académica ocorrem junto dos estudantes do primeiro ano e que, ao não serem adequadamente resolvidas, originam insucesso e, inclusive, abandono.

Nestas próximas semanas, a generalidade dos estudantes que conclui o ensino secundário intensifica os cálculos e a construção de cenários sobre o seu acesso ao ensino superior. O sistema diversificou-se bastante em termos de instituições e de cursos, e mesmo não tendo ainda realizado os últimos exames que contabilizam para a nota de acesso, a exploração de alternativas faz parte da sua sobrevivência. Equacionando possibilidades, consideram os resultados do acesso nos anos anteriores, antecipam classificações a obter nos últimos exames, estimam uma média de candidatura e ponderam os seus interesses vocacionais, tudo isto com alguma ansiedade à mistura. O sistema de numerus clausus vigente, isto é, um número limitado de vagas disponíveis por instituição/curso, diz-nos que o preenchimento das vagas é feito centralmente de forma seriada em função da nota de candidatura do estudante, calculada através da média ponderada das notas do ensino secundário e das notas dos exames nacionais definidos pelas instituições.

Nas últimas duas décadas aumentou exponencialmente o número de jovens que acedem ao ensino superior em Portugal. O ensino superior é almejado como “passaporte de acesso” aos melhores empregos, num mercado de trabalho cada vez mais exigente em termos de formação. O “ensino de elites” converteu-se num “ensino de massas” e com isso aumentou significativamente a diversidade de estudantes ingressantes em termos de capacidades, motivações, projetos vocacionais e atitudes. Em consequência, algumas dificuldades na transição e adaptação académica ocorrem junto dos estudantes do primeiro ano e que, ao não serem adequadamente resolvidas, originam insucesso e, inclusive, abandono. Esta situação complica-se, no nosso país, quando cerca de metade dos estudantes não ingressa no par instituição/curso de sua primeira escolha. Uma “onda de insatisfação” tem sido apontada pelo efeito de cascata em que estudantes, com médias mais elevadas não colocados nas suas primeiras opções, ocupam as vagas noutros cursos frustrando colegas que os desejavam frequentar.

O ensino superior coloca vários desafios aos estudantes, em particular aos que pertencem a grupos socioculturais com menor tradição familiar de frequência deste nível de ensino. Uma das variáveis estudadas prende-se com as expectativas académicas, entendidas como um misto de motivações e de perceções de eficácia, com que os estudantes ingressam no ensino superior. Sendo crucial possuir expectativas positivas para enfrentar com sucesso as exigências do novo contexto académico, certo é que alguns estudantes entram com expectativas demasiado baixas por falta de aspirações, reduzida autoeficácia percebida ou porque entram em cursos que não correspondem às suas opções vocacionais. Nestas circunstâncias, as baixas expectativas traduzem-se num menor envolvimento e disponibilidade para enfrentar as exigências do novo contexto, comprometendo a sua superação. Ao mesmo tempo, alguns estudantes, conhecendo pouco a realidade académica, entram com expectativas demasiado otimistas e muitas vezes irrealistas, que cedo se apercebem que não podem concretizar entrando em situações de ansiedade e frustração. Nesta altura, facilmente se desmotivam e desinvestem, faltando às aulas, não realizando os trabalhos, não criando um grupo de amigos e desconhecendo os serviços e os professores.

Os estudantes não ingressam no ensino superior com um perfil único de expectativas: pelo contrário, diferem entre si quanto às áreas em que mais pretendem investir ou quanto àquelas em que antecipam maior êxito. Esta variabilidade é relevante para as instituições e para os responsáveis dos cursos. Estando hoje as instituições mais abertas à admissão de candidatos, e inclusive reconhecendo-se maior justiça social no acesso, importaria assegurar as condições de sucesso a todos. Logicamente não vamos desvirtuar a missão do ensino superior e as suas exigências. A alternativa passa por desenvolver os recursos pessoais dos estudantes para enfrentarem com êxito tais desafios.