“SeaPlasticSalt” mostra no meio das partículas brancas do sal uma fibra azul
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“SeaPlasticSalt” mostra no meio das partículas brancas do sal uma fibra azul

Uma portuguesa, uma fotografia premiada e a praga do plástico

Investigadora Filipa Bessa venceu o concurso mundial de fotografia da campanha CleanSeas com uma imagem que mostra a presença de microplásticos em sal marinho

Por causa do seu doutoramento, a bióloga Filipa Bessa deambulava muitas vezes por zonas costeiras. E, sem precisar de procurar, esbarrava em plástico nos areais, a boiar na água, um pouco por todo o lado. Desta “constatação da realidade” veio a ideia de agarrar no assunto quando, em 2014, andava em busca de um tema emergente para um pós-doutoramento: qual a dimensão da presença de microplásticos nos habitats costeiros do Mondego e os seus efeitos em espécies aquáticas?

A trama do plástico tornou-se presença comum no seu dia-a-dia e, há coisa de um ano, um estudo sobre a presença de microplásticos no sal despertou-lhe a atenção. “Decidi, então, ir a uma salina e recolher amostras para analisar”, contou ao P3 numa conversa telefónica. No microscópio, em imagens tão fascinantes como assustadoras, a investigadora do MARE (Centro de Ciências do Mar e do Ambiente) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra percebeu que “era muito fácil encontrar plástico no sal” e decidiu registar essa constatação com a sua máquina fotográfica.

Uma das fotografias que fez a partir dessas amostras foi agora premiada no concurso mundial de fotografia da campanha CleanSeas, na categoria macro, promovida pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UN Environment). “SeaPlasticSalt” mostra no meio das partículas brancas do sal uma fibra azul: os temidos microplásticos. Uma imagem que, “infelizmente, não é surpreendente”. A fotografia, que procura alertar para a contaminação de todos os recursos aquáticos por microplásticos (plásticos com menos de cinco milímetros), vai agora integrar várias iniciativas e exposições temáticas da campanha CleanSeas, já partilhada no Instagram da UN Environment. 

Mas não só. A partir de uma vintena de imagens e composições fotográficas feitas no mesmo contexto, o Museu da Água, em Coimbra, vai inaugurar nesta quinta-feira, dia 22 (18 horas), uma exposição da bióloga, “fotógrafa amadora”, numa iniciativa conjunta entre essa instituição e a Universidade de Coimbra.

Do pós-doutoramento de Filipa Bessa sairá nos próximos meses um artigo científico que a autora promete ser revelador. Mas as primeiras conclusões do seu estudo foram divulgadas no início deste ano, quando, no Marine Pollution Bulletin, se dava conta de que praticamente todos os peixes analisados no Mondego, animais comercializados para alimentação, apresentavam microplásticos.

Missão conjunta

Por causa do prémio, Filipa Bessa teve oportunidade de participar na sexta conferência internacional de lixo marinho, nos Estados Unidos da América. O que se discute, afinal, entre investigadores e decisores políticos mundiais? “O que mais se ouviu na conferência é que este é um problema multidisciplinar e que não se resolve com a intervenção de apenas um sector”, responde. É urgente, por isso, “fazer parcerias” e envolver todos os actores: desde a indústria ao Governo, passando pelos investigadores e a sociedade civil.

Salientando que “talvez só metade" do plástico utilizado seja mesmo preciso, a investigadora sublinha a necessidade de mudarmos a nossa relação com este material: “Sobretudo combater o plástico descartável, aquele que usamos por comodidade, o que se utiliza por dois ou três minutos e se deita fora.”

A ideia não pode nem deve ser radical, diz, até porque o plástico “é preciso em algumas áreas como a medicina e a segurança”. A solução “ainda ninguém a tem”. Mas há uma certeza que deve e pode ser difundida, com uma mensagem nas entre-linhas: “Tem de haver um grupo de intervenientes muito activo mas, no essencial, a mudança depende da sociedade civil.”