Reportagem

“Já li Pessoa, Saramago e Lobo Antunes. O que posso ler agora?”

Portugal será convidado de honra da Feira do Livro de Leipzig daqui a três anos, mas a Embaixada de Portugal em Berlim está já a pensar no pós-2021, procurando garantir que o interesse dos editores alemães não esmoreça após a festa.

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Almeida Faria e o tradutor Michael Kegler. Tiago Peixoto
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O poeta Filinto Elísio, o tradutor Michael Kegler e o poeta Arménio Vieira Tiago Peixoto
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A conselheira cultural da Embaixada de Portugal em Berlim, Patrícia Severino Tiago Peixoto
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Patrícia Severino, o embaixador João Mira Gomes e o director da Feira do Livro de Leipzig, Oliver Zille. Tiago Peixoto
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Os escritores Bernardo Carvalho e Ricardo Domeneck Tiago Peixoto
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O tradutor Michael Kegler, o escritor Almeida Faria e a tradutora Barbara Mesquita Tiago Peixoto

Pelo terceiro ano consecutivo, uma comitiva de escritores de língua portuguesa de diferentes gerações e proveniências geográficas marcou presença na Feira do Livro de Leipzig, a segunda mais importante da Alemanha, num esforço continuado da Embaixada de Portugal em Berlim para tentar que o mercado editorial alemão volte a interessar-se pela literatura portuguesa depois da intensa mas fugaz atenção que lhe concedeu no final dos anos 90, quando o país foi tema da Feira do Livro de Frankfurt e José Saramago ganhou o Nobel da Literatura.

Os primeiros frutos desse trabalho estão já à vista: no primeiro dia da Feira do Livro de Leipzig, que terminou este domingo, o seu director, Oliver Zille, e o embaixador português em Berlim, João Mira Gomes, anunciaram que Portugal será o país convidado de honra na edição de 2021. Decisão que culmina um combate travado em várias frentes, e que não se resume apenas a levar autores a Leipzig com o apoio do Instituto Camões (através do seu novo Centro Cultural em Berlim), da Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB) e de outras instituições: foi criada uma bolsa de residência literária em Berlim, de que já usufruíram Patrícia Portela e Rui Cardoso Martins, vários escritores fizeram itinerâncias não apenas em diferentes cidades alemãs, mas também noutros países onde se fala alemão, como a Áustria, a Suíça e o Luxemburgo, e uma delegação de editores alemães foi convidada a visitar a Feira do Livro de Lisboa.

O objectivo, resume ao PÚBLICO a conselheira cultural da Embaixada de Portugal em Berlim, Patrícia Severino, é conseguir que, num futuro próximo, seja possível dar uma resposta tão satisfatória e diversificada quanto possível a esses leitores alemães que têm aparecido no pavilhão português da feira de Leipzig a perguntar: “Já li Pessoa, Saramago e Lobo Antunes. O que posso ler agora?”.

A verdade é que há boas razões para que o leitor alemão só conheça estes autores. Um levantamento de tudo quanto se publicou na Alemanha de autores de língua portuguesa permitiu verificar que o já de si escasso número de edições se concentra nitidamente nestes três nomes, a grande distância dos seus competidores mais próximos, como Eça de Queirós ou o brasileiro Paulo Coelho. “Apesar dos seus cerca de 250 milhões de falantes, a língua portuguesa está hoje claramente sub-representada no mercado editorial alemão, sendo mesmo ultrapassada pelo norueguês ou o finlandês”, observa Patrícia Severino, precisando que em 2016, último ano para o qual existem estatísticas disponíveis, só 37 das dez mil obras traduzidas para alemão são de autores de língua portuguesa.

Depois de Portugal ter sido, em 1997, o país convidado da feira de Frankfurt, e de Saramago ter ganhado o Nobel em 1998, o interesse dos editores alemães pela literatura portuguesa manteve-se ainda até ao final dos anos 90, mas essa euforia não tardou a esvaziar-se. Uma experiência da qual Patrícia Severino acha que podemos tirar as lições certas para preparar Leipzig 2021. E a primeira é precisamente não limitar os esforços a garantir que tudo corre bem durante a festa. “A tendência nestes projectos é publicar-se 30 ou 40 livros no próprio ano em que o país é convidado, ou pouco antes, e depois o foco dispersa-se”, nota. “Estes próximos anos irão ser mais intensos, mas devemos trabalhar desde já para assegurar que haverá novas traduções a sair também para lá de 2021”.

E vai dando a táctica: “Temos de ter excertos de autores de língua portuguesa traduzidos para alemão, para os podermos divulgar junto dos editores alemães, temos de trabalhar muito de perto com os tradutores, que são essenciais, e temos de dar continuidade a este trabalho de trazer escritores à Alemanha, porque se os autores não estão presentes, os editores acabam por se desinteressar”.

É isto, de resto, que vem procurando fazer desde que assumiu funções, em 2015, na embaixada portuguesa em Berlim. Tendo percebido que a natureza da Feira do Livro de Leipzig, mais voltada para autores e leitores do que a de Frankfurt, muito centrada na compra e venda de direitos, a tornava o palco ideal para apresentar escritores de língua portuguesa aos editores alemães, conseguiu logo em 2016, sob liderança do embaixador João Mira Gomes e construindo várias parcerias com instituições portuguesas e alemãs, levar um primeiro grupo de escritores portugueses a Leipzig. “O único já traduzido era o João Tordo e achei que íamos estar muito sozinhos, porque na Alemanha ninguém conhecia os outros”, conta. Incluindo Hélia Correia, que recebera no ano anterior o prémio Camões. “Mas as sessões estiveram sempre cheias e havia gente a procurar-nos no stand”.

Editor de Camões e Al Berto

A autora de Lilias  Fraser e Adoecer é aliás um bom exemplo dos efeitos positivos destas embaixadas literárias. Já em 2017, o editor Viktor Kalinke, da pequena editora independente Leipziger Verlag, dissera ao PÚBLICO que gostava de publicar Hélia Correia, e este ano lá estava ele a lançar a tradução alemã de Vinte Degraus e Outros Contos (2014).

E Ingo Držecnik, cuja editora Elfenbein venceu na feira deste ano o importante prémio Kurt Wolff para editores independentes, disse ao PÚBLICO ter a intenção de aproveitar a visibilidade que Leipzig 2021 trará à literatura portuguesa na Alemanha para reforçar o seu já tão impressionante como ecléctico catálogo de autores portugueses, que se iniciou com A Casa do Fim, de José Riço Direitinho (crítico literário do PÚBLICO), e inclui as obras completas de Camões em três volumes, Os Pescadores de Raul Brandão, a poesia de António Botto ou três livros de Al Berto, para citar apenas alguns exemplos. Publicou também O Cemitério de Raparigas (1996) de Miguel Esteves Cardoso, mas acabou por desistir de editar O Amor É Fodido. “O título era difícil de traduzir para alemão”, explicou. 

Se Hélia Correia já está traduzida, Isabela Figueiredo, que integrou a delegação deste ano, parece também já ter editor garantido para o seu Caderno de Memórias Coloniais (2009). “Estou muito interessado nesse livro”, disse ao PÚBLICO o editor Stefan Weidle, proprietário da editora Weidle, que já publicou Ana Nobre de Gusmão e Rui Zink. “Li umas provas de tradução e gostei muito, mas eu já não sou novo e é preciso saber o que as pessoas mais jovens querem, de modo que as dei a ler a uma estagiária e perguntei-lhe: ‘Se eu publicasse isto, tu compravas?’. E ela disse que sim”, contou o editor ao PÚBLICO.

A sessão dedicada a Isabela Figueiredo, que em 2016 publicou o romance A Gorda (2016), foi um momento particularmente intenso, com o pequeno auditório lotado e a ouvir em compenetrado silêncio as leituras feitas, respectivamente em português e alemão, pela escritora e pelo tradutor Markus Sahr. “Não há nenhuma prateleira onde possamos encaixar a obra de Isabela Figueiredo, e não queremos nem devemos arranjar-lhe uma”, disse o apresentador, que deixou a autora ligeiramente constrangida quando lhe pediu que lesse alto um parágrafo particularmente violento do seu livro, no qual diz que os brancos iam “à cona das pretas”, que “não distinguiam (…) a não ser pela cor da capulana ou pelo feitio da teta”. Mas leria depois também as pungentes páginas nas quais descreve o instante em que vai partir sozinha de Moçambique e, já no aeroporto, se despede do pai, que só voltará a ver dez anos depois. “Foi um momento que gerou uma fractura na minha vida, que me marcou para sempre”, disse, sugerindo que talvez por isso o excerto em que o descreve lhe tenha “saído particularmente lírico”.

A intensidade dos aplausos finais confirmou que a apresentação correra bem, mas mostrou também as limitações destas sessões organizadas num auditório que Portugal partilha com outros pavilhões: como o tempo disponível é pouco e não pode mesmo ser ultrapassado, os autores acabam, entre apresentações e leituras, por ter muito pouco tempo para falar. Um problema que foi especialmente óbvio no debate sobre literatura de língua portuguesa que reuniu, na sexta-feira, sob a moderação da tradutora Margrit Klinger-Clavijo, Almeida Faria, Rui Cardoso Martins, Isabela Figueiredo, o brasileiro Bernardo Carvalho e o angolano Kalaf Epalanga. Vários dos presentes levantaram questões que dariam pano para mangas, mas que acabaram por não poder ser debatidas. Rui Cardoso Martins introduziu, por exemplo, os temas do acordo ortográfico ou do clima de violência que o Brasil está a viver – Marielle Franco tinha sido assassinada na antevéspera –, enquanto Bernardo Carvalho defendeu a tese de que no Brasil há “uma espécie de abismo entre a língua falada e escrita” sem paralelo em Portugal, o que explicaria como “a língua de Eça de Queirós pode ter essa transparência, como se fosse cinema”, ao passo que a de Machado de Assis era, para os seus leitores, “pura opacidade”.

Todos os autores presentes no debate – à excepção de Kalaf Epalanga, que integrara a comitiva de 2017 – tiveram também sessões individuais. Almeida Faria, que foi surpreendido por um bibliófilo austríaco a pedir-lhe que assinasse uma velha edição da Portugália de A Paixão (1965), falou do perplexo protagonista de O Conquistador (1990), que não sabe se é de facto o rei D. Sebastião regressado ou apenas “um homem que gosta de namorar”, isto é, um D. Juan, um conquistador noutro sentido do termo. Rui Cardoso Martins explicou como O Osso da Borboleta (2014) nasceu do seu interesse pelo destino dos refugiados que chegavam a Portugal na segunda guerra mundial, fugindo do nazismo para “uma espécie de paraíso falso, uma ditadura fascista que, de forma abjecta, negociava ao mesmo tempo com a Alemanha de Hitler e com os Aliados”, e Bernardo de Carvalho comentou o seu romance mais recente, Simpatia pelo Demônio, que envolve Berlim como cenário de uma paixão entre o protagonista e um estudante mexicano.

A sessão mais animada talvez tenha sido a que reuniu, no ambiente mais informal do pavilhão português, dois poetas cabo-verdianos de distintas gerações (mas da mesma linhagem estética, como sublinhou o mais novo): Arménio Vieira, prémio Camões em 2009, e Filinto Elísio, que é também editor. Vieira começou por ler um poema dedicado a Rimbaud. Aludindo ao facto de o poeta francês ter “abandonado a poesia aos 19 anos”, Vieira (ou antes, Silvenius, mas já lá vamos) termina a sua homenagem com este achado: “Perdeu a perna aos 37 anos,/ Tinha 19 quando morreu”.

Outro dos poemas que leu – e que o avisado apresentador, o tradutor Michael Kleger, tentou deixar para o fim – foi Megalomania, no qual, depois de se equiparar a Homero, Dante, Shakespeare ou Whitman, entre outros vates afins, pergunta: “...então que falta/ em mim para de Camões herdar a estrela,/ que Pessoa deixou fugir?”.

Filinto Elísio, além de ler e comentar os seus próprios poemas, apresentou a antologia que a sua editora Rosa de Porcelana editou da poesia de Arménio Vieira, intitulada Silvenius. Lembrando que o último apelido do nome civil do antologiado é Silva, explicou que Silvenius corresponde a “uma máscara poética” de Arménio Vieira, identificada com um conjunto de poemas ao mesmo tempo “universalistas” e “profundamente existencialistas”, nos quais o poeta dialoga com grandes poetas de todo o mundo, incluindo os autores clássicos do cânone ocidental.

Sublinhando o facto de o prémio Camões ter sido dado a um autor cabo-verdiano que rompeu com a tradição do influente movimento Claridade, Filinto Elísio lembrou a dupla condição insular e diaspórica dos cabo-verdianos para justificar a sua grande abertura ao exterior. “A única fome que Cabo Verde tem além da fome real, histórica, é a fome de mundo”.

Como já fizera no ano passado com os convites a Raquel Nobre Guerra, Margarida Vale de Gato e Miguel Cardoso, a organização voltou a não esquecer os poetas, levando desta vez o brasileiro Ricardo Domeneck e os portugueses Marta Chaves e Miguel-Manso. Os dois últimos leram poemas e conversaram com os leitores quer no recinto da feira, quer numa sessão conjunta com dois poetas alemães no café Tunichtgut, onde perguntaram a Miguel-Manso, a pretexto de um verso do seu poema Antimundo – “o poema é a imagem-espelho de um corpo” –, se achava que a sua presença física contribuía para a compreensão da sua poesia, tendo o autor de Persianas (2015) feito votos de que contribuísse para a sua incompreensão. Já a Marta Chaves pediram-lhe que comentasse os versos em que afirma: “Não descanso até encontrar/ o poema que me alivie” e a autora de Perda de Inventário (2015) explicou que quando se passa alguma coisa na sua vida, procura “nos poetas-irmãos e nos poetas-amantes”, como afirma outro verso do mesmo texto, sossego para as emoções que a cercam. Ao PÚBLICO acrescentou que tem “muita pontaria” para encontrar a passagem que a pode ajudar, e precisou que Rui Pires Cabral é um dos seus oráculos recorrentes e que “a [Maria Gabriela] Llansol, então, é só abrir uma página à sorte”.

O PÚBLICO viajou a convite da Embaixada de Portugal/Camões em Berlim