Crítica

Georges Simenon: a banalidade do bem

São duas narrativas de formação de Georges Simenon. Uma é autobiográfica. A outra é magnífica.

Simenon nunca terá conseguido inteiramente (nem com a ajuda de André Gide) que o resgatassem ao nicho do subgénero policial
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Simenon nunca terá conseguido inteiramente (nem com a ajuda de André Gide) que o resgatassem ao nicho do subgénero policial KEYSTONE/GETTY IMAGES

Georges Simenon (1903-1989) foi um dos mais prolíficos escritores do século XX. Só é comparável, sob esse aspecto, a Isaac Asimov, igualmente popular, embora em outro subgénero narrativo. Contabilizados romances, novelas, contos e outros escritos (mais ou menos autobiográficos ou jornalísticos), o belga escreveu e fez publicar mais de meio milhar de textos. Diante de tão grande produtividade, o recenseador — por mais imprudente e mais educado que seja no gosto moderno pelos rankings — hesita, sentindo-se desencorajado de emitir um daqueles juízos (por assim dizer) que tão úteis são em badanas e contracapas: “o melhor romance…”, “a mais bela novela…”, etc. Eis, portanto, a primeira virtude do escritor de Liège: desaconselha venais (e banais) entusiasmos.

Simenon foi também um dos escritores mais populares do século. Melhor: Simenon foi também um dos escritores policiais mais populares do século, neste particular sendo só comparável a Agatha Christie (que, aliás, terá lucrado bastante mais escrevendo bastante menos). Embora os romances ou novelas e os contos protagonizados por Maigret representem “apenas” cerca de um quinto da produção escrita pelo autor, Simenon popularizou-se enquanto criador do comissário. A glória poderá ter sido comercialmente proveitosa, mas acabou por sobrepor-se equivocamente a toda a restante e imensa produção narrativa do escritor, que nunca terá conseguido inteiramente (nem com a ajuda de André Gide) que o resgatassem ao nicho do subgénero policial e o colocassem na estante dos escritores tout court. E dos bons. Por alturas do centenário do seu nascimento, houve quem, apontando dois ou três romances, o emparelhasse retrospectivamente a Camus, dando-o, aliás, como mais merecedor do Nobel do que o autor de O Estrangeiro. Mas é sabido que os centenários são ocasiões propícias a reavaliações maximalistas. Como quer que seja, Georges Simenon foi entretanto canonizado pela Pléiade, sendo oportuno assinalar que, da trintena de romances e novelas reunidos nos três volumes até agora publicados, apenas cinco têm Maigret como protagonista.

A editora Relógio D’Água tem vindo a publicar algumas obras de Simenon. As mais recentes — e que estavam até agora inéditas em português, creio — são Os Três Crimes dos Meus Amigos (1938) e O Santinho (1965). Nenhuma delas é integrável no qualificativo ‘policial’, sendo que a primeira é, no mínimo, de discutível filiação genológica. Embora originalmente tenha sido publicado como se de uma obra de ficção romanesca se tratasse, o livro Os Três Crimes dos Meus Amigos é, substancialmente, uma memória descritiva dos anos de formação do autor em Liège, até à sua ida para Paris em 1922, e da década subsequente na capital francesa, até à condenação dos amigos criminosos. Trata-se de uma crónica declaradamente autobiográfica, narrada por Simenon-ele-mesmo. É claro que sempre poderemos questionar a exacta veracidade deste episódio ou daquela circunstância, pois as fantasias da memória costumam atraiçoar as mais bem intencionadas autobiografias, mas, no geral, personagens e acontecimentos serão historicamente comprováveis. Assim, e por exemplo, a marginal fauna romântico-decadente (prometidos artistas e poetas, “poseurs”, jornalistas e outros arrivistas) que na segunda década do século XX fez a glória do “Caque”, um antro boémio da provinciana Liège. Foi aí que o então ainda adolescente Simenon conviveu com o jovem pintor suicida que nesta narrativa identifica pudicamente como “o pequeno K…”, e foi aí que conheceu, aliás, uma jovem artista que viria a ser a sua primeira mulher. Não se julgue, porém, que o tom maior deste memorial é melancólico, ou trágico ou, sequer, dramático. Pelo contrário, e não obstante o suicídio, o aburguesamento e a confirmação posterior dos crimes anunciados no título, a digressão chega a ser alegre, em boa medida por causa de dois trota-jornais aventureiros (um deles também amante de livros e de impudicícias), retratados em tamanho e acções tão consubstanciais ao meio jornalístico que, se não tivessem existido de verdade, Simenon bem poderia tê-los inventado. Outros tempos, enfim. Felizmente, nos jornais de hoje só entram pessoas sérias.

O Santinho é a biografia de um pintor imaginário, cuja existência decorre inteiramente em Paris desde o final do século XIX até ao início dos anos 60 do século seguinte. O livro está dividido em duas partes, intituladas O Rapazinho da Rue Mouffetard e O Rapazinho da Rue de l’Abbé-de-l’Épée. A primeira, na reconhecível moldura do “romance de formação”, conta a infância do protagonista no seio de uma feliz família disfuncional e pobre, capitaneada por uma mãe-coragem algo promíscua que vende legumes e frutas na rua Mouffetard, cujo entorno pertencia então às classes obreiras e populares de Paris e a alguns pequeno-burgueses (hoje pertence, como se sabe, ao turismo de massas). Na segunda parte, concluída a escola primária, o rapazinho vai trabalhar para o então grande mercado abastecedor de Paris (Les Halles) e tornar-se-á um (famoso) pintor autodidacta. A repetição, no título de ambas as partes (tratando a segunda, em boa medida, da vida adulta do artista, até à sua velhice), da palavra “rapazinho” é uma boa chave para a leitura do romance. O pessimismo existencial de Simenon cede, aqui, sem grandiloquência, à banalidade do bem. A educação sentimental do nosso herói foi violenta — viu a irmã ser estuprada por um irmão mais velho, foi vítima de bullying na escola, etc. — mas, à violência íntima e pessoal do mundo, ele opôs sempre uma espécie de alteridade indiferente. Alheio a si mesmo, nem a posterior felicidade da pintura o corrompeu. Estrangeiro ao bem e ao mal, o rapaz a quem na infância chamavam “santinho” parece ter vivido toda a sua existência na graça de uma espécie de ímpia santidade: “’Qual é ao certo o seu objectivo?’/‘Não sei.’ / Era a frase que ele pronunciara mais vezes ao longo da sua vida e que continuava a repetir.”

Em ambos os livros, a acção é contada linearmente, sem enredos. Mas se, no primeiro livro, a narração na primeira pessoa e o assunto autorizam o autor a produzir uma ou outra inflexão retórica, no caso do segundo livro tudo é narrado com objectividade e frieza. Sem contrabando de emoções. Um romance puro e duro. Ou o inverso.