O escultor voador

O argentino Tomás Saraceno criou a comunidade do Aeroceno. Propõe que entremos na época geológica do ar, habitemos a atmosfera através de esculturas flutuantes. A instalação na Galeria Oval abre ao público na quarta-feira.

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A exposição Um Imaginário Termodinâmico — aqui durante a montagem —junta 16 esculturas, existentes e inéditas, que constroem uma instalação site-specific na Galeria Oval, criando uma espécie de constelação do Aeroceno, uma visão de um urbanismo de uma nova época geológica Sebastiao Almeida

“Não consegui ir a Coimbra, porque cheguei à estação e não havia comboios. Estava muito curioso em relação a Bartolomeu de Gusmão, mas ainda não é desta vez que vou ver os desenhos das passarolas.” Os astros não estavam alinhados para o artista argentino Tomás Saraceno – que na terça-feira, às 19h, inaugura a exposição Um Imaginário Termodinâmico no Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia (MAAT), em Lisboa – e “a greve dos comboios” não permitiu a visita à Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra, onde está guardada a documentação do padre inventor do século XVIII. Bartolomeu de Gusmão, o inventor da passarola, ficou na história por ter conseguido, a 8 de Agosto de 1709, no Paço Real, em Lisboa, sob os olhares de D. João V, concretizar a primeira ascensão documentada de um objecto mais pesado do que o ar no mundo ocidental. 

Se a Gusmão chamaram “padre voador”, embora a sua passarola não tenha passado de uma miragem, a Tomás Saraceno podemos chamar o “escultor voador”. Podemos começar por dizer que geralmente é preciso olhar para cima quando encontramos as esculturas de Tomás Saraceno numa exposição. O MAAT não vai ser excepção.

As suas esculturas, reconhece numa conversa com o Ípsilon, são objectos que ambicionam ganhar a batalha contra a gravidade. Procuram flutuar ou surgem pendurados, quase sempre longe do chão. A estas esculturas “podemos chamar-lhes aéreas", mas se é verdade que o ar se tornou muito importante no seu trabalho, também há coisas mais estranhas à ideia mais clássica que temos da escultura como o sol.  

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Na Galeria Oval do MAAT vemos Aeroke Duo (2017), esferas que na sua versão maior, ainda não desenvolvida, poderão conseguir elevar-se alimentadas pela energia do Sol ou pela radiação infravermelha emitida pela Terra, explorando a diferença de temperatura entre o exterior e o interior, explica uma das comissária, Rita Marques. Mas também poliedros ligados por teias, nas obras mais antigas da série Cloud City, que lembram como as aranhas também são grandes escultoras.

Objectos que parecem vir de outro mundo ou que aspiram a novas galáxias. Esculturas que pontualmente conseguem voar mais de 500 quilómetros – há um vídeo no MAAT para o documentar numa performance antiga feita em Salinas Grandes, na Argentina. Esculturas que quando Tomás Saraceno se aproxima mais do seu alter ego Bartolomeu de Gusmão podem mesmo pôr a voar o escultor ou o espectador.

Mas outro dos elementos com que a sua escultura trabalha, lembra o artista, é o movimento, citando a obra Calder Upside Down (2018) também presente no MAAT. O argentino, que ganhou em 2009 o Prémio Calder, reconhece em Alexander Calder e os seus móbiles “uma referência” – são obras que também vivem no ar, flutuam e desafiam a gravidade.

Perto desta divertida homenagem a Calder, está o Explorador do Aeroceno, mostra-nos Eric Vogler, um dos assistentes do artista que acompanhou a montagem no MAAT. É difícil que esta escultura voadora em forma de mochila saia do saco por estes dias para realizar uma performance, porque a meteorologia não está a ajudar. Mas está previsto que o kit Explorador do Aeroceno possa ser requisitado no museu, permitindo aos visitantes activarem a escultura voadora.

Parece uma mistura entre um papagaio-de-papel e um balão, mas não é necessário recorrer a qualquer combustível fóssil, gases como o hélio ou a baterias. Na prática, o Explorador do Aeroceno – o nome do projecto artístico que Tomás Saraceno tem desenvolvido nos últimos anos – permite pôr a voar duas pirâmides com cinco metros de largura de base, consultando outro dispositivo, o Previsor de Flutuação, que vai também estar disponível no MAAT através de um iPad ou de projecção vídeo. É este sistema de previsão global que nos diz quais os melhores dias para chegar a Berlim ou a Tóquio a partir de Lisboa utilizando os ventos, embora a nossa experiência no MAAT tenha sido prejudicada, explicou Eric Vogler, pela actualização que ainda estava a ser feita deste software desenvolvido em parceria com o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Tomás Saraceno apresenta-o como um instrumento de navegação para planear viagens na era do Aeroceno, que significa a época em que viveremos no ar.

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Se tudo parece complexo, é porque o projecto Aeroceno é também o resultado de uma colaboração com várias instituições científicas, onde Tomás Saraceno tem passado temporadas, além do trabalho que tem desenvolvido no seu estúdio em Berlim. Aliás, o currículo do argentino mostra mais tempo passado na agência espacial norte-americana NASA, no CNES, o seu congénere francês, no MIT ou no Instituto Max Planck, do que em instituições artísticas, como o Atelier Calder, onde esteve em residência artística em 2010.

A exposição Um Imaginário Termodinâmico junta 16 esculturas, existentes e inéditas, que constroem uma instalação site-specific na Galeria Oval, criando uma espécie de constelação do Aeroceno, uma visão de um urbanismo de uma nova época geológica. Ao propor um novo período, em que é possível viver com uma consciência atmosférica, o artista quer reflectir colectivamente sobre a possibilidade de habitar estas estruturas flutuantes, a que se chega voando sem provocar emissões de carbono e conseguindo outra interacção com a atmosfera do planeta. Ou seja, uma  colaboração ética com o ambiente.

O Aeroceno, explica, é já o resultado de um pós-Antropoceno, a mais recente época geológica, que embora não seja reconhecida oficialmente pela União Internacional das Ciências Geológicas UICG) parece ter cada vez mais defensores. A expressão “Antropoceno” representa o impacto que a humanidade tem na transformação (e evolução) da Terra desde a Revolução Industrial e foi atribuída ao químico e prémio Nobel Paul Crutzen, que a propôs durante uma conferência em 2000, ao mesmo tempo que anunciou o fim do Holoceno, a época em que de facto vivemos, segundo a UICG, e que começou há 12 mil anos.

Urbanismo aéreo

Tal como Tomás Saraceno, Eric Vogler também faz parte da comunidade do Aeroceno, que inclui desde radioamadores a filósofos, passando por geógrafos ou engenheiros do ambiente. “Fazemos estes objectos, as esculturas flutuantes, para transportar a ideia. Queremos descobrir novas estéticas e ideias.” Saraceno diz que qualquer pessoa, ou objecto, se pode juntar à comunidade.

O Aeroceno envolve todo o tipo de escalas. Desde estas esculturas flutuantes que já conseguiram viajar 650 quilómetros de distância, atingindo 30 quilómetros de altura, até à possibilidade de desenvolver um “urbanismo do Aeroceno”.

Com formação em arquitectura, o urbanismo aéreo de Saraceno não está longe, dizem os curadores Rita Marques e Pedro Gadanho, das visões utópicas propostas por Buckminster Fuller e Constant Nieuwenhuys. Na instalação que fez há cinco anos para o programa On the Roof do Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque, intitulada Cloud Cities, já se falava desta possibilidade de flutuar e habitar o ar com uma consciência ecológica.

Perguntamos a Tomás se o urbanismo aeroceno é uma utopia que aponta para um futuro em que habitaremos o universo, o espaço extraterrestre. “Não sei se é uma utopia ou uma distopia. Sei que o urbanismo aeroceno diz que o espaço em que vivemos é muito importante. Mostra que vivemos num espaço que é o planeta Terra, que já vivemos no universo e que esse universo é frágil.”

As suas esculturas são uma forma de activismo? O artista argentino diz que podemos ser muita coisa ao mesmo tempo – artistas, sonhadores e porque não activistas também?

Notícia corrigida: as esferas Aeroke Duo (2017), segundo a comissária Rita Marques, só poderão ter a ambição de ser elevar numa versão muito maior à apresentada no MAAT