Opinião

Vêm aí as start-up da 2.ª ruralidade

A grande questão será, então, esta: como é que podemos incubar e acelerar a passagem de um rural tardio, pobre e remediado, para um neorural inteligente e criativo?

Tudo o que temos ouvido e lido recentemente a propósito da valorização do interior e do mundo rural é do domínio da mitigação e reparação de danos do rural tardio português cuja morte anunciada foi acelerada por causa dos incêndios de 2017. Como é evidente, não podemos confundir “mitigação e reparação de danos” com modernização da agricultura e do mundo rural. Vivemos em sociedades abertas e cada vez mais cosmopolitas. Está em vigor o princípio geral da mobilidade e em curso a transição para a 2.ª ruralidade. A única certeza que temos é que, no futuro próximo, por causa da dupla transição, ecológica e digital, o campo nos revelará uma pluralidade de campos, na exata medida em que o campo será simultaneamente um espaço produtor e um espaço produzido. Assistiremos à chegada dos neorurais, uns mais capitalistas, outros mais românticos, outros mais digitais, outros mais ecodigitais, e com eles chegarão start-up muito atrevidas que mudarão para sempre o fácies do velho mundo rural português.

A grande questão será, então, esta: como é que podemos incubar e acelerar a passagem de um rural tardio, pobre e remediado, para um neorural inteligente e criativo, a caminho da 2.ª ruralidade?

Para o demonstrar, vamos passar em revista algumas áreas onde essa transição irá ocorrer: a agricultura de precisão, as agriculturas pós-produtivistas e hipocarbónicas, a turistificação do mundo rural, a smartificação de territórios-rede, as novas estruturas de acolhimento dos neorurais, os centros de extensão rural do futuro e a culminar toda esta rede capilar da 2.ª ruralidade a “cidade distrital inteligente”. Terminaremos com uma primeira tipologia das start-up em espaço rural.

1. A agricultura de precisão

 Vem aí a “internet dos objetos“ e, consequentemente, a “indústria dos objetos conectados”. Doravante, podemos fazer “plantações” de sensores para conectar estes objetos, isto é, tudo será smart, mais tarde ou mais cedo: a cidade, a habitação, a fábrica, o hospital, o aeroporto, a universidade, o automóvel, o centro comercial, mas, também, o campo agrícola, a empresa pecuária, a floresta, o parque natural, a bacia hidrográfica, etc.

Vejam-se, por exemplo, os avanços tecnológicos já conseguidos no domínio da chamada agricultura de precisão: a gestão remota da rega. a monitorização das culturas a partir de imagens aéreas (com drones), as câmaras de vigilância nos estábulos, os robots de ordenha e alimentação, os chips nos animais para acompanhamento do seu ciclo de vida, os veículos autónomos como maquinas agrícolas e tratores (winebots), a colocação de sensores na floresta (os olhos e os ouvidos das árvores), as câmaras térmicas (os olhos noturnos dos bombeiros), as imagens por drone das zonas com maior acumulação de matos, os firebots para o ataque a incêndios, a criação de aplicações em smartphones para uso de agricultores e bombeiros, os modelos computacionais e a inteligência artificial para a elaboração de cenários de intervenção, etc. Quer dizer, no âmbito da “internet das coisas” (IOT) e dos sistemas automáticos praticamente nada escapará aos dispositivos de monitorização, sejam sensores, chips ou câmaras de vigilância; neste caso em concreto, podemos dizer que a rastreabilidade é total e a recolha e tratamento de dados uma tarefa primordial para a agricultura de precisão.

Se a esta “plantação-conexão digital” juntarmos a constelação tecnológica formada pelas nanotecnologias, as biotecnologias, as ciências da vida, do solo e da água e as indústrias da alimentação, teremos seguramente uma ocupação do território muito diferente da atual, com menos gente in situ e mais gente ex situ ocupada em tarefas de vigilância, programação, planeamento e controlo, geridas à distância por “seres aumentados” que administram interfaces eletrónicos e digitais de todo o tipo. Em resumo, há aqui um campo imenso para novas especialidades e novas oportunidades para a próxima geração de start-up da 2.ª ruralidade.

2. As agriculturas pós-produtivistas e hipocarbónicas

Paralelamente à agricultura de precisão surgirão as denominadas agriculturas pós-produtivistas, umas mais sociais e comunitárias outras mais especializadas. As alterações climáticas, as economias de proximidade e a alimentação saudável, mas, também, os pagamentos pela prestação de serviços ambientais, funcionarão como pretexto e causa próxima e despertarão uma curiosidade crescente por parte dos neorurais. Acresce que, dadas as características agroecológicas e socioeconómicas de muitas das nossas microrregiões do interior, o mais provável é que sejam objeto de uma “smartificação fraca” associada à lógica agroecológica ou, nas palavras do Arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles, ao “organicismo da paisagem global”.

De resto, “paisagem global” de Gonçalo Ribeiro Telles é um mosaico muito complexo e interdependente onde cabem a conservação da natureza, a produção de alimentos frescos, as amenidades agroturísticas e a gestão das áreas de paisagem protegida, de acordo com critérios técnicos, mas, também, estéticos e éticos. Há, pois, neste contexto, muito trabalho de investigação-ação-extensão a realizar e um campo imenso para a emergência da próxima geração de start-up a caminho da 2.ª ruralidade.

3. Turistificação do mundo rural e produção de novos conteúdos

A modernização do mundo rural pela via dupla da agricultura de precisão e da agricultura pós-produtivista tem como corolário lógico um aumento da turistificação do mundo rural e, consequentemente, a necessidade de produzir novos conteúdos criativos e culturais, em especial em redor dos chamados sinais distintivos territoriais. Esta implicação recíproca vantajosa entre agricultura, ecologia, turismo e cultura é fundamental para criar in loco pequenas economias de aglomeração que justifiquem o lançamento de novos projetos empresariais. As plataformas tecnológicas facilitam estas transações e aqui, mais uma vez, as start-up terão um papel fundamental no desenho de aplicações digitais que fazem a conexão destas diferentes atividades, para além da produção especifica de conteúdos criativos e culturais. Todos os sinais distintivos “emitem informação bruta” que é preciso recolher e tratar devidamente, razão pela qual é fundamental conceber o sistema de informação geográfica da sub-região e ensaiar a sua “conexão inteligente”. A partir desse volume imenso de informação a “arte da composição” permitirá compor uma “variedade de territórios virtuais”, um campo de possibilidades de onde emergirá uma nova consciência coletiva territorial. Porque precisamos de criar conteúdos para preencher essas diversas virtualidades, existe aqui mais uma oportunidade para o lançamento de novos projetos e empresas.

4. A smartificação dos territórios-rede da 2.ª ruralidade

Os territórios-rede da 2.ª ruralidade são uma malha fina e delicada de pequenos empreendimentos muito bem articulados entre si, verdadeiros laboratórios para testar pequenas economias de aglomeração. O segredo do sucesso destes territórios-rede é a instituição de um ator-rede que seja capaz de ouvir, interpretar, promover e realizar as aspirações de um território que é sentido e desejado. Apresento a seguir uma série de exemplos, que são outras tantas configurações sociais de territórios-rede, uma espécie de “arquitetura de interiores” de uma região.

- Um “sistema alimentar local (SAL)”

A partir da agricultura social e periurbana e por via de uma rede de circuitos curtos, podemos organizar o comércio local de produtos alimentares de proximidade; ao mesmo tempo, a parceria local aproveita para requalificar o sistema de espaços e corredores verdes, utilizando, por exemplo, as hortas sociais, as linhas de água e os bosquetes multifuncionais, tendo em vista articular as áreas urbanas, as áreas rurais e as áreas naturais;

- Uma “denominação de origem protegida (DOP)”

No quadro de um parque natural ou de um subsistema serrano, por exemplo, podemos (a parceria local) modernizar o sistema produtivo local, criando, para o efeito, uma agroecologia específica, uma denominação de origem protegida (DOP) e uma nova estratégia de visitação do por via de um marketing territorial mais ousado e imaginativo;

- Um “mercado ou segmento de nicho”

No quadro de um centro termal, de um aldeamento turístico ou de uma amenidade fluvial podemos (a parceria local) podemos recriar um nicho de mercado, por exemplo, um novo espaço público de qualidade para o “turismo acessível, terapêutico e recreativo” (turismo de saúde e bem-estar) com base numa pequena aglomeração de atividades terapêuticas, criativas e culturais criadas para o efeito;

- Um “complexo agroturístico com campo de férias e aventura”

No quadro de uma empresa, cooperativa ou associação de desenvolvimento local podemos (a parceria local) lançar uma estratégia criativa e integrada de agroturismo e turismo rural que inclua a participação dos visitantes nas práticas agro-rurais tradicionais e a colaboração de voluntários de campos de férias, trabalho e aventura;

- Uma “rede de turismo de aldeias e touring de natureza”

Um grupo de aldeias com vocação especializada num determinado sector ou produto, as aldeias vinhateiras do Alto Douro, por exemplo, património mundial da Humanidade, associa-se com os empreendimentos turísticos, as associações ou clubes de produtores, uma escola superior e as associações culturais mais representativas, tendo em vista desenhar uma estratégia conjunta de visitação e valorização do património material e imaterial dessa sub-região;

- Uma “marca coletiva” para o relançamento de uma gama de produtos

Um grupo de empresas, cooperativas agrícolas e associações de desenvolvimento associam-se tendo em vista desenhar e aplicar uma estratégia conjunta de modernização agrária e comercial para uma sub-região que foi objeto de investimentos públicos significativos e que precisa urgentemente de ser relançada (o regadio da Cova da Beira, por exemplo);

- Um “sistema ou mosaico agroflorestal (SAF)”

No quadro de uma ou mais Zonas de Intervenção Florestal (ZIF), associações de produtores florestais, reservas cinegéticas, áreas de paisagem protegida e as zonas de proteção especial, as comunidades humanas implicadas associam-se para constituir um “sistema agroflorestal (SAF)” ou agro-silvo-pastoril tendo em vista criar uma estratégia de intervenção integrada que vai desde a prevenção e recuperação de áreas ardidas à construção dos sistemas agro-silvo-pastoris com o seu cabaz completo de produtos da floresta;

- Um “centro de ecologia funcional e arquitetura paisagística”

As áreas ardidas são um bom pretexto para esta iniciativa. Um centro de investigação na área da biodiversidade, da ecologia funcional e reabilitação de ecossistemas, um parque ou reserva natural, uma associação agroflorestal, empresas de turismo em espaço rural, empresas na área do termalismo, propõem-se criar um programa de investigação-ação-extensão tendo em vista a preservação da biodiversidade e dos endemismos locais, a melhoria da oferta de serviços ambientais e a valorização comercial destes ativos biodiversos por via do lançamento de serviços turísticos, culturais e científicos;

-Um “programa de desenvolvimento de aldeias serranas e de montanha”

Um agrupamento de municípios conjuntamente com as associações de desenvolvimento local e os operadores empresariais respetivos propõem-se desenhar e lançar um programa de desenvolvimento comunitário de aldeias serranas e de montanha e um cabaz de produtos correspondente;

- Um “parque biológico e ambiental”

Um agrupamento de municípios, um grupo termal, uma área de paisagem protegida, uma associação ambientalista ou de desenvolvimento local propõem-se criar uma espécie de “santuário, amenidade ou ecossistema exemplar” que seja um local de visitação e observação, mas, também, um laboratório de boas práticas agroecológicas e aprendizagem das técnicas de engenharia biofísica, ecologia da paisagem e reabilitação de habitats, economia da conservação, do baixo carbono e da energia renovável e a arquitetura funcional associada à bioconstrução e bioclimatização;

- Um “Parque Agrícola Intermunicipal” com objetivos de reinserção social

No campo da ação social, um projeto intermunicipal, associativo ou comunitário e com base no voluntariado que junte, por exemplo, os Sindicatos, as Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), o Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), uma escola superior agrária, tendo em vista a reinserção social em sentido amplo, a formação profissional e a realização de contratos de “institutional food” para abastecimento de escolas, prisões, hospitais, quartéis, lares;

- Uma “Quinta Pedagógica, Recreativa e Terapêutica”

No campo da ação pedagógica, recreativa e terapêutica, um projeto intermunicipal, associativo e comunitário, dirigido aos grupos mais vulneráveis da população com necessidades especiais, que junte as IPSS, os serviços hospitalares, a universidade, as ordens profissionais e os centros de investigação, tendo em vista a provisão de serviços médicos, pedagógicos, recreativos e terapêuticos, mas também ambientais, que são essenciais para o bem-estar e a qualidade de vida dos grupos mais sensíveis de população ;

- Um condomínio para a gestão de bens comuns

No campo da ação coletiva e da provisão de serviços comuns, para impedir o uso abusivo de recursos naturais que agravam as alterações climáticas e a utilização dos solos, podem ser desenhados várias estruturas associativas sob a forma de condomínio, seja para gerir um banco de terras, um espaço baldio, uma linha de água, um bosquete multifuncional, uma área de agricultura social, uma zona agroindustrial, um território cooperativo, um parque periurbano, tendo em vista a gestão de “bens comuns” em risco.

Em todos os casos referidos de território-rede, o propósito é sempre o mesmo: a valorização de recursos em risco e expectantes, a formação de uma nova cadeia de valor, uma ação coletiva inovadora, um ator-rede inteligente e uma comunidade de autogoverno eficaz. A smartificação do território pode ajudar, as instituições de ensino superior são fundamentais na formação das parcerias locais e dos atores-rede. Imagine-se o número de start-up inovadoras que podem ser criadas em redor de todos estes territórios-rede.

5. Estruturas de acolhimento e cidades distritais inteligentes

As estruturas de acolhimento como os espaços de coworking, os fablab, as incubadoras, os centros de investigação, as associações de desenvolvimento local, têm sido até agora os locais privilegiados para fazer nascer os novos empreendimentos. No entanto, estas estruturas não têm correspondido às expectativas e há uma baixa efetividade destes instrumentos de intervenção no território que, julgamos, se deve à fraca intensidade-rede das economias de aglomeração locais do mundo rural. O conceito de “cidade distrital inteligente” procura responder a essa “falha estrutural”. Quer dizer, precisamos de uma estrutura de autogoverno dotada com um mínimo de população, atribuições, competências e meios, que seja capaz de articular os poderes setoriais e intermunicipais com as expetativas das populações expressas através de recursos digitais e suscitar os efeitos de aglomeração e escala que o território mais necessita. A “cidade distrital inteligente” poderia ser o ator-rede indicado para esse efeito (ver PÚBLICO online, 7 de março).

6. Uma tipologia das start-up da 2.ª ruralidade

Chegados aqui, estamos em condições de elaborar uma primeira tipologia de start-up da 2.ª ruralidade. A economia digital e as plataformas colaborativas serão um instrumento fundamental para alavancar estes projetos empresariais:

- As agriculturas de precisão, os modos intensivos de produção.

- As agriculturas de nicho, denominações de origem e indicações geográficas.

- As agriculturas sociocomunitárias, os circuitos curtos e os mercados locais.

- A economia circular e a bioeconomia, a política dos 4R e os serviços ambientais.

- As energias renováveis e as bioenergias, as redes e os serviços energéticos.

- Os serviços ambulatórios ao domicílio, os programas de envelhecimento ativo.

- Os serviços de reabilitação e restauro do património natural e construído.

- Os serviços de produção de conteúdos para eventos criativos e culturais.

- Os ambientes digitais inteligentes e a gestão de sistemas de informação.

A convergência entre a transição digital e transição ecológica será o grande motor desta nova fase. Se esta convergência for devidamente patrocinada poderemos estar na iminência de uma explosão de start-up em espaço rural, embora nada garanta que elas não apareçam em ordem dispersa. Quer dizer, em vez de termos economias de aglomeração, poderemos ter economias de dispersão. Se tudo correr bem, poderemos ter uma economia colaborativa que tornará o capitalismo mais popular e genuíno, no sentido próprio dos termos, onde o capital social será tão ou mais decisivo que o capital financeiro.

Nota Final

O principal estrangulamento ao patrocínio adequado deste universo de start-up é o “modelo silo” completamente ultrapassado das nossas principais instituições, totalmente viciadas em candidaturas e ajudas públicas para preencher a sua missão corporativa. Por falta de bens e serviços comuns e partilhados, os erros são recorrentes tal como as zonas cinzentas e os custos de ineficiência. A principal tarefa do próximo futuro é realizar a quadratura do círculo e pôr de acordo politécnicos, associações de municípios, associações empresariais e serviços regionais e no interior deste quadrado criar um “centro de racionalidade” que seja capaz de pôr alguma ordem na cacofonia ecológica e digital do mundo rural.

Não temos quaisquer dúvidas, haverá mais campo na cidade e mais cidade no campo. Desde a agricultura vertical na cidade, à agricultura acompanhada pela comunidade, às novas agriculturas periurbanas, à agricultura de precisão e às agriculturas de nicho, estaremos cada vez mais num continuum agroecológico. Ao mesmo tempo abrem-se novas cadeias de valor e as start-up da economia digital, sobretudo as empresas do marketing digital e da publicidade, aproveitarão a oportunidade e tomarão o mundo rural como um décor para as suas próximas incursões e representações. Não será apenas a agricultura de precisão com os seus agribots, será, também, uma “agrocultura” que chegará com os neo-rurais mais românticos. O mundo rural e o campo tornar-se-ão uma espécie de cenário natural para as produções low cost da cibercultura mais variada. Esperemos que à volta delas apareçam as pequenas economias de aglomeração.