Opinião

O saudável ódio aos livros

Não há certamente nenhum outro sector da produção e do comércio tão necessitado de uma revolução, de uma destruição que faça tábua rasa da ordem existente.

A última crónica de José Pacheco Pereira, neste jornal, era um grito de alarme e uma exortação, logo no título: “O combate civilizacional pelos livros e pela leitura”. Tirando a questão muito discutível que consiste em identificar os livros ao processo civilizacional e, pelo menos implicitamente, fazer uma periodização hierárquica da história entre civilização e barbárie, o texto de Pacheco Pereira merece ser repercutido, discutido e prolongado.

Em primeiro lugar, é preciso reconhecer que a morte de livrarias (e são muitas as que se têm extinguido em toda a Europa, nos últimos anos) não corresponde à morte do livro, mas é antes o sintoma da difícil sobrevivência de algumas espécies de livros. A verdade é que não assistimos, no nosso tempo, a um declínio do livro como medium. Pelo contrário, eles são cada vez mais abundantes e o mal de que padece o sector não se manifesta no emagrecimento, mas na obesidade. Por isso, as campanhas de defesa do livro, as operações salvíficas e o proselitismo que este sector da indústria e da cultura suscitam são quase sempre mais perniciosas do que benéficas: é que os principais inimigos dos livros que precisam de ser defendidos são precisamente os livros que não precisam que se faça nada em favor deles. O problema está em delimitar a fronteira entre as duas categorias, sem legitimar mecanismos de censura.

No entanto, sabemos muito bem que há espécies bibliográficas em perigo, que há géneros minoritários que vão escasseando. E são precisamente as livrarias vocacionadas para os alojar e vender que vão desaparecendo, acelerando o processo e estabelecendo um círculo vicioso. A poesia, a filosofia, as ciências humanas, o teatro estão cada vez menos representados nas secções das grandes livrarias; e as pequenas, não podendo contar com os livros de rápida rotação, não conseguem sobreviver. E assim tudo concorre para a lógica perversa da extinção ou da circulação quase clandestina de uma parte muito importante da produção editorial.

Não é o livro que está em perigo (esse, é produzido em abundância); o que está em perigo (e não faltam no últimos anos os gritos de alarme, um pouco por todo o lado) é precisamente o sector da literatura, do ensaísmo, da ciência e das humanidades, que foi, até ao momento em que a edição seguiu o modelo do consumo e da produção industrial, o tronco da actividade editorial. Tanto livro, tanto livro, mas a maior parte do património literário está completamente ausente da edição e, ainda mais, das livrarias. Podemos dizer que os livros gozam hoje de um prestígio que, na generalidade, já não merecem; e que não há maior injustiça do que o triunfo deste canibalismo do lixo editorial que, ainda por cima, se alimenta do capital simbólico daqueles que ele devora. Este estado de coisas engendrou até a sua linguagem e os seus “conceitos”: as categorias de “ficção” e “não-ficção”, esse jargon que o sector editorial difundiu com sucesso por todo o lado, até nas páginas de crítica literária, representam a realização de um desígnio de simplificação e redução. Inventam-se as categorias e depois organiza-se o mudo em função delas.

Não há certamente nenhum outro sector da produção e do comércio tão necessitado de uma revolução, de uma destruição que faça tábua rasa da ordem existente. Aguardamos com impaciência e pouca esperança um assalto total perpetrado por grandes destruidores. Entretanto, em vez da injunção muito humanista que nos induz a amar os livros, tenhamos a coragem de dizer à entrada de uma dessas livrarias que nos recebem com os “tops” de “ficção” e “não-ficção”: odeio livros.