Ciência

Previsão do tempo para amanhã? Só depende de nós

Um dos pilares da investigação sobre as alterações climáticas mostra-nos uma assustadora linha dentada com o aumento da concentração de dióxido de carbono na atmosfera. A Curva de Keeling é o registo e a prova de um planeta ofegante. O que mudou em 28 anos?

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Reuters/STEPHANE MAHE

Lisboa com mínima de nove graus e máxima de 12 e com períodos de chuva, o Porto entre os dez e 15 graus com céu muito nublado, nas Penhas Douradas encontra-se o mais próximo de temperaturas negativas com o registo de zero graus e a cidade mais quente é o Funchal, que atinge a máxima de 19 graus. Esta foi a "situação observada" em Portugal a 5 de Março de 1990, segundo a edição do dia seguinte do jornal PÚBLICO. Não parece muito diferente do que temos hoje. Apesar deste exercício simples – e por mais que Donald Trump e outros ilustres cépticos o neguem –, o clima no planeta está a mudar e rapidamente. Entre muitas outras ferramentas de diagnóstico há uma que nos mostra especificamente a difícil respiração da Terra, cada vez mais ofegante.

Há milhares de dados e estatísticas sobre o passado, presente e um futuro que vai desde a possibilidade de sobrevivência à catástrofe. Um dos pilares da investigação sobre as alterações climáticas é formado por dados de um instrumento que se encontra no topo do vulcão Mauna Loa, no Havai (a mais de três mil metros de altitude) e que mede, desde o final dos anos 50, a concentração do dióxido de carbono (CO2) na atmosfera. O que vimos é uma assustadora linha ascendente dentada que parece imparável. Chamam-lhe Curva de Keeling e é uma das melhores formas de mostrar o mal que escolhemos viver.

O CO2 é responsável por 63% do aquecimento global e a sua concentração na atmosfera é actualmente 40% mais elevada do que no início da era industrial, resultado do aumento de emissões de gases com efeito de estufa. "Este dado mostra como a nossa atmosfera mudou", constata Filipe Duarte Santos, especialista em alterações climáticas e presidente do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável.

Charles Keeling, geoquímico do Instituto de Investigação Scripps, na Califórnia (EUA), quis medir a quantidade de CO2 na atmosfera e descobriu que existe um ciclo sazonal de concentrações mínimas e máximas que depende das plantas a crescer na Primavera (e a absorver o principal gás com efeito de estufa) e a desaparecer no Outono. O ciclo revela como o planeta inspira e expira, ou seja, respira. As suas medições mostram um aumento de CO2 constante, causado pelo uso de combustíveis fósseis.

Quando foi instalado, em 1958, o valor medido era de 316 partes por milhão (ppm) de CO2. Em termos simples, isto quer dizer que para cada milhão de moléculas de diferentes gases na atmosfera 316 eram de CO2. Em 2017 os registos da Curva de Keeling mereceram uma atenção especial à escala mundial. Era um momento histórico no ambiente pelas piores razões: a atmosfera do nosso planeta tinha passado em 2016 a barreira das 400 ppm de CO2, atingindo as 403,3 ppm. Para encontrar um ambiente semelhante na Terra teríamos de recuar três a cinco milhões de anos. Em 2017, os resultados preliminares apontam para uma média de cerca de 406 ppm. Em 1990 este instrumento registava 354 ppm de CO2.

Lembrando que estamos ainda numa fase ascendente do ciclo sazonal, os registos da última semana de Fevereiro (as medições diárias estão online) andaram sempre acima dos 408 ppm. A Terra, conclui-se, está cada vez mais ofegante.

Em 2100, com um crescimento económico rápido e apoiado no recurso intensivo a energias fósseis, a Curva de Keeling poderá ultrapassar as 900 ppm; se nos apoiarmos em diferentes recursos energéticos (se fizermos alguma coisinha, portanto), ficamos próximos das 700; e num cenário de uma mudança rápida de paradigma, optando por tecnologias limpas e eficientes, a curva ficará um pouco acima das 500 ppm.

Hoje, há vários instrumentos que medem o CO2 na atmosfera (incluindo o que temos, por exemplo, na ilha Terceira, nos Açores) dispersos por todo o mundo. Além de uma monitorização contínua, esta rede permitiu também validar as medições registadas na Curva de Keeling que, desde a morte de Charles Keeling em 2005, é coordenada por Ralph Keeling, o seu filho.

O que mudou em 28 anos?

Filipe Duarte Santos lembra, a propósito dos 28 anos do PÚBLICO, que 30 anos "é o período mínimo definido pela Organização Meteorológica Mundial para caracterizar um clima". Apesar das coincidências nas previsões meteorológicas com 28 anos de intervalo, o que mudou? "Entre 1990 e 2017, a temperatura global aumentou 0,5 graus Celsius; o nível do mar cerca de 85 milímetros", destaca Francisco Ferreira, presidente da associação ambiental Zero.

Para os mais distraídos que não procuram gráficos e estatísticas com curvas e barras de coisas boas a descer e coisas más a subir, há o que está a acontecer cá fora. Há furacões e tempestades cada vez mais frequentes e baptizados com nomes de pessoas que, por esta altura, seriam suficientes para criar uma aldeia. Allen (1980), Mitch (1988), Andrew (1992), Katrina (2005), Sandy (2012), Irma (2017), só para citar alguns. Para não ir mais longe, a semana passada, a depressão Emma passou pelos Açores e uma vaga de frio siberiano atingiu a Europa.

Há também as infernais ondas de calor, como a que se verificou na Europa em 2003. O recorde do ano mais quente (globalmente) desde que há registos fiáveis pertence a 2016. Nesse ano, a temperatura média foi de 1,1 graus Celsius acima dos níveis da era pré-industrial. Um aumento de dois graus Celsius em relação à temperatura na era pré-industrial, alertam os cientistas, pode ser catastrófico.

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Há ainda prolongados períodos de seca, como o que vivemos actualmente, e que misturam uma aparente calma com as garantias sobre a água que não vai faltar nas torneiras do nosso país com o desespero dos agricultores. Há os fogos florestais que, atiçados por períodos de seca e altas temperaturas, atingem dimensões trágicas, como vimos em Portugal em 2003, 2005 e 2017. "Parece que está tudo sob controlo, mas não está. De modo nenhum. A médio e longo prazo vai ser muito complicado", avisa Filipe Duarte Santos.

O aumento da temperatura global, a falta de precipitação e os fenómenos extremos têm mais do que consequências imediatas. O impacto destas alterações climáticas também se reflecte na agricultura, na saúde humana, na biodiversidade, na economia. Há espécies que simplesmente não se adaptaram às mudanças e desapareceram da face da Terra. E nós, humanos, somos cada vez mais a pesar no planeta. Em 1999 a população mundial era de 6000 milhões e em 2017 as Nações Unidas anunciaram que havia 7600 milhões de habitantes. Em 2100 podemos ser 11.200 milhões.

Os gráficos dos cientistas (com destaque para os dados do Painel Intergovernamental para a Alterações Climáticas, IPCC na sigla em inglês) comprovam tudo: desde o aumento das temperaturas médias no ar e no mar ao degelo, passando pela subida do nível das águas do mar, a linha ascendente das emissões de CO2, a linha descendente da abundância de espécies de vertebrados, as quebras na precipitação, a frequência de fenómenos extremos como furacões e muito mais.

Quioto e Paris

O IPCC já vai na publicação do quinto relatório, numa "colecção" pouco animadora sobre o estado de saúde do planeta iniciada em 1990 com a apresentação do primeiro relatório deste grupo de trabalho das Nações Unidas. Um relatório especial do IPCC sobre o aumento de temperatura global e estratégias para controlar este fenómeno deverá ser publicado em Outubro deste ano.

De facto, não se pode dizer que os especialistas não têm estado atentos. O problema é agir. "Temos de ter a noção de que os custos de tudo o que agora consigamos evitar em termos de emissões ou preparar para resistir às consequências das alterações climáticas sairá mais barato do que remediar os danos futuros. O custo da inacção é muito superior ao da acção", argumenta Francisco Ferreira.

O esforço à escala global mais recente é o bem-intencionado mas pouco ambicioso Acordo de Paris, que quer garantir que o aumento de temperatura média fica abaixo dos dois graus Celsius. É um compromisso que fica muito aquém do desejável, mas os cientistas conformam-se com o facto de ser melhor do que nada. "A esperança é limitada, a urgência é muita, os políticos trabalham muito mais devagar do que é necessário, mas estaríamos pior sem acordo", confirma o presidente da Zero.

Já houve muitas outras tentativas. A mais conhecida será o Protocolo de Quioto. Um compromisso célebre que mostrou o tempo que demora a conseguir um consenso nesta matéria. Foi discutido e negociado em Quioto, no Japão, em 1997, entrou em vigor a 16 de Fevereiro de 2005, expirou em 2012.

Do lado dos EUA o acordo foi negociado pelo ex-vice-presidente Al Gore e assinado pelo ex-presidente Bill Clinton (em 2007, Al Gore e o IPCC ganharam o Nobel da Paz pelo "esforço conjunto na criação e disseminação de um maior conhecimento acerca da influência humana nas mudanças climáticas e pelo lançamento das bases necessárias para inverter essas mudanças"). Em 2001 George W. Bush anunciou que iria abandonar Quioto por considerar que seria prejudicial para a economia norte-americana. Soa familiar?

Barack Obama tentou reverter o "boicote" de Bush levando o Protocolo de Quioto ao Senado para ser ratificado em 2009. Mas, a história repete-se, e há de novo um muro a separar os EUA do progresso ambiental. Invertendo a política e quebrando as promessas do seu antecessor, o actual Presidente norte-americano, Donald Trump, pregou a prometida rasteira ao planeta com o anúncio oficial, em 2017, sobre a saída dos EUA do Acordo de Paris. O gesto não foi inédito, nem surpreendente e pode até acabar por ser pouco eficaz. Há vários estados norte-americanos que já fizeram saber que, à revelia de Trump, vão estabelecer metas para a redução de emissões e alinhar nos princípios do Acordo de Paris.

Por cá, temos o Programa Nacional para as Alterações Climáticas 2020/2030 e a meta de ter um país neutro em carbono em 2050 — mas também muitos problemas. "Enquanto a Europa tem conseguido reduzir (muito pouco, mas tem) as emissões de CO2, em Portugal continuam a aumentar", alerta Filipe Duarte dos Santos.

Em Novembro de 2017, cerca de 15 mil cientistas de 184 países, incluindo 200 de Portugal, juntaram-se para gritar à humanidade que continuamos a destruir a Terra. No artigo publicado na revista Bioscience, avisavam que os danos eram já "irreversíveis" e "substanciais". Em 1992 mais de 1700 cientistas tinham feito um alerta no mesmo tom. "Os seres humanos e o mundo natural estão em colisão."

Falhámos muitas vezes. Um dos principais problemas é a dependência mundial dos combustíveis fósseis e "trocar o carvão, o petróleo e o gás natural que alimentam a produção de electricidade, os transportes, a indústria por fontes renováveis é muito difícil", constata Francisco Ferreira. "É todo um paradigma que tem de ser mudado", e, diz, muitos de nós parecem ainda mergulhados "numa panela a aquecer lentamente sem dar pelo calor a aumentar".

Mesmo que se faça muito e muito rapidamente, as alterações climáticas vão continuar. Vai demorar a curar as feridas de muitos anos de maus tratos. "A grande questão é que, se não fizermos o suficiente para impedir um aquecimento superior a dois graus Celsius (preferencialmente a 1,5 graus) em relação à era pré-industrial, os efeitos serão catastróficos e serão os países mais vulneráveis e mais pobres a sofrer, num cenário inexorável de injustiça climática", avisa o presidente do Zero.

Fazer previsões para o futuro é difícil e desanimador. É impossível, por exemplo, acertar na previsão meteorológica para 5 de Março de 2046, daqui a 28 anos. É um "amanhã" demasiado distante. Mas há uma certeza: depende do que se fizer até lá. Depende de todos nós. n

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