Torne-se perito

O carpinteiro, o inventor da naftalina, o sonho do moscardo, os livros da Ásia, ou a arte de contar histórias

João Penalva tem a sua primeira exposição individual no Museu de Arte Moderna do Luxemburgo (MUDAM), que agora vai ser dirigido por Suzanne Cotter, ex-directora de Serralves.

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A instalação Door, queJoão Penalva produziu expressamente para o MUDAM João Penalva
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Men asleep (2014) João Penalva
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Pavlina and Dr Erlenmeye,Pavlina and Dr Erlenmeye João Penalva,João Penalva
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Moth-eaten pair of trousers. Never used., 2010 João Penalva
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Petit Verre João Penalva
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From Store João Penalva

“Diria que esta é uma exposição que pede tempo”, nota João Penalva (n. Lisboa, 1949) após a visita guiada de apresentação da sua primeira mostra individual no Museu de Arte Moderna Grand-Duc Jean (MUDAM), no Luxemburgo, que abriu ao público este fim-de-semana. E o artista português desde há décadas radicado em Londres diz isto não por acreditar que algum visitante-espectador vá ficar a espreitar pela fresta de uma porta os 140 minutos que dura a instalação Door, que produziu expressamente para o MUDAM, ou os 112 minutos e 8 segundos do slide show em looping Men asleep (2014), um encadeamento de fotografias de homens a dormir nos lugares e situações mais inesperados sob uma banda sonora de temporal…

“Normalmente, eu peço ao espectador que fique muito tempo a ver as minhas peças, e para isso dou-lhe cadeiras para ele se sentir confortável; mas sei que ninguém fica a pé a espreitar por uma frincha de uma porta mais do que dois, três minutos”, diz Penalva ao PÚBLICO, falando da obra que concebeu para o MUDAM.

Door é a instalação que encerra o percurso da exposição com que o artista português ocupa todo o piso térreo do edifício inaugurado em 2006 com a marca do celebrado arquitecto sino-americano Ieoh Ming Pei (Prémio Pritzker 1984; autor da Pirâmide do Louvre). Penalva gostaria de ter podido expandir ainda mais no espaço esta sua criação, que faz o espectador acompanhar, na medida da sua paciência e motivação, a construção, em tempo real, de uma cadeira por um carpinteiro – da equipa do Teatro Nacional de São Carlos, explicou o artista ao PÚBLICO.

A própria porta é já, na sua antiguidade e superfície muito gasta, um objecto propício à ficção. Penalva explica que a encontrou à venda na Internet, em Inglaterra, quando procurava mesas para a colocação dos sete livros-de-artista que, desde 2007, vem dedicando ao seu fascínio pelo Japão e outros lugares do Oriente – The Asian Books, que o MUDAM também editou agora num volume incluído na exposição.

A porta em causa estava assinada: “John Tanner, 1896”. O artista achou que, a partir daqui, podia iniciar toda uma investigação-ficção em volta dessa personagem. Acabou por decidir que a porta era já de si uma peça de ficção, a que lhe acrescentou a possibilidade de o espectador criar outras histórias associadas ao voyeurismo de olhar o carpinteiro do lado de lá, cujo trabalho vai sendo entrecortado por fotografias vintage de antigos operários, e um ou outro gesto mais inesperado.

Mestre da mise-en-scène

“João Penalva é um mestre da mise-en-scène, um contador de histórias, mas não de histórias tradicionais, daquelas que têm uma finalidade moral”, realça Clément Minighetti, curador-chefe do MUDAM e comissário da exposição, a abrir a visita guiada para os jornalistas, na sexta-feira. E o (seu) prazer da narrativa e do efeito de persuasão atinge o seu momento forte quando, a meio do percurso, entramos nas duas salas que acolhem Pavlina and Dr. Erlenmeyer (2010). Se procurarmos na Wikipedia, ficaremos com a informação de que Carl Emil Erlenmeyer (1825-1909) é uma personagem real, um químico alemão que, entre outros feitos, inventou a… naftalina. Mas a “história” que Penalva nos conta, com segura verosimilhança, nas quatro paredes de uma sala escura, qual ‘gabinete de curiosidades’, é pura invenção: desde a fórmula química ‘C10 H8’, até ao esquema gráfico da máquina de fazer naftalina líquida, patenteada na Suécia em 1924, até ao cartaz publicitário de uma ‘Tinturaria Pires Branco’, que trata de ‘lutos’, tudo é reconstruído.

“Ele inventa histórias a partir de personagens reais, usa elipses como quem cria intervalos para nós respirarmos, com sucessivas mudanças de ritmo”, nota Minighetti.

Um desses intervalos pode ser um simples raio de luz (Light beam, 2007), que nos coloca a ver, no vértice superior de uma sala, o movimento de poeiras num pequeno ecrã-íris; ou então Kitsune (The Fox Spirit) (2001), o vídeo que através de um diálogo em voz off em japonês nos transporta para o imaginário de uma floresta encantada nesse país – mesma se a filmagem deste vídeo, que é das dezasseis obras a mais antiga na exposição, foi feita… na Madeira.

Marcas portuguesas

“Há nas diferentes linguagens – pintura, fotografia, vídeo, livros, instalação… – da obra de João Penalva uma filosofia que nos transporta para além de nós próprios”, anunciou Suzanne Cotter na apresentação da exposição. E a ex-directora do Museu de Serralves inscreveu a obra do artista português no contexto da criação europeia e universal, mesmo se não deixa nunca de denunciar “as marcas da sua origem como português, na dimensão literária e poética da sua linguagem”.

À sua história pessoal e artística – começou na dança, tendo integrado as companhias de Pina Bausch e Gerhard Bohner, antes de fundar a sua The Moon Dance Company (com Jean Pomares), tendo-se depois virado para as artes plásticas de modo autodidata – não será estranha a série From Store (2008-09), onde reproduz em fotografia a preto-e-branco (com dois leves apontamentos de cor) o mundo do ballet e os bastidores mais físicos do teatro – e sobre os quais podemos sempre inscrever a (nossa) história dos actores e bailarinos que os habitam...

Até 16 de Setembro, data de fecho, a exposição no MUDAM vai ser acompanhada com algumas iniciativas paralelas, entre as quais se realça, na véspera do encerramento, a evocação da relação do artista com o mundo da dança no espectáculo da Companhia Nacional de Bailado Quinze Bailarinos, uma coreografia de Rui Lopes Graça com direcção e figurinos de João Penalva, que foi estreada no Festival ao Largo do Teatro Nacional São Carlos, em Lisboa, em Julho do ano passado.

Entretanto, quem entrar no MUDAM vai poder ver não apenas a obra de João Penalva, que circula “livremente de um médium a outro, entre o fantástico e o prosaico” (Clément Minighetti dixit), mas passear igualmente pela arquitectura banhada de luz de I.M. Pei, que oferece ao visitante inesperados cenários e enredos de História, na relação que estabelece com o planalto que bordeja a velha cidade do Luxemburgo. É como se a luz e a arte se tivessem sobreposto – uma vitória redentora? – à arquitectura da guerra, já que o novo museu foi construído sobre as estruturas e as ruínas do Forte Thüngen (século XVII), tendo deixado nele um rasto de modernidade, que simultaneamente se está a expandir na cidade nova (ainda) em construção no Bairro Kirchberg, com as sedes de instituições da União Europeia como o Banco Europeu de Investimentos (BEI), ou o Tribunal de Justiça. Mas também com a feérica nova Filarmonia do Luxemburgo desenhada pelo arquitecto francês Christian de Portzamparc, situada mesmo ao lado do MUDAM.

E quem, por estes dias, percorrer as galerias do museu de I.M. Pei, além da artista (e música) luxemburguesa Su-Mei Tse, e da colectiva Flatland/ Abstractions Narratives #2, poderá ver, na mostra da colecção do museu, e ainda nessa relação com o lugar, a peça do português Miguel Palma Pays/scope (2012), que, através de uma câmara de filmar, regista num ecrã a projecção num espelho da imagem em permanente instabilidade da vista sobre o monte fronteiro ao museu. Como se tratasse de um pesadelo persistente.

O PÚBLICO viajou a convite do MUDAM