Análise

Pesadelos da Índia

É a economia que mais cresce, batendo a China. Mas “a maior democracia do mundo” confronta-se com os jovens da geração mais desesperada desde a independência.

Na Europa, fala-se muito da China, o que é normal, e muito pouco da Índia, o que é miopia. O papel da Índia será vital nos equilíbrios e no destino da Ásia, o que se reflectirá em todo o mundo. Esta semana, o Financial Times noticiou que, em 2017, entre as grandes economias, a indiana foi a que mais cresceu, acima dos 7%, um pouco mais do que a chinesa, que se terá ficado pelos 6,8%. Segundo o Banco Mundial, a Índia tornar-se-á em 2018 a quinta economia mundial. Com quase 1,3 mil milhões de habitantes — já a par da China —, não pode ser ignorada.

Na “Shining India”, a Índia que brilha, a “maior democracia do mundo”, nem todas as notícias são boas. Olhemos o que se diz sobre o “estado do país”.

Metade da população tem menos de 25 anos, o que representa uma vantagem perante o envelhecido Japão e uma China a caminho disso. Todos os anos entram no mercado de trabalho milhões de jovens. A economia cria 350 a 400 mil empregos por mês, quando seria necessário criar um milhão, observa na Foreign Affairs o economista indiano Milan Vaishinav. “As aspirações de centenas de milhões de indianos estão a ser frustradas e não satisfeitas, o que pode ter implicações potencialmente explosivas no tecido social.”

A geração desesperada

“Esta é a mais desesperada geração de indianos desde a independência, (...) mas também a mais seduzida pela dominação mundial”, escreve a jornalista Snigdha Poonam, do Hindustan Times. Poonam acaba de publicar um livro que é tema de acesa discussão na Índia e na imprensa anglo-saxónica: Dreamers: How Young Indians Are Changing the World (Hurst, 2018). É o resultado de uma longa reportagem na “Cintura Hindi”, Nordeste da Índia, bastião do hinduísmo.

Menos de 17% dos licenciados indianos podem ter emprego imediato. E há outra praga: o ensino. O nível de iliteracia dos estudantes é assustador. “Apenas 2,3% da força de trabalho indiana tem as qualificações e o treino necessários — contra 80% no Japão ou 96% na Coreia do Sul. A Índia precisa de educar cem milhões de jovens nos próximos dez anos, “uma tarefa sem precedente histórico”. Cerca de 117 milhões de pessoas devem ser recrutadas para novos ou mais produtivos trabalhos. A crescente brecha entre empregos e candidatos ao emprego pode levar, segundo a OIT, a uma “geração perdida”.

Isto tem consequências políticas. Os “dreamers” esperam tudo: que o Governo lhes garanta as liberdades constitucionais e torne a sociedade mais igualitária. Mas “a democracia indiana dá poucos sinais de perseguir tão nobres ideais”, diz Poonam. Outro efeito é “o cancerígeno crescimento da raiva sectária”. Os jovens mais frustrados estão a tornar-se uma tropa de choque “ao serviço do mais virulento nacionalismo hindu”.

Ao contrário das aspirações, a desigualdade social sobe — está ao nível mais alto desde 1922. As previsões de uma próxima “era dourada” baseiam-se em duas tendências: a acelerada urbanização e o “dividendo demográfico”, explica Vaishinav. Mas desponta um cenário mais sombrio, “em que a combinação das forças da urbanização e da demografia não levam a um rico dividendo mas antes a um desastre social”.

Classe média

A classe média indiana é muito celebrada. Mas, na esmagadora maioria, é uma classe muito pobre, entre uma minoria milionária e uma massa de miseráveis. A notável expansão da classe média chinesa partiu das fábricas. Ora, a indústria indiana, onde dominam pequenas e arcaicas empresas, está muito longe da chinesa. E os “oásis do software” no Sul não o compensam. Nem todos podem ser engenheiros informáticos.

Na Índia, a indústria manufactureira representa 17% do PIB, contra 29% na China e na Coreia do Sul. Precisa de passar dos 17% para 25% e criar cem milhões de postos de trabalho numa década, afirma Alyssa Ayres, especialista do Council on Foreign Relations e autora de um recentíssimo livro sobra a Índia: Our Time Has Come: How India Is Making its Place in the World, Oxford University Press, 2017. “Se a indústria manufactureira falhar o seu surto, o futuro económico da Índia será posto em questão e, com ele, o sonho de o país se tornar uma potência global.”

Modi e a pressão hinduísta

A democracia indiana, articulada com o sistema das castas, foi sempre imperfeita, mas também eficaz para amortecer “o milhão de revoltas” e o caos que caracterizam a Índia. As castas baixas fizeram a sua “revolução silenciosa, legal e sem sangue” (Christophe Jaffrelot), graças a uma discriminação positiva.

Hoje, a grande questão política decorre de uma dupla ameaça. A primeira é a tentação de identificar a Índia, plural e multicultural, com a cultura e o nacionalismo hindus — Hindutva ou “hinduidade” —, subalternizando as minorias — muçulmana, cristã ou budista. Isto não pressupõe apenas a intensificação dos conflitos “étnico-culturais” mas uma guerra com os “secularistas”, na esmagadora maioria também hindus. Narendra Modi, do Partido do Povo Indiano (BJP), não venceu esmagadoramente as eleições de 2014 com um discurso sectário. Ganhou graças ao desprestígio do Partido do Congresso, da família Gandhi. Depois, seduziu as classes médias com um discurso de liberalização económica em que se apresentava não como político mas como “gestor do país”. E, sobretudo, seduziu aqueles a quem chamou a “neoclasse média”, os que estão à porta e sonham entrar.

A conflitualidade está a subir graças à nova arrogância dos extremistas do BJP, decididos a impor a sua hegemonia, não só sobre os muçulmanos, mas também, ou sobretudo, sobre os “secularistas”, a quem acusam de ser “antinacionais”. As universidades são um palco privilegiado deste confronto.

A segunda tentação é a do “poder forte”. Narendra Modi dispõe da maioria absoluta no Parlamento. Ele e o BJP são acusados de visar uma “democracia iliberal”, um “regime maioritário” controlado pela comunidade dominante. Denunciam a sua marcha para um “modelo Erdogan”. É um diagnóstico muito precoce. Os mecanismos de limitação do poder, a começar pelo Supremo Tribunal e pela imprensa, funcionam plenamente.

A Índia sempre pareceu um caos ou uma “anarquia que funciona”, como disse John Galbraith quando era embaixador em Nova Deli. Para avaliar a Índia de hoje, é bom “olhar para trás e ver com era há 25 anos”, aconselha Alyssa Ayres. Conclui: “A imagem da Índia como um país à beira da meta, mas que nunca lá chega, acabará por passar à história.”