Resposta a um sportinguista zangado

O facto de o futebol ser um mundo sujo, e de haver múltiplas razões para duvidar da hombridade de personagens como Filipe Vieira ou Pinto da Costa, não justifica um discurso totalitário.

A propósito do artigo que escrevi sobre Bruno de Carvalho, um leitor deixou este comentário no meu Facebook: “Sempre fui um leitor assíduo dos seus textos. Os quais se identificavam sempre com a minha linha de pensamento. Lá estava plasmado tudo o que gostaria de dizer faltando-me o engenho para tal. Contudo, o que escreveu sobre o presidente do meu clube foi para mim de tal gravidade que me faz abandonar este espaço. (…) No seu clube as situações são muitíssimo mais graves e o seu silêncio sobre isso raia a falta de seriedade.” Esta crítica merece que eu regresse ao tema do Sporting, para clarificar dois pontos que são para mim fundamentais.

O primeiro tem a ver com aquilo a que se costuma chamar a “paixão pelo futebol”, e que todos nós tendemos a aceitar pacificamente, como uma espécie de fanatismo manso. Ninguém leva a mal que um adepto de futebol declare em público que prefere ver a sua equipa ganhar com um golo irregular do que acabar o jogo empatado – e quem não apreciou a mão de Vata no jogo com o Marselha, como é o meu caso, é porque não é um verdadeiro benfiquista. Deixou-se aos poucos instalar a ideia de que o verdadeiro benfiquista, tal como o verdadeiro sportinguista ou o verdadeiro portista, deve suspender durante 90 minutos o espírito crítico e as regras de civilidade como demonstração da sua verdadeira “paixão” pelo clube. Alguém aceitaria que um militante do PSD declarasse publicamente que preferia ver Rui Rio ser eleito primeiro-ministro através de uma fraude eleitoral do que António Costa continuar em São Bento? Claro que não. Mas o futebol é outra coisa, não é?

Eu até estaria disposto a admitir que o futebol é, de facto, outra coisa se esse fanatismo fosse apenas do domínio da encenação, como o Carnaval – um breve momento em que nos entregamos nos braços da loucura. Só que o peso que o futebol tem presentemente na nossa sociedade, e a forma como ele está a contaminar o nosso espaço público, cada vez permite menos essa tolerância para com comportamentos bárbaros. Precisamos, por isso, de regressar ao bê-á-bá civilizacional, colocando o futebol no seu devido lugar, deixando de ser complacentes com a conversa dos fanáticos e combatendo todos os discursos totalitários.

E é assim que chegamos ao segundo ponto fundamental deste texto e às críticas do leitor. Quando ele declara que no Benfica há situações “muitíssimos mais graves” e que não falo delas, o mais importante não é mostrar o que eu já disse sobre Luís Filipe Vieira (e disse alguma coisa), mas afirmar claramente que para quem ama a liberdade não há situação mais grave no futebol do que a tripla bizarria a que assisti na última semana. 1) O discurso de Bruno de Carvalho sobre o que os sportinguistas devem ver, ler ou fazer; 2) o índex detalhado do inquisidor Saraiva sobre como se deve comportar uma comunidade de 3,5 milhões de pessoas; 3) o comunicado conjunto do Sporting e de uma dúzia de comentadores amestrados sobre o “desrespeito sistemático da instituição”.

O facto de o futebol ser um mundo sujo, e de haver múltiplas razões para duvidar da hombridade de personagens como Filipe Vieira ou Pinto da Costa, não justifica um discurso totalitário, mesmo que em nome do combate à corrupção. Todos os fascismos e todos os comunismos destruíram regimes corruptos – e isso não os tornou mais admissíveis. Metam isto na vossa cabeça, por favor: entre um grande ladrão e um aprendiz de ditador, o aprendiz de ditador é, de longe, o mais perigoso.