Mahdiar Mahmoodi/Unsplash
Foto
Mahdiar Mahmoodi/Unsplash

Megafone

Sim, fui ao Irão

Com o fito de cumprir aquilo a que me propus, decidi ir sentir um dos povos mais melindrados da actualidade: os iranianos. Sim, fui ao Irão e se, neste momento, estão a ler esta crónica é porque regressei ileso

Lembro-me do meu pai, com aquele tom de voz com que se partilha sabedoria, dizer-me: “Sempre que a maioria das pessoas falar mal de alguém é porque, provavelmente, esse indivíduo fez alguma coisa acertada”. Para ser sincero, naquele momento, aquelas palavras não me fizeram grande sentido. Qual a razão de estarem tantas pessoas a falar mal de alguém sem motivo? Agora, quando olho para trás, percebo que era muito difícil decifrar a sapiência daquelas palavras. Tal pode ser justificado por, com aquela idade, eu ainda ser um profundo crente da ideia “Se disseram na televisão é porque é verdade”. Com o tempo fui-me apercebendo de que se tratava de um daqueles conselhos que precisam de ser regados pela maturidade para que se possa colher alguma experiência.

Nunca pensei ver pontes entre as palavras do meu pai e as do ministro da Propaganda de Hitler, Joseph Goebbels, mas quando tomei conhecimento de uma determinada afirmação deste senhor, a ligação foi inevitável. “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”, terá proferido o nazi. Portanto, a partir desse dia, decidi ver com os meus próprios olhos tudo o que me suscitasse dúvidas.

Os preconceitos cegam-nos e escondem-nos da alegria que habita no desconhecido. Estamos, constantemente, à mercê dos abutres televisivos que, sem descanso, sobrevoam a nossa opinião putrefacta. A curiosidade adormecida vai-se satisfazendo com experiências dissimuladas por intermediários. E, desta forma, vamos tendo opinião sobre tudo sem ter vivido nada. Desculpem o desabafo, mas não é isto que quero para mim. Quero ver, tocar, cheirar e sentir o máximo que puder para, aí sim, ter uma opinião que não seja emprestada.

Com o fito de cumprir aquilo a que me propus, decidi ir sentir um dos povos mais melindrados da actualidade: os iranianos. Sim, fui ao Irão e se, neste momento, estão a ler esta crónica é porque regressei ileso. Tudo começou com um incómodo que nenhum comprimido era capaz de resolver. Cada vez que falavam deste país na televisão, dava por mim com aquela comichão no nariz que só se resolve quando decidimos coçar a curiosidade.

Após ter decidido tentar descobrir o que está para além das “bombas atómicas” e dos “terroristas”, comecei a receber diversos conselhos de pessoas que, pela sua assertividade, pareciam ser especialistas em Médio Oriente. “Irão? Tu és é maluco”, “Eles são todos uns fanáticos do piorio” ou — para mim, a melhor — “Olha que aquilo é perigoso”. Saber que existem tantos portugueses que conhecem a realidade do Irão deixou-me descansado. Ao ser encorajado desta forma, não tive alternativa a não ser partir. Calculei que 12 seria o número de dias ideal para conhecer cinco cidades e percorrer cerca de 2000 quilómetros.

Sabemos que estamos vivos quando, constantemente, ouvimos sair um "Uau" da nossa boca. Perdi-me inúmeras vezes e encontrei-me outras tantas. Cruzei-me com sorrisos e com uma generosidade invulgar. Bebi chá, muito chá. Percebi que ainda somos Eusébio. Descobri que também somos Mariza. Andei nas dunas e escorreguei na neve. Voltei a beber chá. Atravessei nas passadeiras como se fossem auto-estradas de três faixas.

Negociei tapetes. Senti que nós somos os outros e os outros somos nós. Pude constatar que a ideia que um regime nos transmite na televisão em nada coincide com o seu povo. Olhemos para nós, entre a corrupção desmedida e a justiça disfuncional, conseguimos ser um país que recebe como ninguém, temos imensos monumentos e, como não podia deixar de ser, temos uma gastronomia de fazer inveja ao mundo inteiro.

Um dos meus desejos nesta vida é que todos os sonhos, um dia, se tornem boas memórias. Felizmente, esta já ninguém me tira. Acredito que não vale a pena continuar a construir muros de ideias pré-concebidas à nossa volta. A curiosidade, quando mantida em cativeiro, começa a minguar até perdermos todas as chances de nos deslumbrarmos. Há muito mundo lá fora e poucas barreiras para o alcançar. Do que estás à espera?